Notas sobre o Ser e o Sentir

[o texto não deverá ser entendido como um momento que se converte em processo de teorização sobre o feito, mas como circunstância introspectiva que permite ponderar e encontrar o corpo complexo das questões invocadas nos momentos de trabalho realizados com o grupo.]

No trabalho do Marcelo Evelin, as noções de arte(s), comunidade(s), continuidade e ruptura, encontram um espaço de confronto e diálogo que, dirigidos pela matéria sensível do corpo e pelo seu acto performativo, compreendem um movimento de reflexão e revelação  do sujeito no seu envolvimento com o outro humano, maior e exterior a si.

Este corpo físico manifesta uma substância sensível quando reage com a história, com a cultura, com os processos sociais, a invocação poética, a ponderação filosófica e a acção artística, transforma-se. Deixa penetrar-se pelo exterior, que comunica, que interage, que se envolve, que se oferece, se desloca e regressa. Esta mesma matéria sensível, na sua acção física, no seu movimento, na sua dança, recebe o saber de si pela experiência do outro.

Este corpo que transpõe a fina membrana que o reserva e separa do mundo e dos outros, coloca-nos na posição de reflectir e discutir o complexo território da(s) identidade (s): ver o corpo para além da sua condição física, compreendendo-o como um material significado pela sua experiência intelectual, social, cultural e política, que existe para além da carne, e que, pelo seu núcleo sensível, pulsa um sentir, um pensar e um viver que o configuram numa matéria de conhecimento.

A(s) identidade(s), a sua problematização nas experiências propostas pelos exercícios do Marcelo, parece, assim, tomar um papel central, expondo-se como um momento de suspensão do eu, de temporário abandono de nós para encarnar o outro. Esta noção de deslocamento é curiosa quando Marcelo nos anuncia que um dos seus sentidos na sua prática artística é o de provocar fendas, fissuras.

Formal e simbolicamente, este abrir poderá representar um movimento de romper a carne, rasgando a pele que nos envolve do mundo e dos outros, dando passagem ao diferente, ao estranho, ao incomum, deixando-se penetrar. E penso que isto não se remete unicamente para a experiência de si, motivada pela própria circunstância do exercício permitido pela intenção artística ou poética. Estes verbos parecem desejar um alcance externo, para o território social, político e cultural.

Daí, a partir destas noções de fenda e fissura, Marcelo propor o seguinte ensaio: como se pode deslocar, destabilizar, incomodar uma sociedade estável e a estabilidade das suas representações culturais?

No seu trabalho com comunidades, particularmente com o núcleo do Dirceu, em Teresina, Brasil, transparece o sintoma dessa fissura, dessa vontade de perturbar o cómodo, não num sentido destrutivo, de conotação maleficente, mas com uma intenção e desejo de virar o outro.

Este virar o outro parece sugerir uma dupla interpretação: o virar o outro, entendido como experimentar ser-se o outro, entrando num outro corpo, numa outra cabeça, num outro sentir; e o virar o outro, entendido como alterar o outro, actuar sobre si no sentido de o transformar.

Intuitivamente, diria que o virar o outro no discurso e prática do Marcelo estará na primeira interpretação, e eis que na apreensão crítica, filosófica e poética deste seu desejo, encontramos uma complexa e comprometida relação de estudo e ensaio sobre a condição do ser-se humano: Como é que o meu trabalha com o teu para se tornar nosso?

O outro, a extensão de si para um território que lhe é externo, procurando relações de proximidade, de afinidade, de correspondência, de construção, de reflexão, pertence-lhe, está presente na sua prática. Coloca o seu horizonte teórico nas relações humanas e o seu envolvimento com o mundo, com as múltiplas correntes da vida e fragmentos do mundo; os corpos em contacto com a estrutura social, política e cultural, diferentes, autónomos, mas ao mesmo tempo interdependentes, semelhantes, propostos à mudança, a múltiplas formas de transformação. E, situa a arte como um campo indisciplinar, aberto, dinâmico, que se deixa intersectar por estruturas de penetração, pensamentos tangentes, contaminantes.

Um de cada vez, todos juntos

Joga-se a convocação do eu. Através da palavra e do seu referente imagético, é pedido a cada um dos participantes que relacione uma palavra a outra que já transita circularmente. E no pequeno instante, é essa a regra – dizer a primeira palavra que se relacione com a anterior proferida – enuncia-se o sentido do jogo: a construção da identidade e a sua exposição através da linguagem e do discurso.

Qual a distância entre aquilo que sou e o meu discurso? Quem sou eu pelo meu discurso? E, como sou num fragmento de segundo? E, como sou lido?

Experimenta-se, assim, ser-se sem uma construção, sem uma reflexão prévia, porque se deseja uma identidade próxima do real, de si. É um jogo sobre a honestidade, sobre o confronto. E pergunta-se: qual a diferença entre uma reacção impulsiva e um discurso que é criado?

É sobre a identidade que se fala e se reflecte, da relação entre discurso e imagem, do exercício de projecção da nossa definição interna para uma exposição externa com a subsequente interpretação do outro.

