FALO arte, falo de político entre nós e o díspar

No momento do compromisso da arte com o lugar, comunidade e mundo, incorporo uma acção colectiva e comunitária, perspectivada a partir da experiência (Yi Fu Tuan, 1983) e vivência pessoal da prática artística num determinado espaço. A efectivação desse vínculo, no âmbito autoral e individual é assumida, através da performance, em intensa interferência do corpo sensível e antagónico na dimensão do político. É nesses termos que este trabalho se desenvolve no âmbito de contágio mútuo entre investigação e acção.

O pensamento que subjaz o projecto radica na ideia de uma democracia (como direcção ou possibilidade) que se consolida enquanto prática social quotidiana, ampliada intrinsecamente no seu próprio sentido da esfera pública. Partindo da posição experimental específica (Hélio Oiticica, 1964), da insistência em ferramentas artísticas e por meio de processos de reformulação da cultura política nos espaços individual e colectivo, o trabalho pretende provocar situações que perturbem os limites correntes ou a tradicional raia que separam os campos do artístico e do político. Deste modo, este trabalho comporta o meu duplo compromisso – da arte com o político, do político com a arte – questionando neste texto as formas pelas quais a arte pode ampliar as potencialidades de uma democracia radical e plural (Ernesto Laclau, Chantal Mouffe, 1985).

Pretendo assumir um pensamento crítico acerca do fenómeno da participação (Grant Kester, 2004) nas práticas artísticas. Na esfera da estética do colectivo (Eduarda Dionísio, 1993) transporto a análise e reflexão sobre o projecto Intervenção Artística em Vila União, promovido pelo ‘movimento intercultural Identidades’ com a comunidade de Conceição das Crioulas (Pernambuco, Brasil). A partir do relacionamento intercultural deste movimento com a referida comunidade, promovemos uma capacidade de actuação conjunta baseada na sua experiência da pedagogia da libertação (Freire, 1972). Esta caracteriza processos de confronto/ decisão/ acção durante o projecto artístico, incentivando determinantemente o desenvolvimento local de uma comunidade com intensa consciência do poder da democracia participativa.

A prática performativa que desenvolvo, apropria-se de processos constituintes do corpo social e político, tanto existentes como potenciais, tal como transparecendo em recentes reflexões no campo da investigação (Beatriz Preciado, 2008). Torno assim presentes, evocando-os, interferências e posicionamentos diversos no campo da representação colectiva, da construção de identidade(s) e da condição da História: se com ditaDURA apresento dissidências no discurso do Museu Militar do Porto, no caso de ASnato. asNATO desenvolvo uma incisão sensual, interferente e violenta contra a organização mundial explicitamente referida.
A partir dos projectos apresentados e reflexões inerentes, desenham-se assim possibilidades e (im)possibilidades, do sentido experiencial e controverso, do sensível (Jacques Rancière, 2000) se imiscuir no político. Delas brota a consciência específica e concreta – materializada em acontecimentos estéticos – de uma democracia mais efectiva e por isso radical e plural, transversal e resistente face à divisão do sensível hegemónico na contemporaneidade. Assim, proponho um sentido transversal para um conhecimento e acção comprometidos com o colectivo, nos âmbitos social, comunitário e político.

Autor(es)
Ano 2011
Tipo Tese
Instituição Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Grau Mestrado
Orientador(es) Gabriela Vaz-Pinheiro
Idioma Português
Área Práticas artísticas
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