revista

Derivas #6

Derivas a partir de Práticas e Epistemologias do Ensino Artístico na CPLP, com foco nos casos de Cabo Verde e Moçambique

  • Edição
  • Catarina (Cat) Martins, José Carlos de Paiva, Rita Rainho
  • Ano
  • 2022
  • isbn | issn
  • 2183-3524
Derivas #6

Arquivo presente do ensino artístico a partir de Cabo Verde e Moçambique

Com a realização do 7 ei_ea VII Encontro Internacional sobre Educação Artística (Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde, outubro de 2021), foi dado mais um passo na partilha e revisão crítica das narrativas sobre educação artística. A pluralidade das experiências deslocadas, de Brasil, Colombia, Moçambique, Noruega e Portugal, para Cabo Verde, transportaram uma complexidade histórica e uma visão crítica de cada contexto.

Esta Derivas#06, tem por base o encontro de pessoas, a partilha de um estudo sobre o ensino artístico em Cabo Verde e Moçambique e o debate crítico em torno do desejo da descolonialidade da educação artística na CPLP, com foco nestes dois países. Na inquietação da discussão gerada no 7ei_ea, organiza-se este encontro de escritas como contributo para se aprofundarem as questões abordadas resultante das tensões provocadas pelo encontro.

As Práticas e Epistemologias do Ensino Artístico na CPLP – os Casos de Cabo Verde e Moçambique foram o centro deste encontro. Com isso pretendeu-se identificar e entender as forças e as fragilidades instaladas nas práticas de Ensino Artístico em Cabo Verde e em Moçambique, no enquadramento de uma construção epistemológica atenta à implicação da Educação Artística na formação de sujeitos socialmente interventores no devir de comunidades, produzindo propostas de reestruturação face às necessidades de inovação e actualização potencialmente antidiscriminatórias e promotoras do seu desenvolvimento sustentável.

Cabo Verde e Moçambique, como países independentes, apresentaram no encontro e nos textos desta edição uma história do Ensino Artístico que foi tratada pelos Grupos de Trabalho de cada país. O trabalho nos arquivos das várias instituições de ensino identificadas, as entrevistas, os encontros prévios realizados com docentes em várias escolas e a sistematização de algumas histórias possíveis, foram realizados ao longo de 10 meses em cada país. As duas primeiras partes deste número da Derivas ocupam esse espaço de disseminação. Escritas a partir de reflexões do contexto de Cabo Verde e de Moçambique, sonhando e projetando futuros para o ensino artístico, onde a dialética entre o futuro e o desejo são parte do problema do presente, de uma utopia concreta.

A escuta dos movimentos existentes de reorganização curricular e educativa em curso em Cabo Verde e Moçambique estimulou uma abordagem cruzada, incisiva e abrangente no quadro da CPLP, entendida num plano de colaboração franca e descolonial. Como nos diz Bruno Sena Martins no texto de abertura houve neste encontro tanto a “distância quanto a familiaridade, a lonjura e proximidade”. Atravessando a hegemonia da educação artística nessa escuta, as ideias que reproduzem o continente africano como o lugar da infância, do selvagem e primitivo, do qual o negro nada teria próximo de ser humano, tendem ainda a permanecer em subterfúgio no pensamento.

Herdeiros desse pensamento colonial, neste número, foi incorporada uma última parte com escritas de leitura a partir de, com, sobre e na relação com o vivido no 7ei_ea. Nela mobiliza-se uma vigilância constante às pulsões salvacionistas que iluminam as leituras críticas, nesse preciso sentido de que a razão ocidental nos tornou ainda prisioneiros da ideia de primazia e de que em África se vive em subdesenvolvimento, a ciência está em estado embrionário, e a cultura presa ao ritmo tam-tam da selva em trevas.

Algumas das questões transversais às três partes deste número são determinadas por uma sedução global fruto da força das narrativas hegemónicas e universalizantes da educação artística. O debate que se torna presente exerce a crítica sobre conceitos alienantes socialmente e fortemente presos aos questionamento inscritos no convite para as escritas desta edição:

i) desejo de formar artistas que integrem o sistema: mantendo-se fidelidade ao princípio de genialidade, a uma determinada ideia de sujeito artista, de critérios de beleza e estética, de conceptualidade e mercantibilidade da obra artística;

ii) aproximação dos aprendizes a manualidades consideradas boas pela libertação e liberação dos sujeitos que manipulam as matérias, produzem as imagens tendencialmente estigmatizadas por uma ideia de um mundo homogéneo e ocidentalizado;

iii) reprodução de formas de ensinar e aprender vinculadas a uma hierarquia de docentes e estudantes, bem como a conteúdos alimentados por ideias de sustentabilidade, empregabilidade e criatividade;

iv) persistência em modelos educativos que perseguem modalidades educativas de formação de sujeitos dóceis e acriticamente integrados num presente sem perspetivas de criação de novas possibilidades de futuro.

O uso da língua em que os investigadores pensam, é propositivo para uma resistência ao império da legitimação da língua inglesa, excludente na produção de conhecimento académico. No entanto, essa mesma posição gera um esforço de atenção à sua insuficiência proveniente da ambiguidade da língua portuguesa, por ser ela própria símbolo de uma colonização e de ligações que hoje se mantêm.

A rede de pessoas que se reforça e amplia a cada encontro de corpos, debate, cruzamento de escritas, aumenta o conflito, a percepção de que nos desconhecemos, a atenção ao que reproduzimos, mas também a possibilidade de nos encontrarmos como comunidade.

As pequenas comunidades devem ser escolas de autonomia. (…) [Elas] seriam o espaço de fecundidades de dons, capacidades, ritmos e exigências singulares. Elas seriam o espaço de participação, de solidariedade e de amor.
Ngoenha, Elias. (2018). Filosofia Africana – das independências às liberdades. Paulinas Editora.[p 191]

Será importante hoje pensar a educação artística considerando a genealogia dos discursos de resistência que compõem o nosso pensamento crítico nos movimentos feministas, anti-racistas e anti-colonialistas, face ao capitalismo global exacerbado. Uma escuta dos vários lugares de fala e da potência desse antagonismo. Afinal, haverá impulso transformador e radicalidade crítica para assumirmos a colonialidade construída nas nossas práticas institucionais no ensino artístico?

Rita Rainho

Sobre Derivas

A revista Derivas é uma publicação de carácter semestral dos programas de Pós-Graduação em Educação Artística da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e do Núcleo de Educação Artística do i2ADS – Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade. O objectivo é publicar artigos inéditos, sujeitos a revisão cega por pares, possibilitando um espaço de divulgação de investigação em educação artística. Pretende-se criar um espaço de confronto de perspectivas, que contribua para a problematização e para o debate das tensões existentes nesta área. A revista é aberta à participação de investigadores, de mestrandos e doutorandos e a profissionais ligados à educação artística num sentido abrangente.