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ID_25: Ecos de uma escuta construindo sujeitos anti-coloniais

ID_25 apresenta escritas, falas e imagens de 50 autores no âmbito dos 25 anos do movimento intercultural Identidades.

  • Edição
  • Rita Rainho
  • Ano
  • 2021
  • isbn | issn
  • 978-989-9049-16-1
ID_25

25 Anos a errar. Erraremos de novo, perssistindo, fracassando.

Poderia começar este objeto isolando a minha pertença ao ‘movimento intercultural IDENTIDADES’ (ID), construindo um mapa organizador de todas as entradas e contributos deste livro. No entanto, e porque este livro assume as formas e intuitos mais comuns à história do movimento, não se estranhe uma introdução que não introduz, mas que assume a sua inutilidade (porque mais se trata de uma dádiva expressa) e da sua incompletude (porque o corpo é o livro no seu todo e o que dele se solta). A diversidade, o disforme, o não conforme, o político disfarçado de académico, a arte e a palavra atravessadas pelo comprometimento de cada qual, o individual e o coletivo, as bibliotecas vivas, a oralidade e as imagens – restos de propulsão, um espaço também de memórias, utopias, aprendizagens, partilhas e empurrões pro futuro que, desconhecido, aqui vem.

Minhas palavras são então ecos de um despertar constante ao que nos chegou para constituir o germinar deste ser vivo – o livro ID_25.

São 25 anos de movimento.

Fecho os olhos, e nesse escuro, recordo as noites de cada lugar, deitada em tanto chão diverso, tetos com óculos de brechas cintilantes para esse, este, aquele, o mesmo céu breu que nos encima.

Gente quente, olhos pensantes, mãos de ofícios, rodas de conversa, trabalho em grandes grupos, pequenos, em par. Nas oficinas, escolas, museus, ruas, palcos, auditórios, praças. Onde há rio, ribeira, açude, mar, fronteiriços com terra, pó, montanha nua, à beira da floresta, sertão, pântano e pomar. Comida, boa, muita, escassa, exótica, igual. Transportes grandes, pequenos, limpos, sujos, privados, públicos, emprestados, alugados. Abraços à chegada, emoção na partida com compromisso de regressar. Viagens para lá, para cá, fazer junto, acreditar, sermos mais fortes.

Assumo o sujeito coletivo. Sem luz elétrica na Amareleja, o céu é o mesmo e Conceição das Crioulas fica no virar do horizonte de costas para a estrela cadente, onde dobrando a estrada chegamos aos “dez grãozinhos de terra” e atravessando o continente colamos no céu da metrópole Maputo.

É nesse lugar de viajante que tendemos a converter-nos em espelho da razão, em verdade, em explicação. A equação objetiva da deslocação cai na busca incessante de verosimilhança e da necessidade de comparação para poder confirmar a experiência, o lugar, as pessoas, as lutas, as coisas, os modos de pensar e fazer:

– Ah sim, é parecido com… Faz lembrar tal… Sim, o autor x diz algo assim… Este sabor recorda-me o meu em… tem algo a ver com…

Pode parecer um mapa de relações, uma construção de pontes e ligações, mas deixa revelar a essência da reprodução da cosmovisão dominante, uma reação inconsciente de negação do desconhecido no seu espaço de estranheza e incompreensibilidade.

Em suma, pensar aqui significa racionalizar o desconforto, negando o que se estranha ao transformá-lo em familiar. O efeito do pensamento exercido dessa perspetiva tende a ser o <<contágio despotencializador>> das subjetividades que o encontram, o que contribui para a << interrupção no processo de polinização>>, promovendo um << aborto da germinação de futuros>>. O que resulta disso é a <<reprodução>> da cartografia vigente e dos seus valores.

No entanto, o ir do movimento ID não pretende ser de visita. O receber no Porto, em Tondela ou Amareleja, também não. É uma procura interior mobilizada pela deslocação das mentes, pelo movimento de perguntar. Das viagens não se regressa de sorriso escancarado, mas desconfortado.

Qual o incómodo?

Não são os bichos de cada lugar, como potó, baratas voadoras, mosquito da malária, viúva negra mediterrânica, ‘cempé’. Não são os males de barriga, a torneirinha, a indisposição, menstruar sem wc, banho de canequinha… Não são os horários, as faltas, as línguas, os silêncios.

