Rui Chafes: A força do passado

Rui Chafes cedo começa a expor na ESBAL, esculturas esguias em mármore, na Galeria LEO (1986 e 1987) e no Espaço Poligrupo / Renascença (1988), onde apresenta peças de madeira e plástico.

Em 1987, realiza as primeiras esculturas de ferro pintado de negro. Uma das obras mais conhecidas, com data de 1995, encontra-se pendurada junto ao Jardim das Esculturas Românticas no Museu do Chiado em Lisboa.

O seu trabalho implica os lugares de colocação, libertando-se do espaço da galeria de arte e do museu para se estender à paisagem, inscrevendo-se na lógica da experimentação das vanguardas.

Lado a lado com o que é considerado o universo do Romantismo Alemão – atenuado pela consciência de uma cultura clássica –, Rui Chafes não esconde a paixão ibérica pela tradição do ferro que é o material eleito.

Desta feita, o escultor pretende reabilitar o sentido de descoberta e de revelação referenciado, em especial, no pensamento de Novalis: ‘Todas as forças da natureza são uma força, apenas’.

É na Alemanha que aprofunda as suas interrogações, uma vez que aí completa os estudos – após a conclusão do curso de Escultura na ESBAL, em 1989 –, frequentando a classe de Gerhard Merz, na Kunstakademie de Düsseldorf, até 1992.

Rui Chafes coloca sérias dúvidas de ser (ou de estar), algo próximo de um ‘romântico’, certificando-nos de que contemporâneo não é por certo.

A decisão de partir para Düsseldorf, depois de se formar em Escultura na ESBAL, marca já um interesse pela cultura e escultura alemãs, tão referenciadas na sua obra?

Essa não foi uma decisão, foi um caminho, uma predestinação: foram os passos que eu dei, sem realmente os dar, para ir de encontro à minha casa, para poder, com mais consistência, construir a memória do meu futuro.

Esse caminho, que a língua alemã e o amor pelas ideias cristalinas do Romantismo Alemão tornaram inevitável, levou-me de volta ao berço de onde nunca pensei poder sair.

O título das obras e das exposições / instalações que faz, ganha sempre uma importância na compreensão destas.

Há mesmo palavras como ‘sonho’, ‘morte’, ‘manhã’, ‘ferida’, ligadas à nostalgia e romantismo.

Considera-se um ‘romântico’ contemporâneo, de algum modo integrado na escola alemã (se possível for)?

Não existe propriamente uma ‘escola alemã’ pois a arte não tem fronteiras nem passaporte.

O que existe é a memória: a memória que é o sedimento da cultura e da civilização. A memória inquieta-nos e, ao mesmo tempo, assegura-nos de que o tempo é o nosso único amigo.

Gosto muito da ‘escola indiana’, da ‘escola suméria’, da ‘escola egípcia’, da ‘escola cambojana’, da ‘escola maia’, da ‘escola asteca’, da ‘escola inca’, da ‘escola africana’, da ‘escola celta’, da ‘escola francesa’, da ‘escola alemã’… Não sei se sou um ‘romântico’, mas seguramente contemporâneo não sou.

As palavras são pólen que, levado pelo vento, se espalha: pó de floração de ideias. As palavras são mais importantes do que as imagens, a Palavra é o início de tudo.

Uma palavra pode salvar, uma palavra pode matar (tal como o ferro pode dar a vida ou tirar a vida). O poder da palavra é imenso.

Os títulos, no meu trabalho, são grãos de pólen. As minhas esculturas são sombras de sementes, formulações do espaço vazio.

Os títulos evocam, também, as suas preocupações e sentimentos?

Os títulos não evocam as minhas preocupações nem sentimentos. A arte é a arte, tudo o resto é tudo o resto.

É o ferro o material de eleição que nada tem a ver com o bronze e mármores românticos dos anos 80.

Porquê o ferro?

O meu trabalho com ferro é um trabalho arcaico que se coloca numa história milenar, a história mais antiga do mundo, que é também uma história de morte e vida, subsistência, construção, protecção, ataque e defesa. A violência e a paz.

O ferro tem servido para armas, ferramentas, alfaias agrícolas, espadas, armaduras, canhões, locomotivas, comboios, balas, mísseis, tanques de guerra, aviões a jacto, etc.; ele possui a energia telúrica ancestral vinda do fogo do centro da Terra e foi trabalhado por demiurgos e alquimistas e pelos ferreiros de todas as tribos e pré-civilizações de África, Europa e Ásia.

Falamos de transformação e magia: trabalhar um produto da Terra com um agente divino, o Fogo. Falamos da união e transformação dos elementos, no sentido em que Novalis falou.

