Para olhar o mar através dos teus olhos: um corpo vibrátil entre dois continentes

Para olhar o mar através dos teus olhos:

um corpo vibrátil entre dois continentes

 

Resumo: Este artigo trata da poética da artista brasileira Ana Maio através da análise dos  vídeos que integraram a exposição “Sei serem os próprios”. Questões como memória, arquivo e paisagem são referenciadas nas imagens produzidas e conceitos como corpo vibrátil (de Suely Rolnik) e estética de laboratório (de Reinaldo Laddaga) foram utilizados para uma abordagem crítica das mesmas.  

Palavras chave: arquivo, memória, corpo, vídeo, experiência

Title: In order to look at the sea through your eyes: a vibratile body between two continents

Abstract:  This paper deals with the Brazilian artist Ana Maio’s poetry by analyzing the videos which were part of the exhibition “Sei serem os próprios” (I know they are the ones). Memory, file and landscape are issues which were referred to in the images whereas concepts, such as vibratile body (Suely Rolnik’s) and laboratory aesthetics (Reinaldo Laddaga’s), were used in order to carry out their critical analysis.

Keywords: file, memory, body, video, experience

Navegar entre o velho e o novo mundo

Este texto tem por objetivo analisar os vídeos construídos com a poética da pós-produção do arquivo e que integraram a exposição Sei serem os próprios, de  Ana Maio. A artista brasileira vive no litoral sul do Brasil e é descendente de portugueses. Com a memória das histórias que ouvia, na infância, sobre a pequena cidade paterna, localizada junto ao mar, ela vai a Portugal para buscar reconhecer, na localidade de Póvoa de Varzim, os lugares que construiu em seu imaginário.

Deste encontro entre o continente americano e o europeu foram produzidos cinco vídeos, reunidos em uma única exposição,  onde a artista usou narrativas visuais, sonoras e textuais tecidas com registros da paisagem; com a história de seus antepassados investigada em fontes primárias e com registros de ações e de percursos realizados nos dois países.

Foram analisados, então,  os vídeos Porção, Árvore de Costados, Cortejo e Destino Póvoa de Varzim, que foram projetados. Também Paragem de leitura e a sua articulação em uma videoinstalação. Este material constituiu a exposição Sei serem os próprios que foi montada na cidade de Porto Alegre (Brasil) e em Póvoa de Varzim (Portugal), em 2013. Ana Maio a realizou por ter sido atravessada, quando pequena, pela narrativa paterna daquelas terras distantes e, agora, por ter experimentado  a confluência  entre suas imagens mentais e o percorrer e registrar espaços e situações em terras onde era, simultaneamente,  estrangeira e familiar.

A metodologia utilizada na construção do presente texto parte da experiência de ter visitado a exposição tomando contato com este material e percorrendo o espaço alterado pela videoinstalação  e projeções. Posteriormente, foram reunidos escritos da própria artista e conceitos com os quais buscou-se amplificar os sentidos produzidos.

1. Tantas imagens…

Ana Maio vive na cidade de Rio Grande, cuja praia, chamada Cassino, é dita como “a maior praia do mundo”, com um litoral liso e plano ao sul do Brasil. Talvez seja pela percepção a partir do corpo, do contato com tão extensa planície, de sentir na pele o roçar da areia que voa açoitada pelo vento, que se criou o mito de tal grandeza (que, inclusive, parece não ter fundamento científico). Mas os corpos são impressionáveis.

A larga faixa de areia que se vislumbra a partir do mar estende-se silenciosa e vazia em direção ao horizonte onde funde-se com o liso verde dos campos. Esta parte do Brasil, o extremo sul, já próximo da fronteira com o Uruguai, é um vasto território pouco povoado por humanos, mas onde habitam aves, insetos e animais marinhos.

Pela beira do mar pode-se ir até a barra do Chuí, onde um estreito braço de água divide os dois países. O Cassino compreende mais de 200 km de uma única praia plana e inóspita. Nela, quase não se encontram casas, mas pequenas ruínas e abrigos precários isolados entre si. Há dois faróis: o Sarita é triste e desocupado, mais além, o Albardão surge como um dos últimos lugares habitados. Depois, apenas a ventania, a areia e o mar agitado e cinzento.

Esta descrição visa provocar sensações: alertar para a grande solidão pressentida nesta paisagem. Como viver em tal lugar e não ter seu corpo inquietado por tanto espaço? Como olhar esse mar e não imaginar seu outro lado, a outra margem com sua gente e lugares descritos por seu pai? Esse homem que veio de Póvoa de Varzim e mansamente lembrava de sua terra natal e dela contava histórias.

Para a teórica brasileira Suely Rolnik o corpo vibrátil é aquele atravessado pela alteridade. Desestabilizado pelo outro – aqui, a alteridade é tanto o mundo como o pai – que lhe penetra intempestivamente através de todos os sentidos. Este corpo vibrátil produzirá significados que não estão escritos previamente: surgem da experiência, compostos com a subjetividade e as forças que lhe tocam e constituem.  O olhar vibrátil não é aquele que se lança sobre alguma coisa, mas com e como parte dela (Rolnik, 2006: 15). Assim pode-se pensar o olhar, o corpo de Ana Maio construindo-se com as paisagens brasileiras e portuguesas e a sua memória.

