Trajeto sinónimo

Residências Artísticas Casa Oficina António Carneiro.

Sobre a Residência de Catarina Real

A residência artística da Casa Oficina António Carneiro é uma extensão ao estímulo criativo, que incita ao desenvolvimento de projetos de investigação, numa estreita relação com o que é lecionado na licenciatura da FBAUP.

Propõe uma reflexão sobre a obra de um importante artista português num espaço de convivência única, o atelier do próprio artista.

Catarina Real é um dos mais recentes inquilinos da Casa Oficina e apresenta o resultado dessa convivência com o espaço, e em especial com a identidade pessoal de António Carneiro.

A relação desenvolve-se num percurso entre a morada da autora e a Casa Oficina, e na reconstrução de uma linguagem de aproximação e distanciamento com o universo multifacetado de António Carneiro.

A exposição divide-se em dois grupos recorrentes de um processo de apropriação e transformação.

O primeiro resulta do registo e recolha de pequenos achados, descobertos no percurso entre a sua morada e a casa oficina, em que a delimitação cartográfica é a única premissa orientadora, e a captura, resultante da ação contemplativa, num processo de recoleção que remete para a realizadora Agnes Varda, embora num discurso menos politizado.

O segundo momento da exposição resulta do habitar o espaço e aceder ao autor, na construção de uma linguagem simbólica e gráfica que recupera o universo de Christopher Wool ou mesmo da poesia concreta. As palavras são significado e matéria plástica da composição e os textos resultam da tradução em sinónimos de textos originais de António Carneiro ou de seus contemporâneos como Teixeira de Pascoaes, construindo uma linguagem conexa e desconexa que orienta o leitor e o espectador.

A transposição dos textos em sinónimos, palavra a palavra, altera a mensagem e a ordem das ideias em discursos antagónicos e remete para programas digitais de tradução, muitas vezes falhada, evidenciando a fragilidade, perda ou substituição da mensagem, processo recorrente em algumas obras de João Penalva. O uso gráfico do texto possibilita a seleção e reconstrução de significâncias, apropriando-se da memória pessoal do visitante, provocando-o a novas associações.

A aparente simplicidade processual evidencia o procedimento consciente e a solidez conceptual da autora, que gera uma constante emboscada ao visitante, numa dupla lógica de caça e caçador.

A estreita ligação entre Catarina Real e António Carneiro fica apenas acessível àqueles que se intrometerem profundamente no universo construído pela autora, recusando terminantemente aqueles que buscarem conexões lógicas e visuais imediatistas retomando o universo antagónico de António Carneiro, assertivo mas profundamente simbolista.

Autor(es)
Ano 2014
Tipo Outro
Local FBAUP, Casa Oficina António Carneiro
Idioma PT
Link Ver Link