Serviço com gente dentro

Há uma relação de afinidade dentro deste texto. Afinidade com as pessoas que trabalham nos serviços educativos, afinidade com o programa que estas mesmas pessoas construíram, e afinidade com os pressupostos com que programam para tocar outras pessoas. Há, portanto, um sentido que nos une: gostar de trabalhar com e para as pessoas.

E serse humano é fundamental. Um princípio ético que é necessário conservar na liquidez e instabilidade do presente caótico que vivemos.

Centrar este sentido parece-me crucial na definição e desenvolvimento de toda e qualquer prática e serviço institucional e cultural que se preste com a(s) comunidade(s): situar, observar, incluir, dialogar, construir; verbos que estabilizam intelectual, social, cultural e geograficamente práticas de trabalho abertas ao envolvimento com o(s) outro(s).  Um serviço que se envolve com o presente, com o tempo, com o espaço, com a história, com a vida. Que convoca a memória, a experiência, o sentir, o pensar, o falar e o experimentar como exercícios fundamentais para integrar a experiência subjectiva particular de cada participante, num corpo e estrutura maiores de reflexão, investigação e aprendizagem sobre o sentido da cultura, nas suas múltiplas linguagens e expressões simbólicas, das artes, nas suas particulares invocações estéticas, poéticas, filosóficas e críticas, e das relações sociais, no seu envolvimento contextual, político, cultural, subjectivo, individual, colectivo, humano e dialógico.

Despertar o princípio do prazer, da curiosidade, da experiência sensível e do saber, aproveitando a experiência artística e cultural como momento in situ para desmitificar o bicho papão da noção (menor) da cultura e da arte como um espaço elitista. Resgato, reconhecendo a possível instabilidade ou insuficiência (até provocação?), a declaração feita pela artista espanhola Dora García: “La arte es para todos, pero solo una elite lo sabe.”

A arte, antes, as artes, a cultura, o saber, a expressão simbólica, a partilha sensível, o exercício crítico a todos pertence, ao mundo e aos homens, e torna-se necessário fazer aderir, estabilizar e envolver o público no terreno das práticas artísticas contemporâneas e na sua matéria de discussão e reflexão críticas. Não no sentido de projectar a arte e as suas linguagens como uma matéria benigna, que entrega uma qualquer substância mágica, salvadora ou regeneradora do espírito, mas como um lugar não hierarquizado, atento, aberto à participação, à interpretação e à acção subjectiva sobre as múltiplas representações, textos e discursos que montam as narrativas do homem, da vida, do mundo e da história.

E este sentido da arte como um lugar de ensaios sobre a verdade, sobre a vida, sobre o mundo, torna-se de particular interesse no presente de uma sociedade abalada pela sua condição liquida, uma sociedade que não se compromete a esquemas rígidos de pensamento ideológico.

A vida como um processo acompanhado por signos instáveis, voláteis, efémeros, de significados ambíguos, discordantes, de uma razão que não é dedutível, matemática, hermética, e isso não é necessariamente mau. Aliás, esta aparência caótica da vida, dos seus significados e dos seus referentes, aproxima-nos da matéria humana: um corpo complexo, comprometido e inter-relacional.

E é num espaço de diálogo aberto, de acção sensível, de reflexão crítica e de construção colectiva que o homem se conhece a si, se reconhece nos outros e se renovam como um todo. Um processo de aprendizagem e de formação de saber que, apesar de numa primeira leitura exprimir um sentido romantizado, da linguagem do afecto, da emoção e da empatia, procura, sobretudo, (re)estabelecer o sujeito particular ao seu tempo e ao seu espaço. Neste sentido considero que este serviço educativo tem gente dentro.

O sentido da programação não parece prender-se a uma calendarização cultural focada meramente em propósitos pedagógicos, lúdicos ou recreativos, podendo ser essa a primeira interpretação sobre os objectivos de um serviço educativo, mas antes, propõe acrescentar a esses mesmos propósitos uma experiência particular de envolvimento sensível, que activa a reflexão crítica, a fruição estética, a interpretação poética e a consciência social sobre o presente da sociedade e das inúmeras comunidades e traços culturais, desejando intervir na construção, na transformação e no desenvolvimento de um sentido de cultura viva, participada, colectiva, emancipada, consciente e democrática.

Um sentido de programação que parece, a meu ver, aproximar-se das próprias orientações discursivas, críticas, poéticas e filosóficas que compõem o presente da teoria e da crítica das práticas artísticas contemporâneas: o exercício da experiência artística como ensaio maior sobre a complexidade do mundo, da sua estrutura, das suas relações, dos seus conflitos e das suas confluências para um sentido de vida e de realidade próximo da experiência sensível e subjectiva dos sujeitos que participam nos vários eventos e espectáculos.

A arte como uma forma de fazer saber, e a experiência estética como uma acção de produção de um saber complexo. A interpretação conjunta dos verbos fazer e saber significa uma condição da produção artística: por um lado, a sua construção material, da expressão plástica e da manifestação visual/formal, e por outro, a sua construção simbólica, a sua matéria intelectual e sensível que produz conhecimento e inteligibilidade em múltiplas e profundas camadas de interpretação crítica. Estruturar este fazer saber como orientação e acção fundamentais das práticas artísticas e das aprendizagens em torno da experiência e criação estéticas, exprime uma posição particular observada por Juan Luis Moraza (2004) em torno destas questões da produção artística e da educação artística: relacionada com um sentido de descobrimento, como processo que amplia e relaciona o corpo procedimental, produtor, técnico do fazer estético, com uma prática experimental de desenvolvimento de uma estrutura de pensamento e discurso fundamentado por esse mesmo fazer, introduze uma noção de consciência e de intenção discursiva que provoque uma forma de representação crítica legítima para o objecto estético enquanto objecto de conhecimento.

