Uma relação operacional entre Arte e Ciência – As rochas xistosas piro-expandidas

Autores: • João Cunha e Costa, Teresa Almeida, Celso S.F. Gomes.

Abstract: This paper is focused on the operational relationship between art and science that was set by a research involving the pyro-expansion of schist and slate, as an expressive medium for artistic production.
Knowledge of the fields of geology and materials science was used and developed, allowing that the very rich poetic inherent to this material may be the starting point of artistic research and work.
In this research, art and science are considered different conceptual systems and practices, however with the same general goal – the expression of the different manifestations that reality may present to us. Thus the intersections of these two areas may produce relevant knowledge and the results of the research herein presented, intends to be an example of this.

I. Introdução
O presente trabalho evidencia o processo de uma investigação que tem como objecto de estudo, xistos piro-expandidos, como meio expressivo com grande valor potencial para a produção artística; ele é caracterizado pelo duplo cruzamento de conhecimentos dos campos da geologia e da ciência de materiais, com conceitos e práticas dos campos da arte e da escultura.
O conhecimento científico através das suas aplicações técnicas tornou-se factor essencial de produção da realidade, transformando radicalmente a nossa experiencia e, consequentemente, a representação que fazemos dela. Como investigação artística que é, a incidência da sua relação com o conhecimento cientifico, para além do desenvolvimento técnico relativo à manipulação dos materiais estudados que proporciona, é da ordem da representação da nossa experiencia e da forma como a incorporação do conhecimento cientifico permite reformulá-la, enriquecendo-a e aprofundando-a.
A contemporaneidade é marcada pela emergência crescente da utilização de meios electrónicos e digitais de comunicação que, vieram multiplicar as possibilidades de interacção e de dinâmica social.
Esta realidade, por ser uma das marcas mais distintivas do nosso tempo, torna pertinente a arte contemporânea que explora e afirma estes novos meios e as suas possibilidades expressivas, como acontece com os novos media e, muito particularmente, a arte digital associada à internet.
No entanto, este contexto, não tem que ter, obrigatoriamente, como consequência, a redução e desvalorização da experiência directa e material da realidade, a qual implica a plenitude sensorial tal como a conhecemos até agora. É da tensão entre estes dois termos e na procura de reinventar a relação e a forma como consideramos a matéria no actual contexto, que surge a investigação agora divulgada.
Os xistos são materiais geológicos correntes e abundantes que, quando transformados piroplasticamente demonstram uma expressividade que nos confronta, remetendo-nos para a compreensão da sua natureza e para as possibilidades que manifesta. Os xistos piroexpandidos afirmam a matéria como dinâmica vital, fonte do inesperado e da incerteza e não exclusivamente como disponibilidade.

II. Os xistos e o processo piroplástico:
Perspectiva científica

Os xistos são rochas que, com a excepção das argilas laminadas (shales, em Inglês) que se mantém rochas sedimentares, resultam da acção de metamorfismo regional de baixo ou médio grau sobre materiais geológicos de origem sedimentar, de fina granularidade, ricos em argila. O metamorfismo provoca a recristalização, a reorganização estrutural e o alinhamento dos cristais lamelares dos filossilícatos hidratados de grão fino, denominados minerais argilosos, numa direcção perpendicular à pressão incidente, situação responsável pela sua fissibilidade.
O processo de génese geológica dos xistos apresenta a seguinte sequencia; argila- argila laminada (shale) – ardósia ou black slate – xisto argiloso (slate) – filito (phyllite) – xisto (schist).
O xisto piro-expandido, enquanto material com interesse industrial, pode ser classificado, essencialmente, na categoria dos agregados leves utilizados na produção de estruturas em betão ligeiro, entre outras aplicações [1. http://www.escsi.org/uploadedFiles/Technical_Docs/General_Information/7600.1%20Lightweight%20Ag, in http://www.escsi.org, (sitio de Expanded Shale, Clay and Slate Institute) consultado a 10/10/2010, p. 5.], enquanto a sua utilização na prática escultórica é, até ao presente, muito incipiente.
A expansão térmica dos xistos resulta da formação e dilatação de bolsas de gases CO2, SO3 e H2O, resultantes da decomposição da matéria carbonosa e dos minerais componentes dos xistos, tais como minerais argilosos (ilite, caulinite, clorite), cloritóides, moscovite, pirite, gesso, calcite, dolomite, hematite e goethite [2. C. S. F. Gomes; “Argilas: Aplicações na Indústria”, Universidade de Aveiro, Aveiro 2002, p 214.]. O ferro, quando, pelo tratamento térmico, passa de Fe2+ para Fe3+ até aos 1000°C e passa novamente a Fe2+ após essa temperatura, contribui, significativamente, para a expansão térmica, pois a consequente libertação de oxigénio vai permitir a queima da matéria orgânica residual, resultando na formação de CO2.
Os gases libertados ficam selados no interior da massa de base inorgânica e orgânica que compõe os xistos, pois a partir de 800ºC tem início uma fase de vitrificação que se desenvolve progressivamente, resultando na formação de um vidro essencialmente alumino-silicatado e alcalino [3. A. C. Moura, J. Grade; «Contribuição para o estudo de xistos ardosíferos de Valongo», in Estudos, Notas e Trabalhos S.F.M., Vol. XXIII(3-4, 1977, p 257.].
A expansão da ardósia acontece entre 1050°C e 1150°C, sendo tanto maior, quanto mais elevada a temperatura a que é submetida, o que se deve aos dois fenómenos correlacionados. O aumento da temperatura provoca a formação e a dilatação dos gases que pressionam a matéria vítrea e esta, por sua vez, ganhou capacidade para selar os gases, assim como também ganhou elasticidade [4. Costa, J; Almeida, T.; Gomes, C; “Processos piroplásticos na realização escultórica; a ardósia piro-expandida”, V World Congress on Communication and Arts” decorrido em Guimarães entre 14 e 17 de Abril de 2012, Actas do Congresso, p. 231.].
Parte dos gases formados migram para as superfícies externas e escapam para a atmosfera do forno. As estruturas porosas podem ser observadas ao microscópio de varrimento electrónico (Fig. 1).