Este ensaio de abertura ao grupo perante o desconhecido, torna-nos, assim reconheço, mais cúmplices, com todos os possíveis constrangimentos que esse movimento traz. Tal, expõe, tão-somente, a carga tensa das relações humanas, a sua desarmonia, os seus imprevistos e as suas contrariedades. De algum modo, a arte torna-se vida, o privado torna-se público, o singular colectivo, o desconhecido familiar.

O corpo, ao trespassar a sua fronteira sensível, ao se permitir ser, assumindo todas as suas contingências, depara-se consigo, com o outro e um meio: um lugar entre si e os seus próximos, da relação entre cumplicidade e constrangimento na reunião humana, o encontro do caos com a ordem e a sua mediação. Aliás, o interesse da dimensão do caos na organização do mundo é expresso por Marcelo Evelin.

 

Agora, Tuning your Body, um exercício que se abre à experiência colectiva em torno das noções de identidade, identificação, partilha, exposição, decisão e revelação. E releva-se a decisão como acto significativo num presente que se verifica fluido, instável, à deriva. O exercício declarativo de se ser ou não se ser, de reconhecer ou não reconhecer, parece definir a acção da decisão como acto último de afirmação do sujeito perante uma mesma estrutura social, política e cultural, liquida, que resiste a esquemas rígidos de pensamento ideológico, mas que é no entanto ilusória, mascarando-se sob o signo da tolerância no sentido de evitar tensões inerentes à condição da diferença cultural como marca fundamental de que é o ser humano, como sinal maior da necessidade de consciência sobre as relações de convivência entre indivíduos nas sociedades ocidentais.

Permite-se, então, o poder da decisão autónoma e individual, reflecte-se sobre a sua responsabilidade, e deseja-se que cada um resgate o seu território de representação e conheça o do seu próximo. E o que o exercício antecipa é a negociação entre ser espectador e ser observado, entre o individual e o colectivo.

Um exercício longo, de percepção e entendimento do outro, de incorporação do outro, da sua leitura a partir de nós próprios – corpos que se observam, que procuram conhecer-se a partir de um território familiar – nós próprios – numa linguagem que o outro nos demonstra. Sentir o outro, é essa a proposta.

Trata-se de uma interpretação do outro que vai para além de uma observação e representação miméticas. Usa-se o olhar para emocionar o corpo, para o despertar, fazer agir não em si mesmo, mas sobre si, nas acções que o rodeiam. Experimenta-se um corpo que funciona em camadas, que se decompõe, que se sente, que encarna – uma identidade que se suspende, uma matéria sensível que se experimenta, sai de si e que regressa como o outro. Num modo intenso, vigilante e sensível.

Procura-se eliminar o habitual para chegar a um novo lugar, envolvendo conceitos divergentes mas próprios de uma estrutura complexa como a matéria humana e a estrutura das suas relações, tais como a heterogeneidade, a complementaridade e o compromisso; mobilizar um núcleo relacional que se exprime em movimentos contínuos de partida e retorno, estando sempre em jogo a negociação entre o eu, o outro e nós, a tensão entre vontade e dever. Tal, vai-se aproximando da noção de virar o outro que o Marcelo vai abrindo, próximo do sentido de reencarnar, de afirmar a vida, tomando a carne, a matéria sensível que pulsa vida e que se activa pelo confronto com os seus pares, anulando o sentido de uma sociedade auto-suficiente, individualizada.

Eu e tu somos nós

O trabalho colaborativo, de intervenção cultural pelo envolvimento de comunidades particulares em projectos artísticos, experimenta um ensaio maior na análise do projecto 1000 Casas[i] em que Marcelo participa no núcleo do Dirceu, há dois anos.

Fala-nos que o seu desejo seria o de fazer mil performances em diferentes casas da comunidade de Teresina, definindo a concepção de cada um dos actos à condição específica e particular da casa e do seu agregado familiar. Novamente, a arte toca a vida, desejando experimentar e reflectir sobre a estrutura do poder e a noção de não-hierarquia. Agora, como se assume a posição de coordenador de um projecto artístico evitando a manifestação do poder e da expressão autoritária ou manipuladora? Como se horizontaliza essa estrutura hierárquica vertical? Como se lida com o outro, quais as formas em que se manifestam as relações de poder, e como se minimiza num plano de relacionamento que se deseja justo, próximo, semelhante?

O espaço e as dinâmicas que o Marcelo deseja é o da transformação ou, antes, a abertura da arte como um lugar para o encontro, para a relação com o outro, desmontando e dissolvendo a estrutura hierárquica na relação com o outro, para o receber. A relação entre artista e a comunidade encontra o seu núcleo significante através do diálogo, montando uma relação de proximidade, interacção e co-criação que acompanha o processo de compreensão e desenvolvimento da obra.

