INVESTIGAÇÕES SOBRE A ARTE CONTEMPORÂNEA A PARTIR DA POÉTICA DE ISIDORIO CAVALCANTI

O que tinha chegado ao fim era a narrativa e não o tema da narrativa

Arthur Danto

Quando Giulio Carlo Argan afirmou que “uma obra é uma obra de arte apenas na medida em que a consciência de quem a recebe a julga como tal” (1994) ele, marcou a idéia de que o campo da arte é vasto: não contempla só determinados saberes, é livre para as investigações. Muitos são os fatores utilizados para classificar uma produção como obra de arte através da história das civilizações: o contexto histórico, o mercado de arte, a crítica. Cada sociedade, em determinados contextos, constrói uma experiência artística, um olhar, que faz parte de seu capital cultural que público, artista ou mercado compartilham. Entretanto, mesmo com todos esses parâmetros de avaliação e validação artística alguns produtores só foram compreendidos ou “descobertos” séculos depois. Eles estavam além dos enquadramentos e definições. A liberdade talvez seja, portanto, o principal canal de legitimação para a arte e, em nome dele, tantos artistas abandonaram os padrões de sua época e buscaram um caminho pessoal.

Marcel Duchamp,em 1913, no início do questionador século XX rompeu definitivamente com a noção tradicional da arte ao negar seus conceitos fundamentais de obra, autor e gênero em proveito de uma concepção de arte baseada na experiência, no contexto e na vida. Com essa provocação Duchamp estabeleceu novos limites para a produção artística. A arte contemporânea, fortemente inspirada em suas idéias e realizações, nos diferentes contextos (locais, nacionais ou internacionais) expressa uma prularidade de poéticas que externam as várias sensibilidades do criador. Ela abandona a representação subserviente da natureza, deixa o espaço sacralizado dos museus e a cotação das galerias. Transforma-se, rapidamente, tal como o mundo em que vivemos. Nesse processo, o objeto de arte não mais representa algo. Ele é algo.

Ela (a arte contemporânea) passa a falar das diferentes trajetórias de vida, identidade, memória ou ideologia daquele que a produz. O público, por sua vez, desempenha um papel cada vez mais importante. Torna-se parceiro do artista. Ele é o “outro”, sem o qual a arte não teria sentido. É para esse “sócio” do olhar que as proposições são colocadas a partir da idéia de que a produção artística contemporânea exterioriza valores comuns ao indivíduo e ao seu grupo.

Entretanto, bem distante de ser um conceito compartilhado com todos de forma harmônica, parte das linguagens artísticas desenvolvidas na contemporaneidade causa perplexidade, estranhamento e, mesmo, descontentamento. O desconhecimento de seus princípios básicos é o principal motor dessa distância dos não iniciados, uma vez que o ver tradicional é substituído pelo refletir. Como vivemos em uma sociedade que pouco olha e menos ainda repara, refletir faz parte da aristocracia do olhar. De poucos. De cúmplices. De resto, como em todas as épocas. A diferença é que a velocidade das mutações torna difícil o decodificar das imagens e idéias propostas e, conseqüentemente, torna a produção artística mais impenetrável. Para Dempsey (2003), entretanto, algumas premissas norteiam a produção artística da atualidade.

Três grandes correntes estilísticas foram realçadas na linha do tempo, com o objetivo de agrupar movimentos que compartilham o fato de possuírem características distintas: “Arte para o Povo” abarca estilos e movimentos nos quais os artistas, arquitetos e designers se engajam na criação de um ambiente em que se pudesse viver com plenitude no mundo moderno. ”Arte e estilo” reúne grupos de artistas em busca de novos modos de descrever o mundo cambiante que os rodeia. “Arte e mente” inclui artistas experimentais cuja arte visa representar os mundos internos da emoção, das disposições e do intelecto.

Em que grupo, em qual corrente, poderíamos situar a poética do artista pernambucano, autodidata, nascido em Gameleira, interior de Pernambuco, Isidório Cavalcanti ou mais simplesmente Isidorio?

A partir do final da década de 80 cresceu o interesse nos múltiplos tipos de atividades culturais e artísticas a partir de distintos contextos geo-econômicos. O estopim foi a exposição Les Magiciens de la Terre, acontecida  na França.A realização dessa mostra abriu, por assim dizer, as portas para uma arte  não necessariamente branca  e definida pelos cânones hegemônicos. Um olhar sobre uma produção artística contemporânea de características plurais formou-se. Seguiram-se publicações e eventos que abordavam e questionavam conceitos de identidade e de arte. Quem seria o outro? O que ele produziria e a partir de que condições?

