Impressões sobre a arte e o património nas cidades europeias mais visitadas por viajantes portugueses (Londres, Madrid, Nápoles e Paris): Notas para o estudo de uma sensibilidade estética (1860-1910)

O trabalho intitulado Impressões sobre a arte e o património nas cidades europeias mais visitadas por viajantes portugueses (Londres, Madrid, Nápoles e Paris): Notas para o estudo de uma sensibilidade estética (1860-1910), apresenta uma reflexão sobre a importância da arte, do património e da cultura artística na descrição de viagens de portugueses – no período que medeia os anos 60 do século XIX e a primeira década do século XX, onde assistimos ao florescimento de mais de trinta tendências artísticas precursoras da arte moderna.

Valemo-nos dos testemunhos de catorze autores portugueses (três senhoras e onze senhores), os quais expressam em dezassete títulos publicados, no formato de cartas, diários e / ou impressões de viagens, tudo o que observam digno de referência sobre arte e património.

As dezassete obras estudadas, publicadas em Portugal entre 1860 e 1910, são escritas por artistas, diplomatas, escritores, jornalistas, políticos, essencialmente viajantes, que descrevem o que vêem. Algumas delas apresentam datas sensivelmente anteriores ou posteriores, sendo porém as viagens realizadas dentro das datas estudadas. Os textos, publicados em livros de memórias, diários e guias, ou mais raramente recolhidos de correspondência inédita proveniente de espólios particulares, ressalvam sensibilidades e visões ímpares registadas como apontamentos de um percurso que cada autor traça em viagens de trabalho ou de lazer, onde o olhar ao outro (e particularmente à arte, como novidade) não passa despercebido. A relevar, nestas obras, há ainda o cunho pessoal de cada autor, denotando a personalidade, formação, conduta, experiências vividas, opções estéticas.

Neste âmbito,distinguimos Eça de Queiroz (1845-1900), Guiomar Torrezão (1844-1898), Manuel Teixeira-Gomes (1860-1941), Ramalho Ortigão (1836-1915) e Teixeira de Vasconcellos (1816-1878) que, por residirem temporariamente fora de Portugal, como jornalistas e / ou diplomatas, nos proporcionam descrições diferentes, mais familiarizadas com o objeto observado (ou menos turísticas e voyeuristas).

Deixamo-nos ainda envolver pelas aventuras de viajantes como Maria Celina de Sauvayre da Camara (1857-1929) e Conde de Arnoso (1855-1911), que descrevem a arte e o património descobertos em expedições pelo Oriente, mas sempre comparando o que aí vêem com memórias de jornadas anteriores realizadas pela Europa.

Tal como Maria Celina de Sauvayre da Camara, Daniel Martins de Moura Guimarães (1827-1893) apresenta uma única obra publicada em vida, sendo desconhecida obra póstuma. Trata-se de um guia de turismo artístico muito completo, para o qual o autor se prepara previamente, lendo dezenas de guias que referencia nesta sua obra rara.

Distinguimos outras senhoras como Guiomar Torrezão e Maria Amalia Vaz de Carvalho (1847-1921), todas enaltecidas não apenas pelo facto de ser invulgar encontrar portuguesas viajantes, mas também por redigirem e publicarem impressões de viagens – o que é difícil de encontrar no feminino. Isto apesar da viagem e da publicação de literatura de viagens ser uma moda também alargada a senhoras, em especial da Europa e EUA. O Conde de Arnoso confirma a raridade e o exótico da questão, quando se queixa da escassez de senhoras no vapor onde viaja (e da falta que fazem nas longas jornadas, como aquela que realiza até à China e Japão).

Estudamos obras de alguns já citados e de outros viajantes mais ligados ao jornalismo como Alberto d’ Oliveira (1873-1940), António Augusto Teixeira de Vasconcellos, Diogo de Macedo (1844-1938), Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Apresentamos, ainda, exposições de viagens do Barão de Roussado ou Manuel Roussado (1831-1911), Júlio César Machado (1835-1890) e Manuel Teixeira-Gomes, todos com obras completas publicadas e estudadas, mas sem análises dentro do tema que trabalhamos. O mesmo acontece com Eça de Queiroz, Maria Amalia Vaz de Carvalho e Ramalho Ortigão.

Por fim, encontramos um fio condutor comum nas obras do Conde de Arnoso, Maria Celina de Sauvayre da Camara, Ramalho Ortigão, Teixeira de Vasconcellos e Visconde de Benalcanfôr (1830-1889) que descrevem, na primeira pessoa, viagens à Europa e pelo mundo. Este é um tipo de narrativa próximo de Alexandre Dumas (1802-1870) – como símbolo da literatura contemporânea estrangeira, já não aristocrática.

As capitais europeias de Londres, Madrid e Paris são as mais visitadas por portugueses e, ainda, a cidade de Nápoles pelo interesse histórico e industrial que esta apresenta à época como capital do Reino de Nápoles de 1282 a 1816. Após essa data, uniu-se à Sicília, tornando-se a capital das Duas Sicílias, até à unificação da Itália em 1861.

Quanto às capitais mais visitadas, parecem-nos óbvias as primeiras escolhas: Madrid por questões de proximidade e no caminho para França; Londres e Paris como centros de moda e de novidades por excelência, com a consequente afluência de escolas e tendências que aí se desenvolvem e coabitam.

A nossa última preferência, Nápoles, deve-se igualmente à importância histórica que têm então os achados arqueológicos nas cidades de Pompeia, Herculano e Estábia – cobertas pelas cinzas em decorrência da erupção do vulcão Vesúvio – e ao interesse industrial que a cidade tem à época, sem esquecer o legado dos autores estudados que publicam pareceres consideráveis sobre a arte e o património napolitanos.

São eles: Daniel Martins de Moura Guimarães, fundador do Grande Hotel do Porto, o único que escreve a respeito das quatro cidades estudadas mais visitadas, com a preocupação de publicar um guia com tudo o que existe de melhor sobre as artes; Visconde de Benalcanfôr que visita e observa, minuciosamente, não apenas o Museu de Nápoles e Vesúvio, como a própria cidade e arredores (o visconde escreve, também, sobre Paris e Londres na obra assinada com o nome próprio Ricardo Guimarães); um caso à parte é Maria Celina de Sauvayre da Camara que descreve Nápoles, muito pouco, se tivermos em conta os cinco meses que aí passa antes de partir para Jerusalém onde escreve o diário publicado, evocando viagens anteriores pela Europa.

A seleção geográfica e artística (ao nível dos espólios referenciados) tem assim, como base, a predominância nas nossas fontes e é condicionada pela impossibilidade de conter, nesta pequena contribuição, todas as observações e obras encontradas e inicialmente estudadas (mais de vinte).

Autor(es)
Ano 2016
Tipo Tese
Instituição Faculdade de Geografia e História da Universidade de Santiago de Compostela
Grau Doutoramento
Orientador(es) Prof. Doutor D. Juan Manuel Monterroso Montero
Idioma Português
Área Estudos da História da Arte e da Música
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