Mergulho no pântano, ou, como afogar o Homem

O texto de Fabiano Torres, que me cabe a mim comentar, coloca várias questões importantes àquilo que se define como a prática artística, tanto faz considerarmos a produção de objectos ou de uma escrita, e, de uma forma mais geral, ao que poderiamos considerar como sendo a formulação da vida e do pensamento como obra em devir contínuo, como festim permanente de ligações, de rupturas, de aceleramentos e de suspensões. Mas tecer um comentário é sempre colocarmo-nos numa posição de dizer algo que se reporta às palavras de um outro, como um deslizamento que acontecesse entre as fronteiras de um ringue. Neste sentido, ainda que seja infinito, o comentário adquire a forma da repetição, um rodopio em torno de um si, face ao texto primeiro com o qual é suposto estabelecer um jogo umbilical. A mim, apresenta-se-me como possível e desejável não comentar o texto de Fabiano no interior desta modalidade expectável, mas mais como um desdobramento que toma algumas das suas ideias como plataformas de outra escrita. Vou assim mastigar algumas das suas formulações num exercício necessariamente pessoal e implicado com o rumo do meu próprio pensamento e acção.

Mergulhar no pântano é mergulhar no caos: permitir que as figuras do homem sejam devoradas”.

Ora, essas figuras do homem que nos constituem e sem as quais dificilmente acreditamos poder viver, são as mais belas para alguns, mas decerto as mais perigosas invenções da modernidade. A metanarrativa das Luzes, de um sujeito dado, desde sempre aí, coloca em acção uma figura que seria anterior e superior à sua própria historicidade. Na educação, a ideia generalizada de que o sujeito é a matéria a ser trabalhada, quer na vertente Rousseauneana de uma passagem de um estado selvagem a um estado civilizado, quer, até, na vertente Kantiana ou Hegeliana em que o sujeito precisa de ser conduzido de um entendimento inferior para um entendimento superior, – e que pré-existe a um mundo social, político ou económico -, o que se joga é sempre a figura de um homem que deveria, acima de tudo, cumprir a dimensão humana da sua existência. Mas a compreensão do que é essa dimensão humana da existência não pode mais satisfazer-se com a remissão para o universal explicativo, e simultaneamente generativo, da própria ideia de que a essência do homem é a sua humanidade, sem que se consideram as grelhas de racionalidade que dão corpo e possibilidade de existência a esse mesmo pensamento. O ‘eu’ profundo é, antes de tudo o resto, um ‘eu’ histórico. Assim, nem a racionalidade nem a transparência nos fornecem lentes que nos permitam perceber as várias posições de ser sujeito. Ainda que, a compreensão dos processos de subjectivação não possa ser acedida senão temporariamente pois estes nunca se fixam em sistemas fechados de codificação.

Michel Foucault ao longo do seu trabalho foi deixando ‘pistas’ que nos permitem perceber que o sujeito que hoje somos é o resultado de modos de subjectivação específicos que acontecem em relações de saber, de poder, e de ética. Dizer isto é afirmar que os modos pelos quais o ser humano se converteu em sujeito fazem parte de tramas complexas de práticas culturais específicas que envolvem relações de poder (divisórias e classificatórias), que tornam a relação do sujeito a si e aos outros como o eixo fulcral em torno do qual gira a dinâmica de um ‘eu’ (o trabalho que o sujeito é levado a estabelecer consigo mesmo). Este ‘eu’ depositário de uma entidade singular e distinta, como um ser de desejos e de crenças, e, essencialmente, como um ser psicológico com uma interioridade autêntica e que esconde os segredos de uma identidade, é uma maquinação operada discursivamente a partir de uma gramática de matriz psicológica. Não por acaso, Foucault fez questão, quase no fim da vida, de explicar que o que constituía o objecto central da sua pesquisa não era o poder, mas o sujeito. Com isto sugeria que o que importava era não tanto a aplicação do poder, mas muito mais os modos pelos quais esse poder impunha aos sujeitos formas de se relacionarem consigo e com os outros a partir da produção de efeitos de ‘verdade’. Surgiam, assim, dois significados para a palavra sujeito: ser sujeito a alguém por relações de controle e de dependência, e ser sujeito a si mesmo no sentido de travar uma hermenêutica de si, uma decifração que, no essencial, com a herança do cristianismo se converteu, ao contrário do que acontecia na Grécia antiga, numa decifração da verdade e numa renúncia a si.