É a partir dos anos 90, do século XX, em Pernambuco, mais particularmente em Recife (eixo não hegemônico no território artístico brasileiro) que incide o processo de atualização com as investigações artísticas catalogadas como Arte Contemporânea em um contexto mais amplo, global. É também na década de 90 que espaços alternativos acontecem de forma mais incisiva no estado e na região como um todo. É nesse contexto que uma nova geração de artistas emerge. Esses novos produtores interferem, refletem, transitam sobre a vida e o espaço da cidade e de seus habitantes fugindo das paredes sacralizadoras dos museus e galerias. Novos meios e recursos são utilizados por eles em suas abordagens. Inclusive os convencionais. A tradição alia-se então à experimentação como processo, gerando discursos que, mesmo através dessas novas maneiras não miméticas de produzir arte, continuam a contribuir para  uma identidade regional.

Nesse contexto, Isidorio desenvolve as mais variadas técnicas e utiliza os mais diferenciados suportes, que vão desde o desenho à performance (fig. 1.) (fig. 2). Trabalhando sempre com materiais inusitados, quase sempre descartados, fazer arte, para ele, é além de um exercício constante, uma diversão. O artista não quer ou espera que seu trabalho convença as pessoas, apenas que ele desperte novas percepções, novas sensações. Também não tem outras atividades paralelas ao fazer artístico: “sou um artista que trabalha exclusivamente com as artes plásticas, não tenho outra atividade paralela”, diz Isidorio (2000) em depoimento para o Correio da Paraíba sobre a exposição Senão realizada no Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) daquele estado.

Isidorio visa representar “os mundos internos das emoções das disposições e do intelecto” como também busca “novos modos de descrever o mundo cambiante que o rodeia” enquanto artista. Por outro lado, o artista também se engaja na criação de espaços, ambientes em que o “outro” seu parceiro (e ele mesmo) possa desfrutar com plenitude o mundo moderno, contemporâneo. A partir dessas conclusões podemos dizer que Isidorio Cavalcanti se insere nas vertentes (apontadas por Dempsey, 2003) que definem a arte produzida na contemporaneidade. Levando-se em conta naturalmente os interesses e saberes regionais e locais.

ISIDORIO: UM PROVOCADOR DOS SENTIDOS

Convido as pessoas a conhecerem minha intimidade

Isidorio Cavalcanti 1

Apesar de autodidata, no sentido de um conhecimento acadêmico sistematizado, Elias Isidório Cavalcanti buscou sempre informações teóricas, principalmente sobre a produção artística contemporânea. Desde o início de sua trajetória, que data do começo dos anos 90, observa-se a participação do artista em cursos diversificados.

Sua experiência com artes visuais teve início nessa década (90), quando, desempregado, decidiu fazer um curso de Desenho de Modelo Vivo com Abelardo da Hora, na Associação dos Artistas Plásticos situada, então, na Rua da Aurora, Recife. Lá, entrou em contato com outros artistas visuais e conheceu a técnica de resina. Nela, Izidório encontrou uma liberdade que não lhe era dada na pintura convencional. Muitos outros cursos, entretanto fez o artista.

Em 1997, por exemplo, ele participou do Curso de Historia da Arte LusoBrasileira na Fundação Joaquim Nabuco e, no mesmo ano, freqüentou o de Suportes e Materiais Contemporâneos promovido pela prefeitura de Recife. A ação de freqüentar cursos teóricos continuou e, em 2002, ele participou do Seminário de Ações Contemporâneas promovido pela Fundação de Cultura Cidade do Recife e ministrado pela professora da Universidade Federal de Pernambuco Maria do Carmo Nino. Em 2003, outro curso: Quem Tem Medo da Arte Contemporânea que aconteceu na Fundação Joaquim Nabuco e que teve como professor Fernando Cocchiarale. E por aí aconteceu a trajetória teórica do artista: coerente, em fevereiro de 2005, o aluno Isidório Cavalcanti, por exemplo, participou do workshop Estudos Dirigidos Em Crítica Contemporânea  orientados pela crítica de arte Lisette Lagnado comprovando-se, portanto, o interesse do artista pela atualização teórica durante suas ações.