Aquilo que incomoda é o privilégio que transportamos quando saímos do conforto de nossas casas. Nossos corpos, nossas peles, nossa classe social, género, sexualidade carregam a desigualdade que combatemos, a injustiça que denunciamos, o egoísmo que vivemos, o consumo a que cedemos. O que muda com o regresso? Nada. Ou apenas a potência da nossa consciência sobre a extrema fragilidade da verdade omnipresente que carregamos e com que tendemos a querer ajudar o oprimido, o outro, aquele que nos recebe. Iremos ajudar? Será que essa tendência contribui para que se olhe na nossa cor o prenúncio de dias melhores, na nossa língua a leitura do conhecimento que se diz desenvolvido e avançado, no nosso andar a contagem os passos do 1o mundo?

– Porque não me fizeste com um branco, mãe? Felizes são as mulatas e brancas, que nasceram com diamantes no corpo.
– Para quê essa tortura? És preta e ainda bem. Os marinheiros brancos são excêntricos, são predadores do exótico e tu és linda! Não faltará um branco para morrer de amor por ti, minha filha.

Somos predadores. Predadores de uma virgindade, uma extravagância que nos salve também a nós, que nos livre das noites sem dormir, do egoísmo a que insistimos chamar de altruísmo, que guarde um lugar de prestígio das boas ações e de receber agradecimentos, cumprindo missões e em suma adiando o nosso próprio fim.

Somos filhos desse pensamento hegemónico de supremacia que engrandece com o gesto canibal de dominação sobre o oprimido. Essa supremacia do ser, do saber e do poder é uma herança que conhecemos desconhecendo a profundidade das suas raízes insaciáveis e dependentes dessa capitalização e colonização que determina o nosso modo de se pensar e agir. Branco, homem de classe média, hetero, ocidental armadilha-nos as relações, e tende a filiar-nos a uma ideologia que não defendemos. Mesmo como mulher, nesse corpo de opressão e violência, não significa que não beneficie de outros privilégios. Aos nossos olhos subtis, para outros bem evidentes. Estes sistemas, como o classismo, sexismo, supremacia branca têm uma base subliminar integrada em leis, nos media, e nas políticas globais e nacionais, de tal maneira que se consolidaram pela sua naturalização, por fazerem parte da nossa estrutura.

As relações interculturais que estabelecemos não estão fora desta contradição de sermos resultado da fúria da civilização ocidental, dos automatismos da era do pixel e da produtividade, e, ao mesmo tempo, desejarmos a mudança, a libertação dessa mundividência, a transformação cabralista de pensar pelas próprias cabeças, de aprender com os espaços de fala, e os espaços de silêncio, de construir um tempo de maior justiça e cumplicidade.

Entre todos os conflitos, desde o início que o mundo da arte incomodou o movimento ID. Todos(as) das artes, estudantes, professores maioritariamente da faculdade de belas artes da universidade do porto, artistas, designers, arquitetos, e outros(as). Porém aquilo que nos incute a vontade de fazer algo juntos(as) está para além da arte. Essa fronteira do dentro e fora da escola de arte, legitimado ou não pelas instituições, e valorizado pelo mercado, é bem promíscua e controversa. O ID não está alheio a isso.

A repulsa: do sentido de acumulação de capital e instrumentalização da arte, neutralizando práticas e pensamento, da denúncia do valer-se da arte como passaporte para a vida elitizada e alienante são afinal também parte do desejo que nos move. Será talvez a perceção desse desejo individual e coletivo, todo ele manipulado, que nos faz sentir esta inquietação do movimento.

Pertencer à escola, pertencer à arte (ocidental), pertencer à instituição é uma circunstância que convive de forma tensa com a ação do movimento. Nessa relação pudemos questionar o que nos estava sendo ensinado, onde e como. O esforço da desobediência coletiva desenhou um espaço de errância, demonstrando que o pensamento que diverge do que poderia gerar uma resposta certa, nos provoca dúvida e gera outra subjetividade, uma não verdade. Esse pensamento de divergência e questionamento leva-nos a procurar outros modo de educação artística. Temos presente que a escola de arte incorpora um espaço de conflito devido à tensão entre i) o dispositivo de controle e regulação de corpos e mentes e ii) o campo de questionamento e irreverência dos sujeitos que a arte pressupõe.

