Uma Topologia dos media?

 Supor a existência de uma relação entre paisagem e media é recordar a antiga ligação entre representação e paisagem, entre as modalidades da mediação e a construção da própria ideia de paisagem. Comecemos então por considerar o princípio simples que nos diz que a mediação tem lugar quando um dispositivo se interpõe entre nós e o mundo que nos rodeia, isto é, sempre que esse dispositivo passa a articular, no todo ou em parte, a nossa experiência do e no mundo. Lembremos também que, no seu sentido mais vulgar, o termo paisagem chegou até nós como a palavra que designa a extensão de território que se alcança de um só golpe de vista, complicada embora pela sua distinta ancoragem etimológica em diferentes línguas (landscape/landschaft, pays/paysan/paysage…). Ora, das muitas inflexões semióticas dos termos que em várias línguas designam a paisagem, a principal terá tido origem no mundo da arte e pode mesmo dizer-se que, numa perspectiva histórica, não é possível dissociar o aparecimento da moderna ideia de paisagem de todos esses dispositivos de mediação que desde o quatroccento passaram a aparelhar o corpo — e, em primeiro lugar, o olho — e a condicionar a nossa experiência do mundo. Por isso se define habitualmente paisagem não apenas como a porção de território que se abrange de um só golpe de vista mas também, enquanto referência directa a essa inflexão moderna do termo, como quadro que representa um sítio campestre, desenho sobre um motivo rústico, aspecto, vista ou ainda como pintura, gravura ou desenho que representa cenários exteriores, evocativos de realidades naturais ou construídas, ou interiores, evocativos de estados de espírito.

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Autor(es)
Ano 2011
Tipo Capítulo de Livro
Publicação (Des)locações: Exílio, topologia, relocalização/(Dis)Locations: Exile, Topology, Relocation
Páginas 69-79
Editora i2ADS
Local Porto
Ed/Org Gabriela Vaz-Pinheiro
Idioma Português, English
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