Aqui, o diálogo não deverá ser entendido como mero canal de comunicação entre sujeitos, como conjunto de códigos que é comum e reconhecido entre todos e que simplifica a execução de uma determinada tarefa. O diálogo acarreta a dimensão da empatia, da suspensão do sujeito autoral e da sua carga autoritária, para se transformar num veículo fundamental de partilha sensível entre sujeitos. E, no âmbito das práticas artísticas colaborativas, a sua definição teórica estabelece-se em pressupostos da prática artística se situar como exercício de trabalhar com e não de trabalhar sobre ou para, devolvendo à comunidade a possibilidade de assumirem o poder, privilégio e autoridade de reclamarem o seu território de representação.

De algum modo, a relação entre arte e comunidade deseja-se autónoma, mas igualmente inter-relacional, alcançando uma dimensão transformativa que se configurará simbólica ou politicamente em escala e alcance, pelo modo como os processos dialógicos e dos campos discursivos se tocarem, pelo envolvimento das comunidades e dos motivos que se invocarem.

O sentido sensível, a carga humana e emotiva que estes projectos poderão transportar, denotam o ensaio subjectivo destas mesmas práticas. Um trabalho sem rede pois opera no campo das relações humanas, de valores, ideias e princípios distintos do núcleo duro da história e da teoria e crítica da arte, externo e em conflito, e que lida com esquemas de racionalidade não-objectivos, não organizados em categorias claras, universais ou admitidas à razão científica dos modelos de pensamento ocidentais.

Um trabalho sem rede que, embora concretize o seu núcleo teórico, a sua invocação poética e a sua produção artística no tecido social e na matéria humana, não entende incorporar no seu diálogo relacional entre artistas e comunidades e entre obra e público, qualquer representação da arte como expressão de um discurso de salvação, seja na concretização de práticas artísticas junto de um contexto social específico, seja na transmissão da arte junto de outros domínios científicos e intelectuais.

A arte não traz ou reflecte a verdade, não salva o mundo. Mas ajuda a ler e a interpretar o mundo. A perturbação ou não perturbação do sujeito perante as múltiplas formas e linguagens da arte, a interacção que acontece num domínio intelectual e sensível, poderão ou não fazer despoletar acções de mudança, sejam elas num âmbito particular, individual e íntimo, ou num âmbito comum, colectivo e participado.

Mas isso traz-nos para uma das expressões da arte: a sua possibilidade de expressão política. E, na especificidade das práticas artísticas colaborativas, a um conceito fundamental: o de empowerment, que na impossibilidade de uma tradução literal, se orienta segundo a noção de atribuir legitimidade, poder e autoridade a um sujeito para a representação da sua expressão identitária. Uma possibilidade da arte como prática que regenera a vida.

Na significativa condição das práticas artísticas com o conjunto humano, com a vida, com o mundo, com o ser e as suas múltiplas formas de agir, retorna-se ao elementar pensamento e discurso de Hans Haacke, a propósito do papel do artista:

““A ocupação do artista requer um envolvimento em praticamente tudo… Seria desviar a questão se disséssemos que o ofício do artista é saber como trabalhar com este ou aquele material ou manipular os efeitos da psicologia perceptiva, e que o resto deveria ser deixado para outras profissões… o alcance total e diário da informação é de ter em consideração. O artista não é um sistema isolado. Para sobreviver ele tem que interagir continuamente com o mundo à sua volta… Teoricamente não há limites para o seu envolvimento.”[ii] (Apud Gablik, 2002: p.86)

O empowerment, nas palavras do Marcelo, exprimem o sintoma de virar o outro, pela energia visceral, pela possibilidade transformativa das práticas artísticas na regeneração das relações sociais e culturais.

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[i] De acordo com a informação disponível no sítio electrónico do projecto 1000 casas, este descreve-o: “O Projeto 1000 Casas consiste na pesquisa e num processo de criação, que acontecem concomitantemente, na região do Grande Dirceu periferia da cidade de Teresina, Piauí.

Entre 2011 e 2012 propomos uma visita a  1000 Casas em diferentes localidades desta região. As ações apresentadas/desenvolvidas em cada casa são pretextos para  um diálogo entre os artistas e a comunidade sobre a função do espetáculo e o lugar do espectador, levando em consideração os desejos, as expectativas,  e o entendimento particular da necessidade e da fruição  de arte no quotidiano dessas pessoas.

A ação performativa que acontece em cada casa não  está apoiada num assunto – transformado em tema ou ponto de partida para a obra. Artista e espectador são ao mesmo tempo co-criadores no evento, responsáveis por o que está sendo gerado, e colaboradores de um fazer que foge ao controlo da convenção, da regra artística que normalmente separa esse um do outro.”

Mais informações em: http://1000casas.nucleododirceu.com.br/

[ii] “The artist’s business requires an involvement in practically everything… It would be bypassing the issue to say that the artist’s business is how to work with this and that material or manipulate the findings of perceptual psychology, and that the rest should be left to other professions… the total scope of information day after day is of concern. An artist is not an isolated system. In order to survive he has to continuously interact with the world around him… Theoretically there are no limits to his involvement.” Citação em tradução livre.

Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro
Publicação Caderno de Trabalho - Encontros Artes e Comunidades - Continuidade e Rutura 2012
Páginas 7-14
Editora Serviço Educativo do Centro Cultural Vila Flor
Local Guimarães
Ed/Org A Oficina
Idioma Português
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