Sulcar (ou o caçador furtivo)

Entre o campo do desenho e da calcografia há uma evidente relação de proximidade que passa não só pela presença partilhada do suporte (geralmente o papel) e similitudes gráficas dos instrumentos utilizados mas também pelos actos construtivos e por uma memória arquétipa do seu fazer.
A utilização comum  nos dois campos do vocábulo “instrumentos riscadores” ganha um sentido literalmente mais profundo. Riscar, marcar ou sulcar está inscrito na fisicalidade das acções e na génese partilhada destas duas actividades, estando também na antiga origem etimológica da palavra desenho.
O termo antigo dhragh de origem linguística indo-europeia (base das línguas germânicas e latinas) indica o acto de arrastar, de extrair e, na língua inglesa, os verbos to draw e to drag, derivados do inglês arcaico dragan, aproximam este sentido semântico comum, evidenciando a fisicalidade do gesto activo que marca um suporte.
A visualidade do acto de arrastar um instrumento sobre uma superfície evoca-nos a ancestralidade e também da similitude de um acto único que partilhamos com os nossos mais remotos antepassados, o da magicalidade de, paradoxalmente sulcando, fazer emergir uma imagem.
Da cultura primordial e ancestral da caça e da sua evolução para a sociedade agrária onde arrastar e sulcar desenha e grava marcas  (mapas) na superfície da terra, fica-nos esse gesto antigo e partilhado de deixar como sua consequência, traços, indícios e pistas de uma passagem.
Tal como o caçador furtivo, procuremos e sigamos as pistas: desenhemos na chapa, gravemos no papel.

Autor(es)
Ano 2012
Tipo Capítulo de Livro
Publicação Da Impressão ao Livro de Artista, Contextos de Edição
Páginas 77-80
Editora i2ADS/ FBAUP
Local Porto
Ed/Org Machado, Graciela
ISBN / ISSN 978-972-98517-7-3
Idioma Portuguese
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