book

Desassossegos — Ata expandida do 8º EPRAE

Esta publicação não atua no domínio estrito de uma ata, enquanto registo daquelas que foram as apresentações realizadas no 8º EPRAE, mas também traz consigo a possibilidade de fomentar o processo contínuo de escrita e reescrita pertinentes à investigação.

  • Edição
  • Amanda Midori, Ana Mafalda Pereira, Joana Nascimento, Maria de Lurdes Gomes, Maria Inês Barreira
  • Ano
  • 2022
  • isbn | issn
  • 978-989-9049-27-7
Desassossegos

Entre desassossegos: Continuar a revirar a escrita e a investigação

Os Encontros em Práticas de Investigação em Educação Artística – EPRAE são momentos de discussão e partilha anuais concebidos no interior do Programa Doutoral em Educação Artística – DEA que, desde 2013, desafia os estudantes a abrirem os seus processos de pesquisa a uma comunidade de ouvintes alargada, deixando-se permear por perspetivas antes não abordadas. A sua 8ª edição foi organizada por um grupo de estudantes e investigadores do DEA da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto – FBAUP, com o apoio do i2ADS, tendo-se realizado em diferentes espaços nesta mesma faculdade, nos dias 21 e 22 de maio de 2021. Desassossegos: ata expandida do 8º EPRAE é uma publicação que começa a ser pensada logo após o evento. Constituiu-se como um espaço mais demorado de reflexão, usufruindo de uma espécie de analepse na construção de um olhar que se volta novamente a este Encontro e que se debruça, já com algum distanciamento, sobre os processos de investigação partilhados.

O 8º EPRAE estimulou um processo contínuo de reformulação de cada uma das propostas submetidas e aceites a integrar o programa do Encontro, através de diferentes momentos em que a comissão científica ou um conjunto de especialistas foi convidado a ler e comentar os textos apresentados. No final do Encontro, instigámos autores e autoras a deixarem-se atravessar e contaminar por aquilo que o 8º EPRAE lhes proporcionou no âmbito teórico, prático e epistemológico, ao ampliar, revisitar e questionar as suas próprias pesquisas, escritas e apresentações, em textos que agora se reúnem no presente livro.

Assim, esta publicação não atua no domínio estrito de uma ata, enquanto registo daquelas que foram as apresentações realizadas no 8º EPRAE, mas também traz consigo a possibilidade de fomentar o processo con- tínuo de escrita e reescrita pertinentes à investigação. Assume-se, por isso, enquanto uma ata expandida que nos permite extravasar os limites daquilo que foi, para passar a perseguir aquilo que pode vir a ser no âmbito da pesquisa.

Considerando este posicionamento, convocámos para esta escrita o conjunto de comentadores e moderadores do Encontro a revirar transdisciplinarmente as questões provocadas pelas investigações apresentadas – na tentativa de transpor aquele momento de discussão oral em reflexão escrita. Desse modo, no corpo desta publicação encontram-se textos de algumas dessas pessoas que aceitaram o nosso convite e, individualmente ou em pares, elaboraram um olhar reflexivo sobre os problemas, os desafios e as potencialidades que encontraram nas propostas e nas rodas de conversa que dinamizaram.

É um estado de impermanência que nos mobiliza para a escrita desta introdução, não só como apresentação dos conteúdos que corporificam esta publicação, mas também como espaço para pensar sobre as complexidades e conflitos na própria conceção desta ata expandida. Colocamo-nos em confronto com a organização do livro a partir dos mesmos eixos de discussão do programa do Encontro, contudo e contraditoriamente, apesar de termos feito outras tentativas de configuração, não conseguimos abrir mão deles. Isso porque sabemos que qualquer estrutura organizativa irá operar por inclusões, exclusões e seleções específicas que condicionam autores e textos a determinados territórios de discussão e problematização que são em si contingentes, pois muitas poderiam ser as configurações possíveis. Mantivemos tais eixos por considerarmos que as proximidades criadas entre pesquisas estabelecem diálogos produtores de sentido, mas salvaguardamos que nem todos os participantes com comunicação submeteram as suas propostas para publicação, havendo hiatos em certos grupos das secções. Por outro lado, o tempo de reflexão e a emergência de novos olhares sobre o Encontro e as questões que daí se despoletaram fazem com que muitos textos aqui apresentados se possam cruzar com outros textos de eixos distintos.

Assim, no eixo Música à escuta e desaprendizagens contemporâneas encontramos um grupo de investigadores que, a partir da prática musical, questiona o seu modo de ser, estar e ouvir o mundo no qual se insere, interrogando a hegemonia das configurações eruditas e europeias que formam e conformam práticas musicais e sonoras.

Em Artistas-educadores e experiências poéticas cruzamo-nos com investigações que partem das realizações artísticas e educativas de artistas-educadores, para questionar práticas que nos possibilitem tensionar a construção de uma história da educação artística que nos atinge na contemporaneidade.

O eixo Tensões entre ensino e prática artística apresenta textos que, inscritos no campo da educação, possuem um caráter distinto quanto ao que propõem. Enquanto que o primeiro texto questiona a normalização de uma retórica da criatividade como modo de subjetivação dos estudantes, o segundo aborda a referência enquanto conceito posto em ação no processo criativo na educação e na investigação, estando o terceiro focado na tentativa de conceber uma perspectiva filosófica e educacional acerca do conceito de educação para a cidadania.

Os textos presentes em Gestos artísticos, artes performativas e educação trazem-nos a preocupação desses gestos enquanto atos de resistência, de transformação e de potência subversiva. Estas escritas articulam-se desde uma racionalidade do presente quando se confrontam com a tradição, a memória e com a fabricação de discursos e arquivos existentes e dominantes em práticas performativas.

Em Museus, mediação e investigação deparamo-nos com uma pesquisa que problematiza a relação educativa que emerge no movimento entre a escola e o museu. O texto identifica um conjunto de preconceções do que é o relacionamento educativo e do diálogo com o público, debruçando-se sobre a ideia de apresentação, mediação, participação, dádiva e hospitalidade.

Infâncias em jogo convida-nos a uma reflexão sobre representações predominantes e civilizadoras da ideia de criança e do seu desenvolvimento normalizado na relação com o trabalho educativo, pensando noutras formas de desestabilização de padrões e de resistência a estas representações, bem como na complexidade que, deste gesto de desconstrução, pode advir.

As escritas que integram o eixo Práticas colaborativas e processos de partilha manifestam especial sensibilidade às circunstâncias do diálogo numa proposta prática. Refletindo as particularidades do fazer coletivo na investigação em educação artística, as propostas abrem-se performativamente a um jogo de interferências, fricções e colaborações.

Neste cruzamento de interesses, questionamentos e posicionamentos, Desassossegos recorre a imagens para as aberturas das secções cuja ideia de liquidez nos remete para um desejo de contaminação e mutabilidade já expresso como força motriz do 8º EPRAE.

Na organização deste livro, assumimos estratégias para alimentar um dos estados que nos importa manter latente na investigação em educação artística: o desassossego. É a partir daqui que podemos localizar este livro como um espaço de partilha que comporta muitas pesquisas que, nas suas diferentes fases de maturação e andamento, se movem num desassossego de pensamentos, de certezas e de inquietudes com o fazer investigativo.

Amanda Midori, Ana Mafalda Pereira, Joana Nascimento, Maria de Lurdes Gomes e Maria Inês Barreira