SEPARAÇÃO. Deslocação da sala de aula para caminhos alternativos de aprendizagem num curso profissional de design gráfico.

Resumo

Pretende-se refletir sobre dois projetos do ensino da arte e do design implementados no curso técnico de Design Gráfico, na Escola Artística e Profissional Árvore no Porto, Portugal. Estes projetos realizaram-se fora das aulas regulares da disciplina de Design Gráfico: o primeiro, um projeto de intercâmbio internacional entre uma escola secundária Alemã da cidade de Zülpich; O segundo, Tecer Outras Coisas, é um projeto ainda em curso, que envolve ex-empregados (voluntários), professores, alunos e artistas numa empresa textil (Coelima) em Pevidém (Guimarães, Portugal).

A deslocação da sala de aula teve como ponto de partida a convicção de que há uma outra forma de ensinar, que não pressupõe os posicionamentos fronteirizados entre matérias e pedagogias, professor e aluno: um espaço performativo de construção em que o aluno decide e constroi o seu pensamento e consequentemente o seu projeto.

Deste modo, procura definir-se dois caminhos de reflexão:

a) O que significa uma escola do séc. XXI; Que ideias e conceitos, que práticas, que pedagogias, que profissionais, que relações entre a escola e o “fora da escola”?

b) Os projetos que a tornam alvo de estudo; Baseada na ação, que articulações a investigação teórica em educação artística estabelece com a vontade e a possibilidade da mudança?

Palavras-chave: Educação artística, Sustentabilidade social, Ação-investigação em design, Ensinar Design;

Introdução

O ocularcentrismo, a cultura visual, ou o mundo mediatizado não são fenómenos exclusivos dos dias de hoje. No entanto, cada vez se torna mais importante perceber os modos pelos quais os alunos de hoje são estimulados por múltiplos aparelhos e interfaces, que operam diretamente nos modos de subjetivação e de construção do conhecimento. Os projetos aqui apresentados partilham esta consciência e assumem-se como experiências de ensino através de projetos visuais em que o processo do design se mobiliza como uma das estratégias de ensino-aprendizagem.

Dentro de uma escola com três décadas, nascida no fim do séc.XX, alicerçada numa tradição modernista “Bauhausina”, existem sinais de vontade de viragem para uma escola do séc. XXI, na tentativa de se ligar ao respirar da contemporaneidade.

A Arte e o Design são eternas candidatas a um ensino experimental, tornam-se um território vasto de ensaio onde se aplicam didáticas e práticas, entre elas, o aprender fazendo. A metodologia proposta é a de uma investigação baseada na ação e na prática de um projeto em design de comunicação, integrado numa estrutura fechada, um curriculum nacional e consequente programa da disciplina. Esta adaptação e mobilidade de saberes é resultado da interdisciplinaridade que se torna obrigatória, da vontade de artistas-designers-professores que olham criticamente a realidade e pretendem conferir um espaço laboratorial alternativo e de mudança às suas práticas letivas.

Os alunos hoje são estimulados por múltiplos aparelhos e interfaces, vivem num mundo mediatizado em que o conhecimento não é construído necessariamente numa sala de aula. O clássico isolamento da sala de aula e da escola, como uma entidade protetora e de alteração per si do indivíduo, está distanciada da realidade vivida. O apetecível “mundo lá fora” entra constantemente na aula, através de múltiplos interfaces e mecanismos. Ao mesmo tempo, o ensino particular do design não se faz desfasado da realidade, o design é um exercício de projetar para o outro, para a necessidade detetada nesse mundo. Nesta mediação de forças encontra-se o professor com um programa definido, estabelecido e uma lista obrigatória de objetivos e competências. A complexidade, a diversidade, a interação e a multiplicidade dos suportes são conceitos desfasados da estrutura normativa do curriculum. Mas a realidade vivida na sala de aula coloca a necessidade e pressão na mudança.

Não só de conhecimento se fala quando perspetivamos o processo ensino-aprendizagem, mas mais importante será o resultado significativo que advém desse processo. Neste processo existem três figuras primordiais e relacionais: o conteúdo, o contexto e as relações pessoais. O resultado será então o significado das aprendizagens, o que de relevante surge no confronto para o estudante e para a sua vida profissional futura.

