O Design através do Desenho

Propomos aqui a questão da Arte e do Design através do desenho.  Procuraremos justificar a confluência do desenho na arte e no design e a diferenciação formal enquanto desenho para a arte ou para o design.

O desenho na/para a arte é diferente do desenho no/para o design? é a questão que propomos como estímulo para interpretar a relação do desenho e do design como propiciadora à relação entre design e arte.

1. O desenho como disciplina que configura  o conceito (ideia) será interpretado como descendente da cultura ocidental e particularmente no momento da sua afirmação renascentista.  Assim, consideramos a sua origem como disegno na cultura do renascimento italiano florentino[1], lugar físico onde surge a primeira academia de desenho[2]  e deste como configuração do entendimento do que é o projecto já que o desenho era a disciplina capaz de relacionar as várias artes chamadas do desenho (arti del disegno).

O desenho ao ser herança renascentista é também por esta via herança da cultura clássica grega e depois romana.  Desta forma ele é poiesis como um modo de «saber fazer» resultado do domínio grego da techné resultando em construção projectual e criação do objecto.  No renascimento, libertando-se da condição de um fazer artesanal o disegno, como arte liberal, institui-se como disciplina  e assim, deriva da theoria enquanto conhecimento, expresso como sabedoria intelectual abstracta, através do modo contemplativo da observação.  Mas, é também praxis, enquanto virtude prática, partindo de tradições culturais que transportam uma sabedoria moral, ética e política, expressando-se assim o desenho como ser-objecto.

A partir do séc.XVIII, o desenho como acção artística começa a conquistar autonomia disciplinar no encontro com o desejo de liberdade que a arte afirma.

O desenho liberta-se da função de ser projecto para a arte (na tradição de ser disegno) passando a sua autonomia a praticar-se em função das regras internas.

A conquista moderna de autonomia artística passará na segunda metade do séc.XX a pressupor os objectos artísticos como manifestações do irreconciliável da «coisa» artística.   Os exemplos de Duchamp e Malevitch na primeira metade do séc. XX serão a razão irónica da ausência da função artística na arte e, nos anos setenta, Beuys fará da ausência motivo de encanto transcendental.

O desenho ainda como acção motivada pelo desejo abandonará a necessidade artística e passará a constituir-se como objecto da arte.   O desenho já não é nem  história através da memória do seu passado (desenho clássico), nem  revelação do invisível através do visível (desenho moderno), mas apenas a figura que (a)presenta o real da arte.  Neste sentido, o desenho deixa de ser signo simbolicamente representado  passando a figurar como sintoma. Nesta circunstância o desenho é representado na arte como matéria pertencente à arte.

2. Virá a disciplina do design, como hoje é entendida, através da sua autonomia disciplinar inscrita historicamente na revolução industrial e posteriormente afirmada com o modernismo, preencher o lugar funcional do desenho?

“O paradigma do design como condição operativa de design de interfaces, aspira a ser representação de uma dimensão cultural própria.  Deste modo, o design é o desenho de artefactos de interface cultural”, resultado da triangulação entre autor-programa-tecnologia. [Providência in Calvera, 2003, 199]

Ao ser o resultado desta triangulação o design é por via do autor um instrumento de reflexão que aspira à liberdade da arte, no entanto condicionada por um programa  construtor de sentido que conferirá à obra/artefacto, através da sua concretização formal, um conteúdo de verdade.

Ou seja, o design é ainda uma derivação grega da technés, enquanto poiesis, como modo de «saber fazer» criativo, através da theoria e da praxis.

Então, poderá ser o design um modo de interpretar e realizar a função do artístico através do desenho, enquanto este é, de modo autónomo, na contemporaneidade, um domínio da arte?

Na condição de existência para…, o desenho existe como função que materializa o projecto.

O desenho (pre)existe como função multidisciplinar através da representação triangular entre classificação, representação e imaginação, derivando este triângulo daquele outro  descrito por Vitrúvio como utilitas, firmitas, venustas.  Consideremos o seguinte modelo:

Na tentativa de articular o triângulo descrito como o resultado do projecto em design autor- programa-técnica com o do desenho através do qual se realiza o projecto, este descrito como classificação-representação-imaginação dele resultaria uma figura cuja  autoria existiria no intervalo entre representação-imaginação, surgindo o programa no intervalo representação-classificação e a tecnologia entre classificação-imaginação.  Considerando a representação do projecto em design como a relação existente entre estes dois triângulos o design estaria mais próximo da ciência-engenharia através das representações do semi-círculo definido pelo movimento periférico entre representação e tecnologia passando pelos vértices do programa e da classificação e, pelo contrário, mais próximo da arte passando pela autoria e imaginação no movimento periférico do semi-círculo. Poderiamos ainda dentro deste círculo definir movimentos diametralmente opostos  tais como imaginação-programa, representação-tecnologia e autoria-classificação.

Em consonância com o texto “Algo más que una hélice” acreditamos poder argumentar que o design “es entre todas las disciplinas, si no el único, el más legítimo de los herderos del título «artístico»”[Providência in Calvera, 2003, 212].

A partir do quadro conceptual exposto neste resumo, teremos oportunidade na nossa comunicação de interpretar o paradigma instrumental que o desenho é para o design actual, procurando responder à questão que orienta este texto.

 

Bibliografia:

Calvera, Anna (ed.) – Arte? diseño? Barcelona: Gustavo Gili, 2003

Didi-Huberman, Georges – Devant l’image. Paris: Les Éditions de Minuit, 1990

Dienato Partenone (ed.) – Nel disegno – Materiali di un Corso di Disegno e rilievo della Facoltà di Architettura di Roma, 1984-1990

Vasari, Giorgio – Le Vite dei piu eccelenti  architetti, pittori, scultori. Fratelli Melita, 1987

Vitta, Maurizio – Il progetto della bellezza. Il design fra arte e tecnica, 1851-2001. Torino:

Einaudi, 2001

Wajcman, Gérard – L’object du siècle. Verdier, 1998

 


[1] Referimo-nos ao texto de Vasari, Giorgio – Le Vite dei piu eccelenti  architetti, pittori, scultori, editado pela primeira vez em Florença, em 1550 e dedicado por Vasari a Cosimo de’ Medici

[2] A Compagnia dell’Arte del Disegno foi fundada por Cosimo I de’ Medici em 1563, por sugestão de Giorgio Vasari. Entre os primeiros membros contam-se Michelangelo Buonarroti, Bartolomeo Ammannati, Agnolo Bronzino, Francesco da Sangallo.

 

Co-autoria: Magalhães, Graça; Pombo, Fátima.

 

Artigo apresentado no 4º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal, 20-21 outubro 2005

 

Autor(es)
Ano 2005
Tipo Publicação em Actas
Publicação 4º SOPCOM Repensar os Media: Novos contextos da Comunicação e da Informação. Livro de Actas do 4º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação.
Páginas 61-72
Editora Universidade de Aveiro
Local Aveiro, Portugal
ISBN / ISSN 972-789-163-2
Idioma Português
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