catálogo

Língua Surda

Catálogo (e-book) da exposição do Doutoramento 2023/2024 em Artes Plásticas da Universidade do Porto.

  • Edição
  • Miguel Leal
  • Ano
  • 2024
  • isbn | issn
  • 978-989-9049-67-3
Língua Surda

Língua surda: uma despedida

Todos aqueles que não têm imaginação
refugiam-se
na realidade.
Falta saber
se o não-pensamento
contamina o pensamento.

É com este texto que abre Adieu au langage, de J. L. Godard (2014), uma das muitas citações e aforismos que ajudam a tecer as diversas camadas, tão características dos seus filmes, em que a montagem se faz não apenas entre imagens, mas entre texto escrito e falado, entre estes e as imagens e sons que vão desfilando à nossa frente, num corpo de interferências ou cortes de todo o género. Tais cortes são feitos, sobretudo, entre diferentes olhares e entendimentos do mundo, muito para lá de uma cegueira antropocêntrica. O filme parte de uma ideia simples: um casal, um homem e uma mulher, já não se entende, já não fala a mesma linguagem. No entanto, a chave de Adeus à linguagem talvez esteja em Roxy, o cão que os acompanha e que, surpreendentemente, fala uma língua inteligível e vê o mundo como ninguém. “Não é o animal que é cego, mas o homem, cego pela consciência e incapaz de ver o mundo”, diz-nos a certa altura o narrador. Precisamos do olhar dos animais, ou de devir-animal, se quisermos, para olhar o mundo. É o seu olhar que nos ensina o mundo, não o nosso. Será essa talvez a despedida de que nos fala este filme — um adeus a velhas divisões —, porque é nos trânsitos entre o nosso mundo e esses outros mundos que são também nossos, que podemos afinal descobrir uma anima que perdemos algures no caminho.

A 13 de Janeiro de 2012, o barco de cruzeiro Costa Concordia encalhou junto à Isola de Giglio, na Toscânia, acabando por naufragar. Toda a sequência de acontecimentos que levaram a esta tragédia foi quase caricata. Como toque final, a última música a ouvir-se no navio, segundo alguns dos sobreviventes, terá sido My Heart Will Go On de Céline Dion, canção da banda sonora do filme Titanic (1997). Completamente adornado a estibordo, dois terços submerso, o gigante Costa Corcordia só seria resgatado em Setembro do ano seguinte. Quase dois anos mais tarde, o navio enfrentaria o seu derradeiro destino, com o desmantelamento no Porto de Génova.

O Costa Concordia era o mesmo barco que tinha servido como cenário principal de um outro filme de Godard (Film Socialisme, 2010), divagação sobre a Europa, as suas contradições e, até certo ponto, sobre o seu fim: “Pobre Europa”, diz uma das personagens. Atravessando o Mediterrâneo ao longo do filme, o Costa Concordia visitou o Egipto, a Palestina, Odessa, Hellas, Nápoles e Barcelona, ligando vários epicentros de uma tragédia em curso. A tentação será, pois, ver em Film Socialisme uma alegoria ao fim de uma Europa que se construiu em torno de um mar que é hoje em muitos aspectos uma fronteira quase intransponível. Contudo, esta aparição do Costa Concordia no ecrã, dois anos antes do naufrágio, será antes sinal da capacidade divinatória do cinema, da ideia de que a construção do imaginário é como um oráculo que nos oferece imagens para um tempo que há-de vir.

A manipulação da linguagem une estes dois filmes de Godard. Film Socialisme estreou em Cannes com títulos em inglês, mas num inglês em estado bruto a que Godard chamou “Navajo English”, uma linguagem truncada e quase estenográfica em que assistimos à invenção de uma nova língua. A experiência desta versão legendada em inglês Navajo é a de uma completa dissociação linguística. Pegando na tradução integral do texto do filme, Godard riscou tudo aquilo que não lhe interessava, rearranjando depois o que sobrou e deixando partes literalmente por traduzir. Este novo texto, nesta inventada e estranha língua, foi depois inserido no filme em formato clássico de legendas, nem sempre sincronizado com o som. À semelhança do que acontece com as divagações de Roxy e das outras personagens de Adieu au langage, assistimos aqui ao desaparecimento da prosa e com ela da própria língua enquanto coisa estável e inteligível.

O mote para esta exposição foram também os encontros e desencontros entre o visual e o verbal, entre o olho e a língua, num jogo em que se tentou uma despedida à linguagem, confrontando ao mesmo tempo os desafios da incomunicabilidade linguística e o carácter em bruto dos gestos puros. Nada de prosa. Em suma, poesia, língua surda.

Miguel Leal
Fevereiro de 2024