Há que voltar sempre: a refotografia e os regressos

Uma pequena teoria dos regressos 

Conta-se que um dia um viajante regressou a um lugar inóspito, a um daqueles fins do mundo difíceis de chegar a que erradamente se diz que só se deve ir uma vez. Ao entrar na única taberna da aldeia, reconheceu o dono, mas manteve-se em silêncio. Este olhou-o devagar e antes ainda de lhe dar as boas tardes, disse-lhe: há que voltar sempre, não?

Quatro são as histórias e o regresso é uma delas, escreve Jorge Luís Borges. Durante o tempo que nos restar continuaremos a contá-las, transformadas. [1] A refotografia faz parte desta história, desta pequena teoria dos regressos. É a prática deste voltar sempre, deste ir e voltar a tirar.

O princípio básico da refotografia define-se de forma simples: é a produção (repetição) de fotografias tiradas anteriormente. Esta definição funcional tem pela frente um campo simbólico bem mais amplo: como qualquer prefixação, a refotografia implica um voltar a e este regresso—este acto de vontade—é motivado primeiramente por uma imagem fotográfica anterior. Ou seja, regressamos pelas imagens, sejam elas de natureza geográfica, geológica, histórica, memorial ou artística. Este regresso é mais ou menos exacto e estabelece uma relação de reconhecimento com uma imagem primeira, anterior, originária, só possível pela existência de um intervalo de tempo entre ambas. A refotografia implica também um exercício de confrontação e de reconhecimento, de constatação. Regresso e constatação: das imagens nascem imagens.

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Autor(es)
Ano 2012
Tipo Capítulo de Livro, Texto em catálogo
Publicação Rever a Cidade
Editora Ed. Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura.
Idioma Português, English
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