Fig. 1 –Micografia electrónica de varrimento da superfície de fractura de xisto ardosífero submetido a 1180ºC

A vertente relativa a esta investigação de características técnico-cientificas foi decisiva para a determinação de um ciclo de cozedura que permite integrar a utilização deste material com práticas comuns à cerâmica e que é o seguinte: da temperatura ambiente até 300ºC demora 3 horas, de 300ºC até 1000ºC demora cerca de 3 horas e, entre 1000ºC e 1150ºC demora cerca de 1 hora e 15 minutos.

III. Aplicação artística
Caso de estudo: A Senhora das muitas sortes

A escolha dos xistos piro-expandidos, como objecto de estudo, aconteceu também, por razões de caracter simbólico, uma vez que neles se encontram todos os elementos químicos presentes na Terra, com excepção dos denominados gases nobres e dos elementos artificialmente produzidos, sendo os seus principais constituintes, o silício, o alumínio, o ferro, o carbono, o hidrogénio, o oxigénio, o cálcio, o magnésio, o sódio, o potássio, o manganés e o titânio, os quais são também os elementos químicos mais presentes no planeta, ao qual, pertencemos. Os xistos piro-expandidos representam a Terra e, assim, simbolicamente, são associáveis às pré-históricas figuras femininas que representam genericamente a Deusa Terra, símbolo de fertilidade. Na mitologia grega correspondia a Gaia, deusa original, mãe dos outros deuses [5. D. Doggett; “Mitologia”, trad. M. I. Belverde, Seixal, Lisma,, 2006 (2003), p. 20.].
Depreende-se, que esta investigação convoca uma visão do mundo panteísta, tendo a natureza como figura central e a partir da qual o humano é perspectivado. Este tipo de perspectiva contrapõe-se à visão humanista da renascença onde se originou o vigente conceito de arte e que pressupõem uma perspectiva que afirma a capacidade transformadora do homem, o espírito humano, como fonte de realidade [6. C. M. Franco; “Paisages cruzadas”, in “La cultura transversal – Colaboraciones entre arte, ciencia e tecnologia”; Juan F. Laiglesia, Juan Loeck, Martin R. Caeiro (editores); Vigo, ed. Universidade de Vigo; 2010, p. 213.]. A relação entre o Homem e o seu contexto é uma relação dinâmica entre a distinção e a pertença e, também é a tensão entre estes dois termos, o que nos propomos reflectir e expressar em termos artísticos.
Nesse sentido, foi concebida e realizada a peça A Senhora das muitas sortes (Fig. 2).

Fig.2 – A Senhora das muitas sortes

O mesmo elemento de ardósia antes (esq.) e após (dir.) submição a tratamento térmico
Esq, – Xisto ardosífero, 14,3×12,5×1,7 cm.
Dir. – Xisto ardosífero piroexpandido aos 1140⁰C, 15x13x7 cm