Essas ações vão se diversificando ao longo de seu percurso. Em dezembro de 1994, Elias Isidório Cavalcanti participou de um concurso denominado Pinte os Aspectos Históricos e Artísticos de sua Cidade, promovido pelo Governo do Estado de Pernambuco, cujo tema demonstra que o artista, na época, navegava por linguagem e temática artísticas convencionais.

Pouco tempo depois, entretanto, mesmo ainda se expressando através da pintura Isidorio já desenvolvia interesse em relação à ecologia: uma temática notoriamente contemporânea. Em 1996, trabalhando com resina pigmentada ele denunciava a devastação ecológica promovida pelo homem. No período ele expôs em vários espaços, inclusive no 11 Salão de Artes Plásticas de Aracaju para o qual foi selecionado.

Sua linguagem e materiais vão se diversificando. No fim da década (1998) ele reutiliza o papel dos outdoors para representar os perigos da sedução da publicidade. Sobre ele, o artista aplica técnicas de pintura variadas. Os trabalhos fizeram parte de uma mostra intitulada Senão que aconteceu na Galeria Wellington Virgulino no Museu do Estado. Também foram  expostos em outros espaços tanto em Pernambuco como em outros estados.

Em 2001 encontramos Isidorio em sua terceira individual no museu de Arte Contemporânea de Olinda. Uma mostra intitulada Fluidez da Comunicação. (fig.3) Nela, imensas instalações feitas com vidro, pontas de cigarro e tecido tratam do prazer descartável na sociedade pós-moderna: caso do fumo e das bebidas alcoólicas. Através de suas construções o artista questiona a angústia do homem em relação a pouca comunicação em seu cotidiano.

Outro aspecto abordado nesse trabalho pelo artista são alguns costumes dos nordestinos: não só no que diz respeito ao beber e fumar, (que se constituem também em uma forma de comunicação) mas, o de guardar condimentos em garrafas, por exemplo. Para tanto ele utiliza garrafas na instalação juntamente com embalagens de cigarro e seus restos. “Eu quero também que as pessoas vejam o cotidiano delas através dos rótulos e marcas de cigarro e de bebidas”, diz Isidorio 2 .Para executar esse trabalho, Isidório garimpou todas as piolas de cigarro, garrafas, bloco de gesso e palitos de fósforo jogados fora.

Da mostra inicial varias investigações foram geradas tendo como ponto de partida esses restos de cinzeiros e outros produtos descartados. A provocação maior gerada pela instalação é o questionamento sobre muros, limites, propriedade, hábitos, enfim, os elementos que abrem (ou cerram) os canais de comunicação.

O artista levou seu trabalho, desdobrando-o em instalações, interrogações e metáforas, para  vários espaços artísticos  como o SESC de Casa Amarela, em Recife, ou o Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) em João Pessoa.

Em 2004, Isidorio apresenta outro trabalho: Suíte n.1 para lavar roupas, realizada no Instituto de Arte Contemporânea (IAC), em Recife. Nela, o artista convida o visitante a penetrar seu mundo intimo e sensorial, seu cotidiano doméstico. “Convido pessoas a conhecerem minha intimidade “3 diz ele.

O convite é para uma instalação onde o debate se volta para uma atividade comum ao cotidiano de quase todos nós: a ação de lavar roupas. Numa sala 980 sabões, usados, em tons amarelos (e um único em tom azul), se distribuem de forma geométrica em uma parede branca da instituição (fig. 4). Em outra sala, um tanque é destacado por uma luz enquanto sons de máquina de lavar fundidos ao som de piano, violino, água escorrendo e roupa sendo esfregada. Essa música feita de retalhos do cotidiano remete aos futuristas no inicio do século XX.  Isidorio, através dessa ação, tenta resignificar o sentido da ação de lavar roupa.

Para concretizar a construção, o artista passou anos colecionando restos de sabão resultantes da lavagem das próprias roupas. Com o tempo, eles saíram da forma padronizada e adquiriram forma própria provocada pelo tempo e pelo uso. Essas barras de sabão, posicionadas simetricamente, trazem para o trabalho do artista uma interdisciplinaridade sensorial. O olhar, o olfato e a audição são requestados provocando, dessa forma, uma maior participação do espectador. Um apelo organizado dos sentidos é a proposta de Isidorio que busca encontrar beleza em coisa e ações funcionais.

