Filipe Alarcão: Mais reconhecimento

Designer de produto, agraciado com o Prémio Nacional de Design, vive e trabalha entre Lisboa e Milão — cidade industrial italiana onde tira o mestrado e doutoramento. Lecciona na Escola de Arte e Design das Caldas da Rainha. Colabora com empresas nacionais e estrangeiras como Vista Alegre / Atlantis, Asplund, TemaHome, Schréder, Senda, Cerâmicas S. Bernardo, Larus, Moda Lisboa. Continua a ser, desde os anos 80, um dos ‘meninos bonitos’ do design português. Como o próprio considera: ‘A profissão de designer deve-se reinventar continuamente’. Eis o segredo.

Filipe Alarcão desenvolve projectos de Design Industrial nos campos do mobiliário, equipamento urbano e produtos, iluminação, cerâmica e vidro, e ainda lecciona. Como concilia todas estas actividades?

Todas essas actividades no fundo reduzem-se a duas: A experiência de projecto e a experiência pedagógica. No meu caso considero que são complementares e de certo modo indissociáveis, na medida em que como professor tento incutir nos meus alunos os princípios e os métodos de trabalho que utilizo no meu dia-a-dia como designer de produtos.

É muito gratificante para mim poder confrontar esses processos de trabalho com gente mais nova do que eu. Colocá-los à prova e rectificá-los por vezes de acordo com a experiência que retiro do Ensino. Por outro lado, o ensino obriga-nos a ter uma atitude mais reflexiva sobre a própria actividade que considero essencial.

Qual destes campos prefere?

Os diversos âmbitos de projecto em que actuo dão-me satisfações diferentes.

Gosto de projectar produtos porque, normalmente, me permitem uma liberdade de expressão maior, mais experimentação a nível conceptual e formal e uma maior proximidade com os meios de produção. São também projectos de duração mais reduzida no tempo, o que possibilita ‘ver’ o resultado final com maior brevidade.

No caso dos espaços, todo o processo é mais complexo e interdependente de outras áreas de projecto e tem uma parte burocrática mais pesada. No entanto, entrar num espaço acabado, projectado por nós, dá uma enorme satisfação; e permite avaliar in loco como é que este é apropriado para quem o usa.

Os materiais de eleição e a peça que mais gozo lhe deu criar…

Os meus materiais de eleição são aqueles com os quais ainda não trabalhei. Tenho sempre muita curiosidade pelos processos tecnológicos e pelos materiais. Gosto de tentar expandir as possibilidades dos materiais para além daquilo que me contam os técnicos e, para tal, preciso de perceber bem como as coisas são produzidas.

Gosto também de experimentar materiais e tecnologias em âmbitos diversos daqueles para os quais foram inicialmente pensados, transferir ‘saberes’ de uns campos para os outros.

Por estas razões, os projectos que mais gozo me dão são aqueles que me permitem, quer por uma questão de tempo, quer por uma questão de meios, experimentar e descobrir ao longo do processo. Esta forma de trabalhar exige que se crie com os produtores uma relação prolongada no tempo.

Licencia-se em Design de Equipamento pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e realiza o mestrado em Design Industrial pela Domus Academy em Milão e doutoramento em Design pelo Politécnico de Milão. Ainda está ligado a esta cidade italiana e a Itália) De que forma.

Milão é para mim uma referência em termos de Design. Vivi lá, estudei e trabalhei.

Neste momento, divido a minha vida entre Lisboa e Milão. Considero que esta cidade, e o que lá se fazia em termos de design, foi muito importante na fase da minha formação. Era nessa época o centro do design.

Hoje, felizmente, existem diversos centros, mas em Milão concentra-se ainda uma enorme massa crítica do Design, quer a nível de discussão como a nível tecnológico. Não é por acaso que todos esses centros convergem ciclicamente para esta cidade para divulgar a sua produção criativa.

É considerado um dos ‘meninos bonitos’ do design nacional, reconhecido internacionalmente. Como acontece a internacionalização?

Acho que existiram dois factores que a um dado momento convergiram para que essa internacionalização acontecesse. Em primeiro lugar, assistiu-se a uma dinâmica de produção de design a partir do final dos anos 80, envolvendo novos designers de produto, comunicação, moda, etc. que, a par com um fenómeno idêntico nas artes plásticas e na arquitectura, criou um período de alta criatividade em Portugal. Perante isto, houve da parte do estado e de alguns promotores privados um esforço de divulgação no estrangeiro do que estava a acontecer no País.