Apesar da irregularidade formal característica dos processos de transformação piroplástica dos xistos, a representação figurativa foi explorada e, um pedaço rectangular de placa de ardósia foi esculpida para se tornar a representação de um fragmento da figura feminina, apresentando o que está entre o umbigo e os joelhos e, tendo a parte púbica como seu elemento central.
A representação foi tratada como um baixo-relevo, na suposição que, após o processo piroplástico, teria sua espessura aumentada quatro vezes, transformando-o num alto-relevo. Esta expectativa foi cumprida e, numa escala diferente, os volumes são apresentados de acordo com um tipo de corpo feminino muito comum. Alguma irregularidade do processo de expansão da ardósia contribuiu para o resultado presente com aspectos de um realismo surpreendente, especialmente no que respeita à representação dos músculos.
O tipo de expressão da representação antes da submissão ao processo piroplástico era uma representação muito estilizada, pretendendo-se uma simplificação que permitisse a distinção clara de cada parte. A expectativa aqui também foi de uma transformação radical do carácter da representação. Uma representação muito simplificada, estática e com superfície muito regular, torna-se muito expressiva e dinâmica (a perna esquerda avança). O processo piroplástico permite qua a representação em ardósia seja revelada como ardósia piro-expandida, a qual nos confronta como se fosse quase viva.
Esta representação do corpo feminino remete-nos para um corpo de uma mulher que deu à luz várias vezes, apresentando marcas de cortes na barriga, aspecto que está associado ao título. Assim, A Senhora das muitas sortes refere-se à Terra como recurso finito, mas que também é espantoso e que deveria ser dignificado e cuidado.
A expansão física da matéria encontra correspondência na expansão dos significados projectados, funcionando como relação metafórica.

