(IN)VISIBILIDADES: na construção de subjectividades através da cultura visual

O mapeamento do pensamento que desenhei para a possibilidade da realização desta reflexão torna-se numa Polaroid deste relatório, uma imagem instantânea onde podemos detectar uma composição manchada por três grandes zonas. Contudo, todas elas são prolongamentos, intersecções de outras partes. A escrita, embora tenha de seguir uma linearidade, não ocorreu tal como se apresenta agora organizada. Seguiu uma outra lógica: a da construção de um pensamento em busca de se conhecer a si mesmo. Numa fase mais final, teve de se dar a conhecer a um Outro, um leitor, e adquiriu uma outra forma, a actual.

A primeira grande zona pretende situar-me no presente e questionar o presente. É invocado o pensamento de Agamben (2009) sobre o contemporâneo no sentido de questionar o ‘óbvio’ do ver para além do visível. No entanto, este mergulho no contemporâneo só é possível através da exterioridade que nunca é total. É preciso mergulhar no escuro e vir à tona respirar. O estágio aproxima-se, assim, de uma prática arqueológica, observar, questionar e reflectir através da escrita do relatório sobre a problematização da subjectividade dos alunos dentro e fora da escola. Este mergulho no pensamento contemporâneo, por um lado, permite este engajamento com o ‘fora’, desviando-me do visível, ao que se nos subjectiva, ao que nos “governa”, mas que, por outro, potencia vontades de resistência ao simples olhar dos acontecimentos. A importância da contemporaneidade é sustentada como sendo fulcral para pensar na educação mergulhando no escuro. Do mergulho no contemporâneo surgiram os questionamentos acerca dos modos de subjectivação na arena educativa. Assim, o que proponho neste ponto é precisamente analisar a percepção e construção política e cultural das noções de visibilidade e invisibilidade nos discursos do poder dominante, que estruturam as representações culturais, sociais e simbólicas da organização pedagógica que se definem como escola. Nesta necessidade de ver para além do visível, questiono as (in)visibilidades contemporâneas, questionando também os modos de subjectivação do sujeito no contexto educativo, o que nos ‘dobra’ dentro da escola e de que forma. Procurando ver no escuro e para além dele, questiono como podemos sugerir novas formas de subjectivação? Através das mudanças culturais, sociais e políticas de há dois séculos para cá, percepcionei que a ideia do “eu”, enquanto sujeito universal, estável, unificado, totalizado, individualizado e interiorizado entrou numa crise que poderá ser irreversível. Em vez do “eu”, desenvolveram-se novas imagens de subjectividade.

A segunda parte desenrola-se em torno do conceito de ‘dobra’ que me permitiu pensar paralelamente na possibilidade de desdobramento das nossas almas, como novas imagens de subjectividades através da amplitude do campo da Cultura Visual, uma vez que esta empreende relações dialógicas e sensíveis que se podem estabelecer entre sujeitos. A problemática constitui-se na própria busca do sujeito pela sua identidade, ou, deveremos desde já dizer, identidades em devir?

Na terceira parte, num primeiro momento, exploro a relevância do Ensino Artístico na escola e a importância da cultura visual na educação artística, relacionando, posteriormente, a cultura visual com o arquivo de imagens que fui realizando durante o estágio. Aqui exploro a importância da metodologia visual photo-elicitation como desdobra dos “eus” dos alunos quando confrontados com as imagens recolhidas. E posteriormente o texto continua com a ‘Dobra de si’, que nos remete para as dobras produzidas pelos alunos a partir da proposta de trabalho que com eles desenvolvi em estágio, mas terminará com as (in)visibilidades da dobra de si, onde questiono, reflicto sobre as minhas acções no estágio e com o feedback dos alunos em relação ao trabalho desenvolvido tomo as devidas precauções sobre a questão das subjectividades. Por fim, o relatório encerra-se com uma conclusão do percurso realizado, que se subverte dirigindo-se para fora, de um sujeito que se conforta com o desconforto e na fecundidade da hibridez de uma história que embora esgotada se acaba por render e querer sempre contar mais.

Autor(es)
Ano 2012
Tipo Tese
Instituição Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto / Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Grau Mestrado
Orientador(es) Catarina Martins
Idioma Portuguese
Área Ciências da Educação/Estudos Artísticos