A linguagem da perfomance pode dar vida a múltiplos personagens e questionamentos através da imersão do ator e do espectador em uma dimensão multisensorial e interativa. O espectador descobre-se como parte da ação e é afetado pelas historias de mundos, contadas através dessa relação entre obra e fruidor. Descontroi-se, assim, a condição de observador, própria do teatro; estabelecendo-se uma condição de parceria e cumplicidade. É nessa forma de expressão que embarca Isidorio no inicio do novo século.

Em 2006 ele apresenta ao público pernambucano e paulista a performance Sagrado Coração de Isidorio (fig. 1). Em Recife na sede do coletivo Branco do Olho, em São Paulo na Mostra Internacional de Performances, promovida pela Galeria Vermelho com curadoria de Daniela Labra.

Na ação, ele coloca um coração de boi no peito, corta-o com uma faca e deixa o sangue escorrer sobre a camisa branca que usa para a ocasião. Em seguida, o artista convoca o público presente a costurar a ferida, costurar seu coração. A reação do público varia da atração a repulsa. A proposta do artista cumpre-se: provocar os sentidos.

Em se tratando de sentidos Isidorio transcende os seus. Parcialmente deficiente auditivo, sem formação musical Isidorio participou do projeto Rumos Visuais do Instituto Itaú Cultural com uma partitura musical escrita por ele. Partindo do pressuposto de que música exprime sentimentos independentes da técnica o artista elaborou um trabalho que em sua própria definição: “são sons muito soltos que não se enquadram em nenhuma escola ou gênero musical e não obedecem a regras acadêmicas” 4. Dessa forma, o produto, segundo Isidório não é um show, mas uma performance, intitulada  As mais pedidas, através da qual ele acredita poder mostrar para o espectador que mesmo um texto escrito por um analfabeto pode fazer sentido. A música também.

Sua opção por provocar os sentidos, de forma sutil, confirma-se em Cambraieta. Nela também se explicita o fato de que o artista, através de uma linguagem atualizada com os eixos artísticos hegemônicos, faz a ponte com suas raízes nordestinas e arma o seu discurso. Para a instalação ele traz a linguagem antiga do bordado, tão familiar às sinhas prendadas do nordeste. O material, utilizado por ele porem não é o tecido, mas o vidro. Isidorio quebra objetos de vidro e depois reconstrói os cacos utilizando linha.

A ação de quebrar o vidro, o barulho, é importante no processo do artista. Mesmo sem escutá-lo totalmente (ele ouve apenas o estalo da quebra) ele define a opção pela sutileza na ação de provocar mais uma vez os sentidos. Quebra-os para dizer que “depois vem o silêncio”. 5

NOTAS:

  1. Isidorio Cavalcanti in Jornal do Commercio. Recife, 24 de agosto de 2004.
  2. Isidorio Cavalcanti in Linguagem do Cotidiano no MAC. Diário de Pernambuco. Recife, 7 de novembro de 2001.
  3. Isidorio Cavalcanti in Jornal do Commercio de 24 de agosto de 2004..
  4. Isidorio Cavalcanti. In Os sons da Arte Contemporânea in Diário de Pernambuco. Recife, 21 de março de 2006.
  5. Isidorio Cavalcanti in Opção pela Sutileza. Correio Brasiliense. Brasília, novembro de 2006.

BIBLIOGRAFIA

CAVANI, Julio. Os sons da arte contemporânea. Diário de Pernambuco. Recife:21 de março de 2006.

Correio Brasiliense. Brasília, novembro de 2006.

Correio da Paraíba. João Pessoa, 16 de março de 2000.

DANTO, Arthur C. Após o fim da tarde: a arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: EDUSP, 2006.

DEMPSEY, Amy.. Estilos, Escolas e Movimentos: Guia enciclopédico da arte moderna.

Diário de Pernambuco. Recife, 21 de março de 2006.

Diário de Pernambuco. Recife, 7 de novembro de 2001.

Jornal do Commercio. Recife, 24 de agosto de 2004.

Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro
Publicação O artista contemporâneo:Pernambuco e o ensino da arte
Páginas 55-65
Editora Editora da Universidade Federal de Pernambuco
Local Recife. Brasil
Ed/Org Sebastião pedrosa.
ISBN / ISSN 9788573159165
Idioma Portuguese
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