IV. Relação operacional entre Arte e Ciência

A investigação que está na origem do presente trabalho foi iniciada por uma prática artística experimental em contexto académico, cujos resultados motivaram a sua exploração e desenvolvimento. Ainda que esta investigação tenha um tipo de orientação, marcada predominantemente pela prática e pelos seus resultados e implicações, tornou-se premente a necessidade de uma melhor compreensão dos fenómenos ocorrentes, para melhorar o domínio sobre os respectivos processos técnicos, mas também como forma de aprofundar e enriquecer os processos de significação implicados. A resposta foi encontrada na Geologia, ciência que estuda e descreve a formação e a natureza dos materiais geológicos.
A presente investigação e a Geologia partilham o objecto de estudo e, partilham também objectivos, que passam por aumentar o conhecimento sobre dos materiais geológicos e, consequentemente, aumentar as possibilidades de relação e de valorização. Partilham ainda e, de alguma forma, o caracter predominantemente empirista, que também poderá ser denominado caracter sensorial, embora a ciência tenha expandido enormemente a capacidade sensitiva, relativamente às suas prácticas, através de inúmeros tipos de dispositivos.
No entanto, a Geologia, como ciência que é, tem como objectivo essencial, a produção de conhecimento de carácter objectivo, universal e verificável e, a investigação por nós realizada, tem como objectivo essencial, o desenvolvimento de linguagens artísticas, que, enquanto conhecimento, são de carácter hermenêutico e subjectivo, ou seja, derivado e sujeito a interpretação individual.
A ciência procura conhecer a realidade em si mesma, ou seja, anulando tanto quanto possível a influência subjectiva do observador, expressando-se preferencialmente em linguagem matemática, que tem caracter exclusivamente racional, A arte tem um caracter eminentemente fenomenológico, ou seja, expressa a realidade enquanto experiência sentida e o que é suscitado por esta, procurando encontrar e desenvolver novos sentidos para essa mesma realidade e para a relação que estabelecemos com ela [7. S. Ede – “Art & Science”. Great Britain: I.B.Taurus, 2005, p. 3.]. As linguagens artísticas são variadas e definidas, antes de mais, pelo tipo de suporte que usam, mas implicam sempre o estímulo sensorial e propõem um tipo de relação onde a dimensão emocional é essencial e afirmada.
A integração na equipa de investigação de um cientista geólogo, para além de ter proporcionado as explicações científicas relativas, favoreceu o desenvolvimento e apuro técnico, motivou o alargamento do objecto de estudo a vários tipos de xisto, provocou a adopção de metodologias e procedimentos característicos da ciência e mais especificamente de Geologia, o que enriqueceu muito o percurso processual e a qualidade informativa produzida. Como se verifica em A Senhora das muitas sortes a informação científica, originada no âmbito desta investigação ou não, também participa nos processos de significação como parte essencial.
Pelo seu lado, a investigação realizada potencia e demonstra aplicações para conhecimento cientifico já existente, e proporcionou produção de informação nova sobre xistos que não tinham sido estudados nestes termos, assim como, estudou estes materiais segundo uma perspectiva diferente – a perspectiva da arte e da sua produção – contribuindo para o aumento do conhecimento sobre xistos piro-expandidos. Ao trazer o conhecimento cientifico para o âmbito da produção artística e, consequentemente, para o âmbito da experiencia estética, procura-se que este seja sentido, não só pelas suas aplicações tecnológicas, mas também por permitir e motivar uma relação com o mundo que habitamos mais conhecedora e, consequentemente, mais profunda e consciente.
A relação entre arte e ciência aqui descrita é uma relação complexa e delicada, que funciona de várias formas e em vários sentidos. Tanto o artista como o cientista realizam investigação no âmbito do mesmo projecto e, no entanto, cada forma de conhecimento mantém a sua identidade, que é muito diferenciada.
O artista, ainda que seja participante numa investigação que produz conhecimento objectivo, universal e verificável, a partir da utilização de metodologias e procedimentos científicos, e como tal, tenha adquirido alguma compreensão relativa do conhecimento científico e da forma como ele é produzido, não se tornou num cientista.
O cientista que, como pessoa, manifesta interesse e forte sensibilidade para o fenómeno artístico, ainda que participe numa investigação que também é de caracter artístico, não se tornou num artista.
No entanto, em termos de processos criativos próprios do trabalho artístico, implica o deslocamento do papel central, que era do artista como entidade auto-suficiente, para a interacção e o cruzamento com o conhecimento e a prática científica, provocando uma ênfase menor num tipo de autoria individual.
Apesar de haver sinais que indiciam alguma transformação na relação entre arte e ciência, ela tem sido predominantemente marcada pelo afastamento crescente entre os agentes das duas áreas, incapazes de comunicar por usarem referências, linguagens formas de pensamento e sistemas de valorização não partilhados, tal como foi descrito por Charles Percy Snow (1960), com a sua seminal teoria das “duas culturas” [8. C. P. Snow; “The two cultures”, Cambridge University Press, 1993.] – cultura científica e cultura humanista.
No caso presente, as diferenças não desapareceram, mas não foram um factor insuperável, e talvez seja o facto de se distinguirem tanto, que permitirá potenciar o alcance dos resultados originados nos cruzamentos pertinentes das duas áreas do conhecimento,
A vontade de aproximação e de compreensão de uma área distante do conhecimento por parte de ambos os agentes envolvidos na investigação realizada, foi factor imprescindível para o atingir dos resultados que são muito gratificantes e vai permitindo superar as dificuldades.
O conhecimento científico tem possibilitado um conhecimento crescentemente aprofundado sobre o meio físico e as possibilidades da sua exploração, o que tem proporcionado novas possibilidades técnicas de claro valor expressivo e, tem também promovido a reformulação da forma como consideramos e nos relacionamos com o mundo [9. S. Wilson; “Information arts – Intersections of art, science and technology”, Cambridge – Mass., The MIT Press,, 2002, p. 6], facto que constitui estímulo e nutriente essencial para a produção artística contemporânea.
Tendo como objectivo último a construção de uma linguagem de carácter artístico, a possibilidade inovadora dessa linguagem também tem origem no conhecimento científico e técnico. Se os resultados também têm algum carácter de ilustração/referenciação do conhecimento científico, revelam predominantemente a necessidade de comentário, o que os distinguem claramente dum tipo de relação simples e dependente.
Na relação aqui descrita, arte e ciência são considerados como diferentes sistemas conceptuais e, consequentemente, diferentes práticas, mas com o mesmo objectivo geral –expansão dos sentidos que a realidade nos pode apresentar. Sendo assim, as intersecções entre as duas áreas podem ser muito pertinentes e produzir conhecimento relevante.
Concluo citando Marta Meneses que sobre a relação entre arte e ciência [10. M. Meneses, L. Graça; “Ciência e Bioarte:encruzilhada e desafios éticos”, coord. P. F. Costa, Caleidoscópio, 2007, p. 22.] escreve o seguinte:
Arte e Ciência têm sido frequentemente consideradas duas culturas separadas. No entanto são cada vez mais frequentes intersecções entre estas duas áreas conduzindo a avanços não só da arte, mas também da ciência e da percepção pública dos processos científicos e artísticos. Colaborações entre cientistas não só têm resultado em obras de arte que representam elementos do mundo da ciência, como também na exploração de métodos e materiais científicos como novos meios de expressão artística.

Agradecimentos
Um sentido agradecimento à Engenheira Maria Cristina Sequeira do Departamento de Geociencias da Universidade de Aveiro e ao Professor Doutor Joaquim Vieira do Departamento da Cerâmica e do Vidro, da Universidade de Aveiro, que também colaboram com esta investigação e cujo contributo é imprescindível e é de grande generosidade.

Ano 2012
Tipo Publicação em Actas
Publicação Artech2012, 6th
Páginas 413-416
Editora Grupo Português de Computação Gráfica and Artech International
Local Faro
Ed/Org Teresa Chambel, Alberto García Ariza, Gavin Perin, Mírian Tavares, José Bidarra, Mauro Figueiredo
ISBN / ISSN 978-972-98464-7-2
Idioma português
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