Os deslocamentos do ID para o Sul político acentuam a necessidade de questionar a reprodução do conhecimento hegemónico nas escolas do ocidente, assim como a própria arte ocidental. E por isso nos tornam cúmplices de várias lutas por escolas utópicas, de singularidade, de contextualidade, de experimentação hoje a partir de saberes locais e afirmação por maior justiça cognitiva.

Muitas vezes os nomes intercâmbio intercultural, oficina, encontro e outros espaços educativos encontraram na linguagem mais próxima da educação e da relação um espaço de maior potência quer no ‘fazer junto’, quer na experimentação. O terreno da arte esse, ficou remetido para a esfera do individual, daquilo que cada um(a), retirou para si no depois.

Se trabalhássemos como artistas em nossos ateliers, seríamos com certeza muito mais apaziguados, poderíamos fazer-nos escapar de tudo isto. Se fossemos professores circunscritos a uma sala de aula, poderíamos ensinar tão bem toda essa arte, nossa ideologia, fazendo profecias e cartilhas de sucesso para a segurança de novos artistas, professores de arte e até para a assimilação de outros do sul político com integração no norte. Não se trata de uma ironia superficial, mas do que nos influencia a pensar e agir de modo reprodutor e hegemónico.

Não fosse essa contradição suficiente, pertencemos muitos de nós a uma classe, cor, e género dominantes. E, se a perceção de que o capital e o capitalismo na arte nos apropria, engole e consome, a resistência a ele, faz com o que o movimento tenha encontrado nesta promiscuidade um modo de pertença que permite a mobilização de fundos para as deslocações e as implicações, deixando-nos a experiência de conceber e montar exposições, editar obra gráfica, organizar leilões, mas também os dumbanengues e candidatura a projetos.

Também por isso digo que pertencemos ao campo minado e capitalizado da arte. Mesmo que nossa pertença seja escrupulosa, e queira deixar uma liberdade e autonomia ideológica no movimento, nas ações e nas relações. Os processos que integram a visualidade, plasticidade ou outras expressões estéticas, simbólicas e/ou funcionais não são conduzidas com o propósito de se adequarem a curadorias, valorizações ou a finalidades outras de venda e auto-financiamento. Desejamos encontrar um campo de subjetividade e transformação mais permeável à própria vida, ao pensamento coletivo e plural, ao político, ao educativo, ao simbólico e comum. O próprio Leão Lopes neste livro diz:

“Uma premissa próxima e comprometida com um colectivo que reclamava a Arte como seu território de pensar e agir e a educação como meio e campo de experimentação de tal esperança.”

Essa consciência leva-nos a perseguir um outro ritmo que é marcado pelas relações, mas sobretudo com cada um(a) de nós. O ritmo da lentidão, da escuta, leva-nos a entender que somos contradição, vivemos esse tempo de procurar, persistir e de desconseguir relentar, desconseguir calar para ouvir, desconseguir suspender a vontade do sucesso, a autoridade das nossas presenças sobre o que é melhor para esse outro.

Ao longo deste tempo se nos deslocamos, mais perguntamos. No início conhecer a partir de ações ligadas à cultura marcou o movimento na interculturalidade, não se fechando nas tradições, mas articulando expressões contemporâneas que a partir das suas raízes se cruzavam do comprometimento com este tempo.

Os espaços públicos nas diversas geografias foram palco de perguntas em torno da ideia de arte, político e público, como comum (oposto a privado), público como manifesto, acessível e aberto, público como político, no sentido arte e vida, implicada nas dimensões do fazer sentir, engajada nas lutas das populações.

A relação da arte com o político e o público encostaram-nos ao desejo de uma democracia radical, plural e agonística. Fomos introduzidos à aprendizagem do sentid de comunidade, de movimento social, político e de luta mobilizada pelas mulheres crioulas, à dinâmica associativa que pensámos perdida, à razão do vídeo, da semente e da rua numa escola da vida. Dessas relações surge um pensamento radical sobre a educação artística e utopia, rompendo com fantasias de incentivar quem tem dom, e o génio, mas forjando uma prática de acessibilidade, de experimentação, de pesquisa de matérias e expressões locais, bem como de politização contra a cultura visual inócua e de massas. Esta relacionalidade e radicalidade criam um espaço-tempo, um movimento em que a utopia do devir comum ganha um sentido particular.

Rita Rainho