Observa-se o corpo dessa artista ao viajar e encontrar em Póvoa de Varzim, os lugares, cheiros e sons  que habitavam seu imaginário. Ela refez percursos que outros pés já trilharam, abriu documentos e investigou tempos e origens. Desenvolveu um protocolo de várias ações que geraram imagens em si mesmas ou foram matéria-prima de registros. Com eles foram compostos os vídeos que integraram a exposição. Nesta análise, é considerado ainda o corpo do participante que também vibra ao contato com todo esse material.

Árvore de Costados é um vídeo onde se vê fragmentos de documentos manuscritos com caligrafia antiga. São atas e certidões, com dados sobre seus antepassados, encontradas pela artista nas cidades portuguesas do Porto e Póvoa de Varzim. Ana Maio criou um vídeo onde há sobreposição lenta tanto de imagens quanto de  sua própria voz que lê datas, nomes e circunstâncias. Um dado importante é que esse áudio inicia e termina com dois longos efeitos de transição, fade in e fade out, assim ao princípio parece que se  escuta murmúrios longínquos (são aqueles que emergem da memória?).  Pouco a pouco, os sons vão se tornando mais audíveis para, depois de um certo tempo, novamente irem desaparecendo (estarão retornando para o esquecimento?).

Já em Porção, o som do mar é alto e forte. Em um primeiro plano, há o gargalo de uma garrafa a despejar um pouco de água no mar: água do mesmo Oceano Atlântico, mas colhido em sua outra margem. A ação era verter uma porção do mar da costa brasileira, na portuguesa e, depois, despejar, no Cassino, um pouco do mar de Portugal. É a fusão das águas como metáfora para a fusão dos corpos: da artista com a paisagem e suas memórias, de seu trabalho com o corpo do público.

Cortejo são imagens capturadas pela artista ao refazer, em Póvoa de Varzim, o percurso do cortejo oficial, de 1909, quando foi colocada a pedra fundamental de um monumento em homenagem a seu avô. Escuta-se sua própria voz ao ler o documento que narra tal trajeto. Já Destino Póvoa de Varzim foi construído com imagens gravadas da janela do metrô, durante a viagem entre a cidade do Porto e Póvoa de Varzim.

Paragem de leitura é onde se combinam paisagens da praia do Cassino, lembra-se que é onde a artista vive, com a praia de Póvoa de Varzim. Ela senta de frente para o mar e lê o memorial de seu avô. Assim, produziu um composto com paisagem e memória.  Para Ana Maio “a paisagem teve um efeito profundo sobre os pensamentos e interpretações, decorrente da maneira como foi sentida através do corpo”. (Maio, 2014: 3848). Com este vídeo foi realizada uma videoinstalação. Outra possível paisagem oferecida para ser percorrida pelo visitante?

 

2. Sei serem os próprios

O título da exposição remete a uma expressão com a qual Ana Maio se deparou ao ler a certidão de casamento de seu avô. Indica a legitimidade dos declarantes, atesta a veracidade do que foi dito através da presença e escuta oficial. Há uma confluência de interesses entre quem professa algo e quem atesta. Assim, pode-se pensar que esta operação continuou na exposição: foram reapresentados os arquivos e documentos e exibidos os percursos. Alguns são os arquivos da própria artista, outros de instituições portuguesas. Mas o fato é que ela os fundiu proporcionando um material que é de terceira ordem, da pós-produção do arquivo.

Sei serem os próprios foi composta por quatro projeções simultâneas cujos áudios  se confundiam no espaço gerando uma situação bastante onírica, com sussurros e pálidas imagens. Para a videoinstalação houve a sobreposição de tecidos transparentes onde  a projeção se multiplicava nas finas camadas que pendiam do teto até quase o chão. No seu livro Estética de laboratorio, o filósofo argentino Reinaldo Laddaga, ao tratar da arte contemporânea, ressalta a ideia de  colaboração e  de processos abertos e experimentais, como os realizados em laboratórios. No presente texto, interessou tomar a experiência da artista que alterou arquivos através de práticas de pós-produção oferecendo vídeos com imagens impuras. Ana Maio afirma: “nesse contexto, a poética é o agenciamento do olhar que reorganiza as formas sociais em novos enredos, num laboratório de experimentação de lugares de memória perpetuados de um outro tempo” (Maio, 2014: 3856-57).

Para concluir, ressalta-se que Ana Maio partiu de sua experiência, memória e arquivos pessoais e os utilizou como matéria-prima, juntamente com ações que concebeu e desenvolveu, seus registros e outros arquivos documentais,  produzindo uma exposição onde a experimentação foi o ponto forte. Olhar o mar passou a ter a mediação de seu próprio corpo – olhar com os olhos da artista. Assim, ela nos emprestou seus olhos para uma viagem entre espaços e tempos diversos.

Referências

MAIO, Ana. Narrativas da Memória e Poética da Pós-produção do Arquivo. Anais do 23º Encontro da ANPAP “Ecossistemas artísticos”, 2014. [Consult. 2014-12-02]. Disponível emhttp://www.anpap.org.br/anais/2014/ANAIS/simposios/simp%C3%B3sio07/Ana%20Maio.pdf>

ROLNIK, Suely (2006). Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina/UFRGS.

LADDAGA, Reinaldo (2010). Estética de laboratorio. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora.

Autor(es)
Ano 2016
Tipo Artigo de opinião em jornal, Artigo electrónico
Publicação Revista CROMA, Estudos Artísticos , 6
Editora FBAUL/CIEBA
Local Lisboa
ISBN / ISSN 2182-8547 / 2182-8717 (online)
Idioma poruguês
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