O ensino através de projetos visuais em que o processo do design seja uma das estratégias, é já amplamente aceite pela comunidade de investigação em educação artística. Como tentamos aplicar e experimentar alguns desses métodos a projetos concretos na Escola Artística e Profissional Árvore (EAPA) é o que se pretende aqui relatar. A troca dinâmica de experiências, o papel do professor e do artista, o papel do aluno e do futuro profissional, o que o processo ensino-aprendizagem ganha ou não.

Os projetos

Estes projetos têm em comum a alteração do habitual espaço da aula, a sua deslocação e consequente estrutura da aula, matérias lecionadas, ritmos de trabalho e interação com os colegas e professores. Os projetos que aqui se apresentam têm características diferentes: o primeiro (a que chamaremos de Zülpich) desenvolveu-se numa lógica de intercâmbio internacional entre a EAPA e um liceu de ensino secundário de caráter geral onde os alunos alemães tem uma componente integrada de Arte e História de Arte; O segundo projeto, “Tecer Outras Coisas”, enquadra-se num espaço de diálogo e construção entre alunos, professores, artistas, designers e ex-empregados do setor têxtil em regime de voluntários.

Zülpich

Os projetos de intercâmbio internacional surgem numa tentativa de aproximar a escola a uma realidade mediática e mais próxima da dos alunos em que o domínio da língua inglesa se torna prioritário. Este intercâmbio insere-se numa rede de escolas europeias (ESN-European School Network < http://www.esnetwork.eu>), que integra várias escolas de nível secundário de vários países: Portugal, Espanha, Itália, Holanda, Finlândia, Alemanha, Polónia e Hungria. Juntando várias disciplinas, de caráter geral e outras técnicas, os alunos são convidados a envolverem-se numa série de aulas em formato de workshop a serem dadas com colegas e professores de outros países europeus.

Este projeto teve dois encontros, o primeiro em Portugal (de 1 a 6 de maio de 2011) e o segundo na Alemanha (de 1 a 8 de outubro de 2011). Tanto na estadia em Portugal como na Alemanha, os alunos viveram durante uma semana nas casas das famílias dos colegas que os acolhiam, o que proporcionou um estreitamento de laços e um confronto com hábitos e formas de estar típicas de uma família.

O principal objetivo deste tipo de atividade é a aquisição de competências ao nível da língua inglesa, o confronto entre diferentes sistemas de ensino, o conhecimento de formas alternativas de ensinar assuntos ligados à arte e ao design, entre outros objetivos mais gerais, ligados à comunicação, sociabilidade e conhecimento de outras realidades. O tema que uniu este intercâmbio foi a Arte ou Artistas de cada país. Nas workshops no Porto, a escola Bauhaus foi o mote de desenvolvimento de uma série de monogramas tipográficos com um caráter autorreflexivo. O esquema das aulas, conteúdos e tempos foi definido previamente pelos professores alemães em comunicação via e-mail com os professores portugueses. Nas workshops em Zülpich, poemas de Eugénio de Andrade e imagens da cidade, foram o despoletar de um exercício de composição finalizado numa ilustração. Todas as aulas foram dadas em inglês e juntaram na mesma sala de trabalho, alunos e professores de ambos os países e diferentes formações. Logo na fase inicial de desenho das aulas, o confronto entre professores e matérias a desenvolver ocorre. Na Alemanha a História da Arte e do Design são lecionadas não de uma forma cronológica, mas sim temática. Em Portugal não, vemos e damos a História da Arte de uma forma cronológica de análise de acontecimentos dialética e linear. Organizar os professores portugueses no sentido de preparar os alunos para esta forma diferente de abordar as questões foi o primeiro problema. A questão do desenho de uma letra, do tipo de letra seria então o tronco comum para explicação da evolução do desenho dos alfabetos, da introdução da modernidade no desenho e composição com a escola Bauhaus. Deste modo, as disciplinas de Desenho, História da Arte, Design Gráfico, Oficina Gráfica e Inglês poderiam trabalhar em conjunto articulando saberes e dispositivos num único local de trabalho. O confronto no mesmo espaço de vários professores com diferentes origens, formações e habilitações promove uma energia transformadora e de troca de saberes. O professor não sabe exclusivamente do seu campo de trabalho, tem que desenvolver significativamente saberes de outras matérias e fazer exercícios de contínua atualização, quer ao nível técnico do uso das tecnologias ou entrar nos domínios e conteúdos de outras disciplinas e novos temas de interesse comum. Em Portugal, antes da chegada dos alunos e professores alemães, promoveram-se diversos encontros de preparação dos professores, onde as matérias a abordar foram “lecionadas” a todo o grupo, de forma a todos terem o mesmo nível de informação. Apesar de todo o processo ser monitorizado pelo conjunto de professores, os alunos tiveram a liberdade de escolher os caminhos da sua investigação e produção, de escolher se queriam trabalhar sozinhos ou não, de definir o objeto final e os procedimentos para a sua produção.