Este é um material que envolve mais ou menos todos os aspectos da vivência do Homem sobre a Terra.

Como sou irmão de todos os que trabalham com o ferro, quando estou no atelier recordo a herança que atrás se estende: os primeiros mestres ferreiros africanos; os ferreiros da Europa central pré-cristã; os ferreiros e armeiros góticos; a revolução industrial que apresentou o ferro e o aço em todo o seu esplendor, iniciando a arquitectura do ferro e do vidro que permitiu a construção de enormes edifícios de uma leveza nunca antes possível, ao lançar, elasticamente, vãos e vigamentos a distâncias que, até então, seriam impensáveis; o primeiro Modernismo que introduziu o ferro nas linguagens artísticas com Julio González e Pablo Picasso, abrindo caminho aos posteriores grandes heróis do Modernismo como Anthony Caro, David Smith e Richard Serra.

Apesar de o material ser, hoje, perfeitamente aceite nos códigos e linguagens artísticas, permaneço e resguardo esse valor puro e ancestral, aprendendo todos os dias a dominar o poder que o fogo pode exercer sobre o ferro, de forma a transmitir-lhe o sopro que permanentemente persigo.

Viaja pelo tempo da História da Arte em busca de inspiração, sendo que existem referências a formas do passado na sua obra… Ou, tudo lhe vem de dentro?

‘Eu sou uma força do passado’, escreveu Pier Pablo Pasolini.

A minha viagem pelo tempo da História da Arte não é em busca de inspiração. Inspira-me muito mais a visão de uma menina que, envolta na mortalha de sua mãe, tenta repentinamente, até conseguir, suicidar-se num lago, do que as imagens museológicas.

Interessam-me mais os ganchos de ferro onde se suspendem as lamparinas e os candeeiros numa catedral do que a própria catedral.

É verdade que os meus Mestres vêm de longe, de outro tempo, de outro lugar; são eles que me abrem as portas por onde avanço para trás, por onde involuo.

Essa involução só pode ser possível através da mais profunda, extrema e radical solidão: estou sentado sobre o monte de ossos que constituem o passado e a memória.

Esta é a viagem que se faz montado nas costas de um tigre selvagem que nos quer atacar, quando pretendemos retroceder para a frente. Escultura, arquitectura, memória: indícios do tempo fragmentado que não conseguimos recuperar, mas que se estende, voluptuosamente, à nossa frente.

A magia da escultura…

A escultura tem, obrigatoriamente, de ser consciência do passado, do Mundo Arcaico: a Escultura foi, noutros tempos, a manifestação física das forças mágicas, das forças com capacidade para alterar as coisas do Mundo.

Um tempo em que tudo na Natureza era sagrado: onde o nosso olhar pousava escondia-se um deus, em cada nuvem, em cada erva, em cada árvore, em cada pedra em cada concha, em cada pena, em cada criança que nascia.

Tudo era apenas visão e voz, outra voz: a Natureza falava.

As folhas percorridas pelo sopro do vento, a espuma das vagas do mar, o silêncio e o aroma da erva, os ramos das árvores oscilando, o botão das flores das cerejeiras… Tudo era rasto da sua presença sagrada, tudo era a sua voz, tudo eram formas de o espírito universal se manifestar em Beleza e Saber.

Esse era um tempo em que as coisas (muito especialmente, a Escultura) tinham um significado, para além de terem um nome; perdemos progressivamente a capacidade que os Antigos possuíam para conhecer os verdadeiros nomes das coisas.

Estamos todos a envelhecer prematuramente.

Nesse tempo, nascer e morrer tinham um significado; vir a este Mundo ou deixá-lo correspondia a um momento não só de alegria ou de dor mas, também, a um ritual de boas vindas e apresentação do recém-nascido ao Mundo (aos astros, aos quatro pontos cardeais, aos deuses) ou a um ritual de despedida e preparação do recém-partido para a sua viagem para outro mundo, de encontro aos deuses.

Esses momentos eram paragens no curso da vida, no curso do tempo. Eram momentos de Significado para quem sabia, profundamente, que a nossa vida é feita de encontros e separações.

Como relaciona esse Mundo com a actualidade?

Hoje, no nosso mundo pragmático e apressado, nesta aceleração sem sentido nem tempo para o procurar, nasce-se rapidamente (e em série) em práticas maternidades e morre-se e realiza-se o funeral rapidamente (e em série) pois ‘não há tempo a perder’ nem sequer há tempo para querer ter um tempo que dê significado ao inexorável tempo, ao tempo que, por vezes, nos magoa e nos faz sofrer e chorar.

