(Português) Alix #2

É costume dizer-se que o mais difícil para um músico é conseguir realizar o segundo álbum. Poderíamos utilizar a mesma fórmula para as publica- ções. A imensidão de propostas editoriais que só duram um número daria para um qualquer aficionado fazer uma bela colecção.

Aqui estamos a superar a prova do segundo número. É uma espécie de acto de resistência e de dedicação às imagens. Por um lado, porque mantemos a convicção de produzir a publicação em papel. Pode parecer uma birra, mas não é. O estado a que chegaram as imagens, confinadas (para utilizar um termo do nosso presente) a uma para-existência informa- cional no interior da eficiência de um qualquer algoritmo, organizado a partir do código binário, é cada vez mais complexo e desastroso. Por outro lado, a condição codificada das imagens torna-as vulneráveis. A tudo.
Por isso, trata-se, talvez, de uma emergência corporizá-las: sobretudo, dar-lhes a possibilidade de terem uma relação directa com o tempo e com a História (a informação binária é, como sabemos, a-histórica).

A opção pelo papel pode até parecer obsoleta, mas essa é apenas mais uma das ilusões do nosso tempo. Como refere Hal Foster no título do seu último livro, ao actualizar a máxima marxista da repetição da História: “What comes after farce?”.

Nós, na Alix, tentamos manter o discernimento para podermos fazer as escolhas que consideramos importantes e esta é uma delas.

Parece irónico, mas as secções principais da publicação, se forem encadeadas para leitura, sugerem o que atrás vínhamos a referir. Vejamos: Câmara – Situação Crítica – Olhar/Ver.

Mas como sempre, as situações críticas podem, ao mesmo tempo, (a história tem-nos mostrado) ser muito produtivas. Os projectos que se encontram presentes neste número, para além de demonstrarem uma atenção forte à realidade do nosso presente, fazem-no em forma criativa, quer dizer, não se colocando em exterioridade face aos vários caminhos trilhados pelos seus respectivos autores, antes pelo contrário. O mesmo se pode dizer dos ensaios aqui contidos: atentos à realidade (muito dura… às vezes) e, como tal, portadores de uma potência questionável que os transporta para a condição de interrogantes do nosso tempo. É também dessa interrogação (a que as imagens sempre nos habituaram) que se faz a continuidade desta publicação.

As imagens (todas), mas sobretudo as da fotografia e as do cinema, encontram-se nos nossos dias numa situação de extrema fragilidade. A Alix, à sua maneira, integra-se numa corrente mais vasta que consegue entender, antes de mais, a sua necessidade e para tal, potencia a sua visibilidade e ao fazê-lo, questiona-as directamente. E esta é uma acção da maior importância pois não existe melhor forma de compreender algo do que através do seu questionamento. Nada mais distante do desconforto e isolamento a que a grande maioria destas imagens (da fotografia e
do cinema) se encontram destinadas. Umas quantas mais num universo superlotado e condenadas a um esquecimento quase imediato. Talvez, por isso, a necessidade dos livros de fotografia. Talvez, por isso, a realidade de ver o cinema de carácter mais autoral a migrar das salas de cinema para os auditórios dos museus. De certeza, por isso, a necessidade de serem questionadas de frente, de lhes darmos a importância que merecem e tentarmos retirá-las desse sono anestesiante em que compulsivamente se encontram.

A proeminência do ocularcentrismo que perdura, diríamos, há demasiado tempo, encontra-se em inquestionável questionamento. Será portanto absolutamente necessária, também, a sua crítica realizada de forma endógena, quer dizer, a partir daquele que é o seu universo multifacetado mas unido pela sua condição de proximidade com as imagens. A Alix quer fazer parte desse corpo crítico. Só a partir do reconhecimento desta condição se poderão encontrar possibilidades de um equilíbrio para todos desejável. Que uma publicação se intitule como sendo de estudos em fotografia e cinema já diz muito daquilo que vimos a afirmar anteriormente. Estar no centro das discussões sem preconceitos mas também sem receios infundados.

Fotografia (que não a para-imagem digital dos dispositivos de comunicação) e Cinema, tal como o papel deste jornal, são hoje, uma espécie de ruínas (no seu sentido Benjaminiano) que merecem toda a nossa atenção. Alegorias do mundo em que vivemos e do qual necessitam para sobreviver. Mas esse mundo parece ter-se esquecido da sua especifici- dade, envolvido que se encontra no aprofundamento tecnológico da proeminência visual. Um dado curioso a reter: o telemóvel nasce como autonomização do telefone fixo, quer dizer, um dispositivo sonoro para estabelecimento de comunicação. Contudo, nos dias que correm, a grande batalha entre fabricantes destes dispositivos situa-se na sua capacidade visual. Um dos últimos anúncios publicitários a estes dispositivos, remete directamente para o universo do cinema. Daquele que consideramos
mais importante, daquele que nos formou enquanto fazedores/consumido- res de imagens: os anos mágicos da película de 70mm e do 2001 de Kubrick. No final do anúncio entendemos os porquês: uma nova capacida- de de filmagem “cinemática”.

O casal Becher nas suas imensas e belíssimas séries fotográficas viajavam numa caravana para poderem ter o tempo necessário à concreti- zação essencial das suas fotografias: que estas fossem uniformizadas não só pela tipologia das formas, mas pelo cinzento dos seus céus. O agora ex-cineasta Béla Tarr referia-se aos seus longos planos fixos dizendo que, hoje, com tanta miniaturização e automatismo para realizar todo o tipo de planos móveis, o maior desafio era este de os conseguir fazer fixos.

Estas são com certeza “ruínas”, produtos de uma designada obsolescência. E contudo, é com elas que temos ainda tanto a aprender. Ou não fosse esta publicação, ela também, uma espécie de produto obsoleto ao imiscuir-se nestas questões de cabeça erguida e publicada em papel (hoje na capa de um jornal nacional um teórico internacional, afirma sem mais delongas que o livro e o papel desaparecerão em breve – um cavaleiro do eclipse? Um deslumbrado? Ou, no limite, alguém ao serviço da destruição das imagens (pois estas, como vimos, só existem corporizadas). Apetece acabar este editorial chamando a atenção para uma já muito lida e, contudo, ainda absolutamente lúcida visão do que é ser contemporâneo. A Alix pela sua forma de estar, pela sua pertinência, tenta sê-lo.

Mas só o conseguirá no processo da sua leitura e visionamento, na sua necessária disseminação.

Não parece muito difícil, mas é apenas aparência.

Fernando José Pereira
Susana Lourenço Marques
Vítor Almeida