Não é simples demonstrar os resultados práticos destas workshops em virtude de os resultados serem apenas artefactos, uma série de ilustrações e composições. Apesar das propostas de trabalho integrarem a construção de objetos, esse não será o objetivo primordial. Em Arte, os resultados mais profundos nem sempre são os mais visíveis. Voltando à centralidade do tema, a sala de aula “fora do sítio”, a questão primordial que este projeto abre é a de uma aprendizagem não exclusivadentro das portas da escola, num ambiente educativo e cultural diferente, onde as similaridades e divergências são medidas. O processo autorreflexivo dos alunos e professores desta experiência é o mais importante a retirar. “Afinal eles não são tão diferentes de nós” era algo comum aos discursos. Relativizar as nossas práticas dando espaço aos alunos de construírem e apresentarem o seu projeto, numa afirmação individual e contribuição de e para o coletivo. Este projeto mostrou como um projeto artístico pode ser motor e parceiro da cooperação, do desenvolvimento cultural, comunicacional e pessoal dos intervenientes, alunos e professores. Promoveu a diversidade cultural, o respeito pelo outro, a cidadania e desenvolveu apetências pela diversidade de expressões artísticas e culturais.

Tecer Outras Coisas

O projeto Tecer Outras Coisas está localizado numa sala da empresa têxtil Coelima, em Pevidém, Guimarães. Surgiu da vontade de um artista e também professor na EAPA, Max Fernandes, de fazer um projeto assumidamente artístico, um projeto autossustentável apoiado pela Junta de Freguesia e Câmara, que aliasse a escola Árvore (professores e alunos), os voluntários (ex-empregados da indústria textil e moradores na freguesia) e artistas ou designers. É um projeto apaixonante para o seu criador e para os seus intervenientes. Todos estão lá por mote próprio e com uma enorme vontade de aprender-ensinar o que sabem. Os alunos participam neste projeto dentro do estágio curricular (ou formação em contexto de trabalho, denominada FCT) em full time, durante quatro semanas, 8 horas por dia. Aos alunos é pedido que dialoguem, interajam e construam em conjunto com os voluntários e artistas. Os alunos, numa primeira fase, definem que metodologia e conceito irão implementar de forma a chegar a um objetivo traçado. Aqui o papel tradicional de professor adquire outra dimensão. Ele torna-se um “guia” nas pesquisas, alguém que acompanha o projeto do aluno, o orienta e que o leva a tomar decisões baseadas na responsabilidade individual e na ética. Há relações que se constroem e transformam não por imposição da sua autoridade, mas sim, por descobertas e vontade de percorrer um caminho comum, o do aluno com o professor. Para o professor alteram-se igualmente as questões de conhecimento e domínio da “sua” matéria pois deixa de ser a do campo exclusivo do seu domínio para alcançar territórios longíquos. Sem um objeto ou objetivo definido, sem a meta a atingir, os voluntários e alunos tem que decidir, fazer escolhas e conceptualizar uma ideia. Alunos e voluntários tornam-se por vezes professores, quando partilham experiências e saberes uns com os outros, passando a informação que sabem, numa partilha constante. Tudo é feito em grupo, decisões e criações. “A não formalidade é uma fragilidade”, segundo Max Fernandes. Penso que esta fragilidade pode ser transformada em uma qualidade pois abre a criação ao imprevisto, ao casual e até ao erro, está criado um enorme campo aberto de possibilidades. Não sendo algo rígido, controlado por uma entidade, nem autoral, a presença do coletivo é permanente, fomenta uma energia criadora saudável, sem liderança ou subalternos, sem hierarquias numa vontade comum de criar, fazer e aprender.