No caso específico do Design, foi importante o papel que o ICEP teve em dado momento como veículo de divulgação internacional. Infelizmente, o impacto a nível da divulgação não teve a correspondente eficácia a nível da produção do design português à escala industrial, como aconteceu por exemplo em Espanha. Por causa disso, muitas sinergias foram-se perdendo e, neste momento, o papel do Estado na divulgação do design português no estrangeiro é irrelevante.

O papel da Experimentadesign tem sido fundamental para o relançamento do Design em Portugal, mas funciona, sobretudo, a nível da divulgação e da reflexão da disciplina e dos seus pontos de contacto com os diversos âmbitos disciplinares com os quais dialoga. Não pode ser responsável, nem é esse o seu programa, pelo incremento da produção de design à escala industrial.

O trabalho com Michele de Lucchi, em Milão, como consultor para a Olivetti Computadores, onde desenvolve projectos para computadores pessoais, é um primeiro passo para o reconhecimento internacional?

O trabalho desenvolvido com a Michele De Lucchi para a Olivetti não contribuiu directamente para o meu reconhecimento internacional, na medida em que foi um trabalho integrado numa equipa multidisciplinar onde a autoria não era o enfoque principal no projecto.

Foi todavia muito importante para o meu amadurecimento profissional, pelo facto de poder projectar para uma empresa de dimensão multinacional e também por ver um designer com o prestígio de Michele de Lucchi confiar e delegar em mim uma função da responsabilidade daquela que assumi.

Devo dizer que, no início, me senti intimidado no confronto com o pessoal da Olivetti, pois à partida desconfiavam de tudo o que viesse do nosso lado, mas rapidamente percebi que era possível criar com eles uma relação de trabalho por vezes dura mas muito produtiva.

A sua grande referência no mundo do design…

Tenho diversas afinidades com outros designers, muitos mais velhos do que eu, outros da minha geração, outros colegas portugueses.

Se tivesse de eleger uma grande referência essa seria com certeza Achille Castiglioni. Não sou incondicional de toda a sua extensa obra — muitas das minhas peças de eleição não são sequer suas — mas sou absolutamente incondicional da sua forma de abordar o Design. Aconselho vivamente a quem puder visitar o seu ateliê / museu, em Milão, que o faça para ver como um designer deve olhar para o mundo que o rodeia.

Em 1994, ganha o Prémio Nacional de Design, promovido pelo Centro Português de Design. Em 2002, recebe o primeiro prémio no concurso Polis para sistemas globais de sinalização em espaços urbanos (em colaboração com o designer de comunicação Henrique Cayatte). Ainda, em 2002, é distinguido com o primeiro prémio no concurso de Arquitectura promovido pelo Museu de Arte Contemporânea de Elvas (em colaboração com o arquitecto Pedro Reis).

Quais os prémios mais importantes e porquê.

Os prémios são importantes na medida em que representam um reconhecimento público do nosso trabalho.

No caso específico do concurso Polis, o projecto representou para nós, autores, um dispêndio de energia criativa enorme, a anulação do concurso provocou-nos um sentimento de grande frustração. O prémio deveria representar o desenvolvimento e implementação de um sistema de sinalética à escala nacional, com incorporação de soluções de alta tecnologia, sustentável, porque auto-suficiente a nível energético. Não foi para a frente porque um sistema integrado e global não se coadunava com os interesses locais das autarquias abrangidas pelo programa Polis.

Hoje em dia, vemos nas nossas cidades sistemas de informação  e comunicação e equipamentos urbanos completamente díspares.

Tenho pena que isso tenha acontecido pois acredito que um sistema como este seria um projecto tão inovador como foi o sistema da Via Verde: desenvolvido em Portugal e, posteriormente, adoptado por diversos países estrangeiros.

É um pioneiro do design contemporâneo português, numa altura em que este começa a afirmar-se no nosso território, com as primeiras licenciaturas, concursos e outros eventos promocionais e divulgação na imprensa.

Sente-se um privilegiado por isso ou, pelo contrário, um lutador e impulsionador…

Acho que tive alguma sorte por ter aparecido numa altura de grande efervescência criativa, mas também tive sempre uma atitude pró-activa em relação ao Design.

Considero que a profissão de designer e, maia ainda num país como Portugal que não tem tradição de empreendedorismo empresarial nesta área, se deve reinventar continuamente.

Autor(es) , (Ed / Org)
Editora Revista BomBart / Projecto Núcleo de Desenvolvimento Cultural
Local Vila Nova de Cerveira
Ano 2016
ISBN / ISSN ISSN 1647-2039
Idioma Português
Número N.º 7 (janeiro-fevereiro 2010)
Tipo Outro