Este mundo pragmático, de pastilha elástica, não tem nada para nos oferecer; não tem significado nem nos deixa procurá-lo. Também por essa razão, a Escultura se arrisca a deixar de ter qualquer significado. A Escultura tem de ter a capacidade de elevar o quotidiano à dignidade da fábula, do encantamento, da eternidade.

Não existe modernidade, apenas eternidade, efemeridade e vulnerabilidade. O artista é sismógrafo do seu tempo e, dessa maneira, contribui para construir uma dignidade clássica que descobre na ocorrência diária a dignidade dos gestos de uma outra humanidade.

É esse o seu trabalho e, não esqueçamos, um artista tem de ser um trabalhador cujas ferramentas são a sua capacidade poética transformada em capacidade técnica. Estou convencido de que a única força capaz de alterar o presente é o passado.

Afinal, nada parece ser (pré) estabelecido, a não ser as formas e materiais sólidos.

Realiza esculturas de chão e de tecto que, por vezes, se penduram nas paredes como pinturas ou se vivem como móveis e / ou objectos.

Esta ironia que torna a escultura ‘mais terrena’ existe subtilmente concentrada no seu trabalho. Isso diverte-o? 

Não consigo ver ironia no meu trabalho. Nem me divirto particularmente.

A arte não é um divertimento. A arte não é um prazer nem dor. A arte está sempre morta e uma arte ‘viva’ é uma fraude, um engano.

Qual a importância da luz e da cor, assim como das formas organicistas predominantes e da relação das peças com o espaço de maneira a favorecerem um efeito de instalação…

As peças existem porque existe um espaço. As peças, no chão do meu ateliê ou durante o transporte, no camião ou no barco, são apenas pedaços de ferro sem importância. Não têm qualquer existência possível na esfera do artístico.

Elas só passam a existir como esculturas, como interpelações do espaço (físico, humano, emocional, cultural, etc.) quando forem meticulosamente colocadas no seu lugar, na sua posição final: correctamente iluminadas e expostas, relacionando-se de forma intencional e rigorosa com o espaço, tendo capacidade para provocar em nós a emoção e o deslumbramento do primeiro olhar: a infinita e repetida revelação e transformação. Antes disso,  enquanto se encontram na sua existência aleatório, não têm qualquer estatuto artístico. Convém não esquecermos isto, para não nos habituarmos a chamar Arte a tudo, indiscriminadamente, mesmo a coisas que não o são.

Seja onde for esse local, seja qual for a sua cor ou a sua iluminação, ele só poderá funcionar se o artista tiver a total responsabilidade pela colocação final do seu trabalho, evitando todos os conselhos alheios que, na maioria dos casos, são absolutamente errados e infelizes, quando não mesmo intelectualmente desonestos.

Qual a peça que mais gozo (ou motivação) lhe deu fazer. Porquê?

Todas as esculturas exigem de mim a maior atenção, força, motivação e rigor. Todas fazem parte da minha vida de uma forma excessiva.

Os desenhos, a lápis negro, são constantemente reveladores da escultura?

Os desenhos são, desde sempre, a génese da minha escultura, da mesma forma que as esculturas são, desde sempre, a génese dos meus desenhos. De qualquer maneira, faço sempre a mesma escultura, sempre o mesmo desenho.

Algumas obras parecem-nos bélicas e, outras, mais leves e poéticas. É também um jogo entre o peso e a leveza do ser? Daí, a intemporalidade…

Novalis, escrevendo no século XVIII, mostrou-nos que a guerra, em geral, nos parece um efeito poético, por nela se moverem as águas primeiras, de onde novos elementos do Mundo devem nascer, novas gerações.

‘A guerra corre direita ao declínio e é onde a demência do Homem se apresenta na sua forma completa.’ A isso se poderia chamar autêntica poesia.

Existem campos onde o bélico e o poético se sobrepõem, onde coincidem sem se destruírem, tal como acontece com o peso e a leveza do ser. A intemporalidade nunca é pacífica.

Uma noite, há muitos anos, parti um cristal que possuía a maior pureza. Fizeram-me prometer, nessa noite longínqua, que passaria o resto da minha vida a tentar reconstrui-lo. É o que tenho vindo a fazer, ano após ano. Trago essa noite em mim como uma cicatriz.

Autor(es) , (Ed / Org)
Editora Revista BomBart / Projecto Núcleo de Desenvolvimento Cultural
Local Vila Nova de Cerveira
Ano 2016
ISBN / ISSN ISSN 1647-2039
Idioma Português
Número N.º 3 (maio-junho 2009)
Tipo Outro