O que sobressai neste projeto tão original é a premissa de sustentabilidade social, do projeto comunitário, junta gerações e indivíduos com variados conhecimentos de diferentes áreas e níveis do conhecimento. É um projeto assumidamente artístico e de design, contendo a ligação à comunidade e à escola: pessoas aprendem e ensinam umas com as outras; a invulgar relação que se produz entre os voluntários, alunos e professores/artistas ou designers; lugar de experimentação e independência na ação de cada um em atenção, ou como primeiro objetivo, o coletivo.

Conclusão

Às questões formuladas no início, – a) O que significa uma escola do séc. XXI? b) Baseada na ação, que articulações a investigação teórica em educação artística estabelece com a vontade e a possibilidade da mudança? – as respostas não são diretas nem evidentes, podem sim apontar caminhos e pistas. Se numa primeira análise, a aplicação destes projetos, valoriza as questões comunicacionais, geracionais e as da identidade cultural, numa análise mais profunda, um dos caminhos a percorrer será o do acesso universal às questões artísticas baseadas num sentido ético, crítico e autorreflexivo, num percurso multidisciplinar e na construção de um projeto multitarefas. O artefacto construído torna-se secundário e é apenas uma razão de interligação e construção de relações afetivas do grupo, não estando já amarrado a questões autorais e individualistas características de um certo tempo de modernidade. A preocupação pela forma dá lugar à evidência e importância do processo. O resultado materializa um percurso percorrido, primeiro de estudo e aproximação, desenvolvendo metodologias e técnicas abertas e fora das fronteiras restritas da arte ou do design. Desenvolvem-se a inteligência visual, sentido crítico e autocrítico perante as imagens e a visualidade, a sensibilidade ética e intuição estética.

Ao nível dos agentes desta mudança, situados nos professores, artistas e designers, torna-se necessária a reformulação de um curriculum mais flexível, mais abrangente nas matérias em que o trabalho é feito por e com o conjunto de profissionais e não a característica individualização do ensino e da prática. Esta atitude obriga a uma constante atualização, reflexão e autocrítica. Uma maior responsabilização e sensibilidade para as questões artísticas, comunitárias e da cidadania. Entender o meio onde a escola se insere ou onde poderá atuar, agir sobre ele não esquecendo as tradições e cultura locais mas olhando para o futuro tendo a novidade, tecnológica, estética e social como meta.

A escola e a oficina de design mais precisamente saem do espaço habitual e exploram o mundo à sua volta. Por inerência a um projeto de design, o criador deverá pesquisar e conhecer o seu público-alvo, as características sociais e culturais onde se implementa, as questões éticas e conceptuais.

Arte é contextualizada, fronteiras entre domínios são pouco definidas e a ênfase é dada ao conteúdo em prejuízo da forma ou aspeto. A integração da arte com outras matérias é congruente nesta linha de pensamento. Relaciona ideias com formas no sentido do fazer, da construção de um projeto com o cruzamento de conceitos, ideias e experimentação.

 

Referências

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Rodrigues, L., (2011). Ensino Profissional- O Estigma das mãos mais do que a cabeça. Mangualde: Edições Pedago, Lda.

Autor(es)
Ano 2012
Tipo Publicação em Actas
Publicação Proceedings of Insea 2012 European Regional Conference. Arts Education at the Crossroad of Cultures.
Local Lemesos, Cyprus
Idioma Português, English
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