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Curar a Paisagem: A Ética como Definição da Paisagem Contemporânea em Arte

Registo de uma investigação pessoal que se cruza, como em todas as pesquisas, com as de outros autores, tanto jovens investigadores, como investigadores seniores, nacionais e estrangeiros, e de áreas que vão das Artes Plásticas, à Biologia, à Arquitetura, à Gravura e à Educação Artística, num debate que se tenciona aberto, franco e, se possível, que alimente a continuidade do debate que a paisagem foi trilhando ao longo da história em paralelo com as artes e os artistas.

  • Edição
  • Domingos Loureiro
  • Ano
  • 2023
  • isbn | issn
  • 978-989-9049-47-5
Curar a Paisagem

No momento em que descia do Mont Ventoux, Petrarca [1] terá respondido à incompreensão partilhada por um pastor sobre as razões que o levaram a subir o monte, dizendo: -Porque estava ali!. Esta resposta, mesmo envolta em misticismo, argumentará as razões da ligação à Paisagem de muitos outros exploradores ao longo dos séculos, com subidas, descidas ou 7 travessias de lugares que, do ponto de vista da utilidade, pouco ou nada pareciam acrescentar. Numa frase que sintetiza tanto de insignificante como de revelador, podemos perceber que a paisagem será um território para a compreensão pessoal, mais do que para o espaço em si, de que Simmel, nos seus textos ‘A Filosofia da Paisagem’ [2] e ‘Os Alpes’ [3], insistiu em promover. A paisagem é a experiência pessoal desenvolvida a partir da relação com o território e com os seus elementos. A paisagem é também cultural, como defende Maderuelo [4] e que Alberto Carneiro [5] tão bem expôs.

Da necessidade de definir a ligação humana estabelecida com o território, visível em muitos exemplos ao longo da história, nasce o termo ‘paisagem’ [6]. Assume-se para definir a relação que tantos poetas, artistas, autores, escritores, pintores, mas também geólogos, arqueólogos, biólogos, botânicos, arquitetos, físicos, foram estabelecendo com os elementos do território, assente sobretudo numa curiosidade e na expectativa que o território poderia suscitar.

Muito provavelmente, ao longo de toda a sua existência, a humanidade terá desenvolvido relação com o espaço e com os seus elementos, nomeadamente por sobrevivência. Isto não significa que a paisagem será tão ancestral como o humano. Como refere Maderuelo, a paisagem é criada no século XVI, pelo que, anteriormente o que podemos referir é a influência do território e dos seus elementos [4].

Noutra perspetiva, a paisagem é associada ao termo Natureza, diluindo-se, não raras vezes, as definições [7]. A Natureza, manifestação do selvagem, foi em vários momentos o elemento que caracterizou a paisagem, como se poderá observar ao longo do Romantismo, onde Natureza e paisagem se caracterizavam por manifestarem a presença do incontrolável, do selvagem, do divino. Este diálogo não deverá ser ignorado, embora, também não deverá ser confundido como sendo o mesmo. A Natureza caracteriza muitos dos elementos que integram a paisagem, nomeadamente a dimensão do incontrolável, do desconhecido, do que nos é externo. Por sua vez, a paisagem como definição, ao assumir- se como cultura [4, 6], inscreve tanto elementos humanos como exteriores. Integra dimensões do simbólico, da convivência, da comunidade, do isolamento, do doméstico, da mesma forma que integra o natural, os elementos, as matérias e o selvagem.

Por isso, a paisagem será sobretudo um evento projetado, onde o sujeito se enuncia e revê na relação que estabelece com o território [6]. A paisagem será, portanto, coisa humana. Neste contexto, compreende-se como a Estética [2, 4, 6, 7] se assume para descrever e explicar a relação com o território, por via da paisagem: do Sublime ao Belo, do visível ao Transcendental, do material ao imaterial, a paisagem vai encontrar eco e definição no contexto da Estética, sobretudo inspirado por Longinus [8] e Aristóteles, mas também por Kant [10], Burke [11], Hegel [12], Simmel [2, 3] e Hume. Do sentimento sublime, condição de temor perante o incomensurável, passando pela manifestação descontrolada dos elementos indomáveis do mar e da montanha, até às intensas dimensões lumínicas que transitam da obscuridade de António Carneiro, aos intensos crepúsculos e opúsculos de Turner, até às mutações da fachada da Catedral de Rouen registados por Monet [13], até aos alvoreceres dos jardins florestas de Klimt, a paisagem ganha um lugar na Estética de forma sedimentada.

Trecho de Curar a paisagem: A ética como definição da paisagem contemporânea em arte
Domingos Loureiro
Abril, 2023