Julião Sarmento: Sem Floreados

Um dos artistas portugueses contemporâneos de maior relevo, afirma-se nos anos 70 a nível internacional, utilizando variados suportes. O corpo feminino fragmentado (ou não) é uma presença constante na obra, sempre sujeita a interrogações.

Ao observarmos o trabalho de Julião Sarmento — quer o mais recente, quer o de início de carreira —, constatamos que o artista lisboeta tem vindo a repetir um conjunto de temas, quase como uma obsessão, prolongando-os no tempo. O vazio deixado em aberto por preencher. Os corpos sem rosto. A própria abstracção de imagens.

Sarmento trabalha o processo de interromper, evitando o retrato e qualquer espécie de referências directas. Em alguns casos, encontramos legendas que nos dão pistas ou que colocam questões sobre a sociedade actual.

A mulher, como os objectos e os espaços, são apresentados por finalizar. O desejo representado nos corpos (explícito ou não) é aquele que nos parece ser tratado mais intensamente. Como um jogo subtil onde o olhar do espectador se projecta nos corpos mutilados. Entre dúvidas e desencontros. O preto no branco. Ou, o branco no preto?!

Julião Sarmento inicia-se na pintura, antes do 25 de Abril de 1974 — altura em que a censura e a guerra no Ultramar levam os artistas portugueses a partirem para Paris e a virarem-se para um universo artístico anglo-saxónico. Desde muito cedo, mostra uma forte influência cinematográfica fazendo com que a sua pintura absorva um carácter fragmentário que a aproxima da imagem do cinema.

As primeiras figuras (de animais), com cores intensas, parecem escapar pelas margens da tela. Como se fossem apanhadas num momento de fuga. A partir de 1974 deixa de pintar, indo buscar à fotografia, filme e vídeo, o suporte ideal para tratar o corpo feminino tão fundamental para o entendimento da sua obra.

Sarmento recorre também à escultura, desenho e instalação, procurando sempre reciclar fórmulas da literatura e do cinema. O objectivo é construir um universo de referências, no qual convida o observador a vestir a pele de um voyeur que vê sem ser visto. Um voyeur que acaba por entrar para a obra de arte onde se revê.

Nos últimos anos, Julião Sarmento tem recorrido de novo ao vídeo — como acontece na obra Sem Título, que apresenta na Bienal de Veneza, resultante de uma colaboração com o cineasta canadiano Atom Egoyan.

A internacionalização do seu percurso começa cedo. Recordamos a presença nas Documenta de Kassel de 1982 e 1987 e e na Bienal de Veneza em 1997, como representante de Portugal, ou em 2001, com o já referido trabalho de parceria com Egoyan; em 1991 na exposição Metropolis, em Berlim, e em 2002 na Bienal de São Paulo.

Sarmento tem vindo, assim, a apresentar peças nos mais conceituados museus portugueses, bem como em instituições internacionais de prestígio — tanto na Europa como na América. Um nome que integra a História da Arte Contemporânea em Portugal.

Quando se dá a internacionalização?

Foi bastante lenta e gradual. Mas, se quisermos ser absolutamente precisos, começou em 1972 quando, pela primeira vez, participei numa exposição (colectiva) fora de Portugal —  a saber, na Jugoslávia.

Mais tarde, já em 1976, fiz pela primeira vez uma exposição individual no estrangeiro, na Polónia.

A Bienal de Veneza, em 1997 e 2001, serve como exemplo a essa internacionalização que se desencadeia anos antes.

Qual dos eventos é mais importante para o Julião Sarmento?

Onde se sente melhor representado, sendo que o espaço é fundamental para o entendimento da obra…

Ter representado Portugal na Bienal de Veneza de 1997 foi sem dúvida um dos pontos mais altos de toda a minha carreira. Primeiro porque, quer se queira quer não, representar o país é um acontecimento de uma relevância extraordinária… Depois, porque pela primeira e única vez em toda a minha vida profissional, tive de facto a ajuda que necessitava por parte das entidades competentes.

Os variados suportes (desenho, filme, fotografia, instalação, pintura) que sustentam a sua obra, relacionam-se com a abertura de novos universos e configurações. Quais.

Esses variados suportes a que se refere representam, tão-somente, o exercício de uma atitude conveniente e prática em relação à execução do trabalho.

Os suportes são apenas contentores de ferramentas.

Essas ferramentas, esses utensílios (chamemos-lhes assim), são utilizadas segundo as necessidades operativas. Só isso!

Há um suporte preferido…

Não tenho nenhum e utilizo todos os que forem necessários.

A fragmentação de corpos e interrupção de imagens captadas num momento, são uma constante. Há nelas uma mensagem especial?

Não.

Será a mulher um elemento fundamental no seu trabalho, mais do que os objectos e os espaços?

Será, sim.

Mas também os espaços entre as coisas, a literatura, a arquitectura, as plantas…

Interroga-se sobre o mundo feminino como um mistério ou como uma crítica social?

Considera-o um fétiche?

Nem como uma coisa, nem como outra.

Não me interrogo sobre o mundo feminino pura e simplesmente.

Eu tento VIVER o mundo feminino, o que é totalmente diferente… De resto, todos os mundos são mistérios. Os fétiches não são isso… São outros mundos.

A mulher, mais do que uma inspiração, parece ser uma fascínio / fixação.

O que representa a mulher, afinal, na sua obra?

Uma desculpa para tudo.

De qualquer forma, oculta o rosto evitando o retrato… Porquê?

Não faço retratos.

Faço representações de ideias genéricas sobre mulheres.

A sexualidade, entre o voyeurismo e a perversão, e a violência representada por facas pontiagudas e revólveres, fazem parte dos não retratos… Estão para o Julião Sarmento sempre relacionadas?

Não.

Dá-nos algumas pistas de leitura para as Pinturas Brancas, apresentadas em 1996, em Nova Iorque?

Não.

As pistas estão todas nas obras e não são reduzíveis a floreados do discurso.

A sua própria cultura, mundanidade e afectividade entram na obra de arte?

Sempre.

Eu sou o resultado de tudo isso, logo, tudo o que sai de mim, é necessariamente resultado de tudo isso também.

Podemos chamar-lhe uma obra de interrogações?

É uma obra SÓ de interrogações.

 

 

 

 

 

 

 

 

data de edição da revista: janeiro-fevereiro 2009

Autor(es) , (Ed / Org)
Editora Revista BomBart / Projecto Núcleo de Desenvolvimento Cultural
Local Vila Nova de Cerveira
Ano 2009
ISBN / ISSN 1647-1644
Idioma Português
Número 1
Tipo Outro