Poderá construir-se, assim, uma consciência sobre a função da arte, da experiência estética e da educação artística: a produção material, cuja dimensão formal, estética e plástica incorpora uma invocação crítica, filosófica, poética e emocional, que reconhece e reclama a legitimidade da arte como um território para a revelação do sujeito e das suas relações com a complexa estrutura do mundo e da(s) sua(s) realidade(s). Um território de discursos, de pensamentos, de construção de conhecimento, de envolvimento e participação, numa ordem intelectual e política, provocada pela leitura e interpretação críticas dos símbolos e significados culturais dos objectos e imagens que compõem a matéria das linguagens artísticas.

A abordagem aos múltiplos territórios das linguagens artísticas no programa dos Serviços Educativos Guimarães 2012 (SEG2012), parece definir linhas ideológicas e metodológicas que procuram promover o encontro entre, não apenas a cidade e as infra-estruturas locais com indivíduos e as associações de carácter artístico/cultural, como ampliar a relação entre diferentes comunidades, visitantes e esses mesmos organismos institucionais ou organizações culturais no sentido de desencadearem um processo simbólico significante de abertura ao mundo, a partir da consciência de si, a consciência do outro, do diferente, do externo, do desconhecido e do complexo, construindo pela experiência estética diferentes camadas da profunda imagem da vida que representa a(s) realidade(s), seja ela no seu contexto histórico, social, cultural, político ou artístico. Um programa cultural que procura ir para além da arte, para além do espaço, para além da história.

Nas múltiplas manifestações artísticas, culturais e educativas que corporizaram a acção dos SEG2012, parece constituir-se um núcleo de estudo e ensaio para a reflexão, discussão, experiência e construção sobre o lugar das artes no espaço público das relações sociais e culturais: a matéria sensível da experimentação artística como acção maior sobre o exercício fundamental da memória, da história e da identidade individual e colectiva. A arte como lugar simbólico de reunião e união da(s) comunidade(s) humana(s).

Nas diversas configurações formais que materializaram o que arrisco denominar de núcleo de estudo e ensaio proposto pela programação do SEG2012, desde as visitas orientadas aos laboratórios de criação artística, das oficinas temáticas aos espectáculos culturais, dos encontros com comunidades locais e seus contextos geográficos e sociais ao envolvimento integrado com a programação alargada de Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012, parecem constituir-se directrizes fundamentais em torno de uma discussão significante sobre o sentido e alcance das práticas artísticas contemporâneas e dos seus campos de investigação teórica, crítica, histórica e filosóficas: primeiro, na introdução do público ao campo específico da produção artístico; segundo, pela integração da experiência subjectiva e o conhecimento particular e individual de cada participante na expressão e construção de um corpo identitário de saberes e experiências múltiplo, maior e agregador; e terceiro, na reunião e confronto destes dois domínios, não segundo uma existência diferenciada, mas na sua existência complementar e conjugada, partes de um todo complexo, comum e próximo.

Reconhecem-se, portanto, orientações e metodologias próximas das que movimentam o campo de investigação em torno da arte, das suas linguagens e das suas matérias teóricas, históricas, sociológicas e críticas: o exercício da desmitificação como prática crítica fundamental para a abordagem e interpretação dos signos e das representaçoes culturais que histórica, intelectual e moralmente construíram um sentido, conhecimento e significado de mundo, de sujeito, de história, de realidade e de verdade segundo valores políticos, morais, culturais e sociais de uma dominante cultura ocidental europeia; a incorporação da experiência subjectiva e individual dos sujeitos na produção do saber não apenas sobre a arte, como sobre o mundo e a vida; a natureza transdisciplinar das linguagens artísticas convocadas como modelo que reflecte o complexo e relacional tecido social e humano que compõe a estrutura das sociedades e das suas instituições e relações; a invocação da memória, do passado individual e colectivo e a sua repercussão nas continuidades e disrupções do presente; a acção de aproximação e reunião cultural como mecanismo de reconhecimento das narrativas subjectiva e locais para a activação de um diálogo pluricultural; e a introdução da cultura popular e das práticas do quotidiano num contexto relacional maior que envolva o público na sua interacção com os pressupostos e dinâmicas que compõem o processo de produção artística.

Este núcleo de estudo e ensaio realiza um profundo exercício de prática e reflexão em torno da identidade da arte, o seu lugar no espaço público das disciplinas do território social e humano, e a sua legitimidade política enquanto território maior sobre a reflexão teórica e crítica sobre a condição do ser humano, da vida e do mundo. Um corpo formal, duplamente definido na sua condição plástica e visual e na sua condição intelectual e crítica, que compreende o poder, a legitimidade e a autoridade para reclamar territórios de representação e discussão sobre a realidade e as suas relações.

A arte como um processo de produção de conhecimento, um campo de concretização democrática do pensamento e da experiência sensível, de incorporação da carga subjectiva, sensível, intelectual e emocional dos indivíduos que compõem vivamente o tecido social, transformando-o num corpo tenso, activo, crítico e transformador. E um serviço educativo que promove a cultura, o pensamento crítico e a educação artística em torno desse mesmo processo de produção de conhecimento.

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Referências bibliográficas:

MORAZA, Juan Luis (2004). a + y, Arte y Saber. Sevilla: Arteleku.

Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro
Publicação Um Mapa para Cinco (ou mais) Caminhantes
Páginas 48-55
Editora A Oficina / Observatório Serviço Educativo Guimarães 2012 CEC
Local Guimarães
Ed/Org Paiva, Elisabete
ISBN / ISSN 978-989-8474-05-6
Idioma Português, English
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