Essas figuras do homem, que correspondem a processos de subjectivação operados nos jogos de condução da conduta que cada um é levado, por meio de estratégias bio-políticas (de governo da vida), a estabelecer consigo mesmo, precisam desmoronar-se e em seu lugar dar-se o aparecimento de um desconhecido que resista[1] à codificação das palavras da lei e da ordem. Esse desconhecido implica a invenção de outras subjectividades que não aquelas que estão inscritas nos vocabulários de raiz psi. A ideia da morte do homem, há muito apontada, continua a ser insuportável ao olhar daqueles que têm dificuldade em escutar que deles próprios nada têm senão todo o conjunto de acumulações que lhes permite dizer, sem distância nenhuma, que o que dizem é mesmo seu. Para esses, as palavras de Gilles Deleuze, de que o devir da forma homem, – que implica a sua morte -, só acontecerá por meio de jogos com as forças de um fora, em que nem infinito nem finitude marcariam mais o compasso dos (im)possíveis, mas antes se atravessaria num relacionamento, – poderíamos dizer de inventividade? -, com “um número finito de componentes”, cujas combinações seriam, essas sim, de uma “diversidade praticamente ilimitada” (Deleuze, 2005: 180).

Rasga-se a pele e mete-se a mão dentro, no interior da coisa para esvaziá-la numa festa.

Não há espaço para metanarrativas nem para expressões como natureza humana dentro deste exterior no qual a festa acontece, livre de uma história de sentido único e linear da humanidade, sem a pele para envelopar o eu, os confetes e a espuma do travesseiro soltam-se da grande narrativa bolorenta e arrogante da salvação. É a possibilidade do “advento de uma nova forma, nem Deus nem homem” (Deleuze, 2005: 182).

O que trás isto à prática artística e a um pensamento sobre o devir da própria educação artística e da investigação em educação artística?

A obra e o ato é que vão inventar as categorias. É o mergulho no pântano que se vai possibilitar a invenção das regras. Não se parte de pressupostos, de leis a priori, pois as leis são justo o que a obra procura. O pântano abole objetos e formas preestabelecidas, pois nele o que há são forças.

Com estas forças operantes num fora que acontece somente pelas ligações, articulações, pelos processos de colocar ideias em trânsito, pelos arrastamentos das vozes e das obras dos outros, mata-se também o autor e a própria obra, que não são mais do que funções. Não que a obra e o autor, e as regras deixem de existir, muito pelo contrário, a sua existência passará a pautar-se pela impossibilidade de se cristalizarem num tempo, num espaço, numa categoria. Todo este posicionamento contrasta com qualquer pensamento sobre a origem transcendental do ser humano e, por outro lado, não pára de nos reenviar para as contingências históricas de qualquer acção e pensamento. Não adianta procurarmos aceder às coisas em si ou ao Ser do homem porque vamos sempre confrontar-nos com paisagens arquitectonicamente construídas a partir do texto. A forma homem de que temos de nos livrar é aquela que nada é mais do que um efeito dessa mesma invenção do saber que se operou na passagem do século XVIII para o século XIX. Será ainda tão invisível a possibilidade que tocamos de deslizarmos o nosso pensamento para outros modos de ser, de pensar e de agir que não se estabeleçam a partir de uma verdade essencialista acerca de nós próprios enquanto sujeitos?

Se dali vai sair, se vai resultar uma obra final pouco importa: o que importa é o ato e que as máquinas funcionem, continuem a funcionar por toda a parte.

Ora, grande desorientação parece ser a nossa quando à nossa acção abrimos a possibilidade do aberto, do indefinível, do ainda sem forma, enfim, do devir um desconhecido com o qual sabemos de antemão ir embater sem possibilidade de neutralizar o choque. O que significa, de facto, o engajamento com a produção, com a criação, a partir do momento em que tudo aquilo que nos interessa tem que ver com o acontecimento? De que nos servirá hoje investigar se essa investigação não for o pulsar da acção?


[1] Seria bom aqui explicarmos o sentido da resistência a que me reporto. Esta implica uma nova economia nos jogos e nas relações de poder, não no sentido de neutralizar, mas muito mais numa articulação profunda entre a teoria e a prática na análise do presente. A resistência aconteceria, então, como uma prática que procura, ao mesmo tempo, esclarecer “as relações de poder, localizar sua posição, descobrir seu ponto de aplicação e os métodos utilizados” (Foucault,  1995: 234). Com isso, alterar o campo de forças pela entrada em arena de fricções que surpreendem a mecânica normal das estratégias de poder.

Autor(es)
Ano 2012
Tipo Capítulo de Livro
Publicação À procura de renovações de estratégias e de narrativas sobre educação artística
Páginas 43-46