Sobre duas imagens da Colecção de Fotografia da Muralha (Guimarães)

Numa conferência sobre imagem em movimento e instituições, Angela dalle Vacche  referiu-se à natureza partenogenética da fotografia. Parafraseando a investigadora norte-americana, a fotografia elementar – a escrita da luz – existiria sempre sem a mediação do homem, sem necessidade de tecnologia. Bastaria que houvesse luz e fotossensibilidade. Dava como exemplo a gravação de luminosidades numa superfície de prata.

A condição da imagem partilha o seu universo com a magia. A imagem é mágica por natureza (Flusser). A magia não se explica, é o mistério das coisas que se transformam noutras ou que desaparecem. A criação da imagem fotográfica é necessariamente mágica e industrial: prende o tempo (e imagina-lhe um regresso mágico e impossível) através de um aparato composto por lentes, superfícies fotossensíveis, processos químicos, polaridade e binarização.

Ao pressupor sempre um processo criativo, a transformação da matéria pela mediação humana é arte e ofício. Assim a indústria, assim também a imagem fotográfica.

O provável autor destas fotografias chama-se Domingos Machado. Entre 1910 e algures na década de 50 do século XX, foi dono e fotógrafo da Foto Eléctrica-Moderna, em Guimarães. Pelo seu estúdio passaram milhares de rostos; da cidade fez milhares de imagens, fotografando-lhe as casas e as fábricas, as ruas e os monumentos, os santos e as máquinas, a vida social e o tempo a passar. Domingos Machado criou imagens de Guimarães para postais, livros e catálogos. Foi um dos principais fotógrafos da cidade da primeira metade do século XX.

O ofício do Fotógrafo Machado consistia, então, em recolher a imagem crua e transformá-la numa fotografia final, editável e publicável. Para tal, era por vezes necessário um complexo trabalho de pós produção, reenquadrando e retocando as imagens, isolando detalhes, corrigindo luminosidades. Assim se explica a cor do retoque a carmim, aplicada num negativo pronto a positivar-se em preto e branco, para aclarar zonas mais escuras ou para isolar um determinado elemento da imagem. Assim se explica uso de um lençol branco, para isolar um elemento num fundo facilmente recortável.

As fotografias que vemos não são, então, a arte final de um trabalho de transformação. Não são as imagens definitivas, limpas em ilusória perfeição e afinadas na sua escala de cinzentos. Antes nos deparamos com um ponto de paragem num processo produtivo: a partir daqui, o caminho é outro, a ser feito na impressão da imagem em papel.

O que nos é dado a ver é o interior de um processo criativo. Mágico e industrial. E por isso válido.

O acervo de cinco mil negativos em gelatino-brometo de prata sobre placa de vidro da Foto Eléctrica-Moderna faz hoje parte da Colecção de Fotografia da Muralha, Associação de Guimarães para a Defesa do Património, que o adquiriu na década de oitenta do século passado. Este espólio está a ser limpo, digitalizado e classificado pelo Reimaginar Guimarães, um projecto da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. Uma das linhas de orientação deste processo diz respeito a um duplo sentido da condição temporal destas imagens: a sua digitalização mantém-lhes os arranhões, as quebras e a erosão. Nada se corrige ou embeleza: estas fotografias, produtos imediatos de um tempo de exposição, já se tornaram também imagens de um tempo de espera.

Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro, Texto em catálogo
Publicação Edifícios & Vestígios
Editora Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura
Local Guimarães
Ed/Org Inês Moreira
ISBN / ISSN 978-972-27-2207-0
Idioma português, english
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