Do símbolo artístico ao sintoma da arte.

A questão que nos propomos tratar é se as categorias do símbolo e do sintoma implicam determinações diferentes na consideração da arte.

Consideramos o símbolo, pela sua derivação grega (sýmbolon) e renascentista, como meio de interpretação associado ao artístico (como uma das partes da divisão, o símbolo mantém o receptor fora da obra) e o sintoma como referente do objecto da arte – a arte constituindo-se como a manifestação do sintoma privilegia o processo trazendo o receptor para dentro da obra.

Procuraremos esclarecer a diferença entre a percepção do símbolo artístico (através das imagens artísticas) e do objecto da arte que se manifesta visualmente através do sintoma e tentaremos concluir, a partir destas duas perspectivas, acerca das características do  território da arte, na triângulação autor – obra – espectador [1]

Poderemos então considerar o artístico como um domínio das imagens (do simbólico) e a arte como um domínio dos objectos (do sintoma)?

O símbolo como entidade “divina” que implica a forma pura, o símbolo interpretado à luz da sua origem linguística grega como uma das partes do objecto dividido, estimulando a interpretação, o símbolo como identidade autónoma cujo resultado é o simulacro [Volli in Melotti, p.73-87], ou o símbolo como momento operativo [Boidi in Melotti, p.102], será sempre uma entidade implicada na imagem artística, enquanto no objecto da arte permanece implicado o sintoma que manifesta a acção que origina a própria arte?

No limite, as imagens da arte tornam-se hiperbólicas «simbolizando» o sintoma.  Renunciando à possibilidade de serem simulacro ou fantasmagoria, elas simbolizam cada coisa e o seu contrário, introduzindo a “presença na representação” [Didi-Huberman, 1990, p.195]. Nesse limite as imagens não satisfazem ou representam simbolicamente, como objectos do desejo, mas pela sua necessidade libertadora abeiram-se da não representação na manifestação do sintoma da arte, e nesta medida o símbolo é  integrado pelo sintoma.

Consideremos a figura a partir da tríade IRS, real-imaginário-simbólico [Žižek, 2004, p.98].

A partir dos vértices  do triângulo, real, imaginário e simbólico poderemos estabelecer uma rede infinita como o lugar da constelação do movimento do indivíduo, formando-se assim sucessivos triângulos (infinitamente) que personificariam em si mesmos os diferentes territórios do real, do simbólico e do imaginário.  Cada um desses territórios seria propenso ao domínio de diferentes imagens sem que, no entanto, estes domínios sejam estanques (ao contrário, eles existem como se fossem limitados por uma membrana porosa). O núcleo deste triângulo corresponderá à não-representação, interdito à imagem.  Neste núcleo a existência das imagens revelar-se-ia autodestrutiva.

As imagens da arte manifestam-se como sintoma da própria arte, como vestígios das falhas do sistema arte; são (a)presentadas através de lacunas (no domínio estético), onde o simbólico se manifesta insuficiente.

Nesta comunicação pretendemos demonstrar que os objectos da arte se distanciam das imagens artísticas por via do sintoma como a possibilidade inclusiva de manifestação da arte. Os objectos da arte renunciando à interpretação simbólica externa incluem o observador como constituinte da própria obra, privilegiando a unidade processual.  Como limite, o símbolo passa a figurar na arte como sintoma, tornando-se o referente que resgata as lacunas do passado artístico[2].  Privilegiando o processo, o objecto da arte (do sintoma) revela-se como desígnio de unidade e neste sentido ela contraria as imagens artísticas que representam simbolicamente o que ainda é dissociável.  No entanto, os objectos da arte porque ainda sujeitos ao domínio da representação[3] só podem aspirar à unidade que se revela na disjunção do desejo, possibilitando que a imagem artística possa ser interpretada no objecto da arte.

No texto completo serão apresentados exemplos no âmbito da história da arte como ilustração destes argumentos.

Bibliografia:

Didi-Huberman, Georges, Devant l’image, Paris, Les Éditions de Minuit, 1990

Melotti, Massimo (ed.), Sul Simbolo. Confronti e riflessioni all’inizio del millennio, Roma, Luca Sossellla Editore, 2004

Nancy, Jean-Luc, Tre saggi sull’immagine, Napoli, Cronopio, 2002

Perniola, Mario, L’arte e la sua ombra, Torino, Einaudi, 2000

Wajcman, Gérard, L’objet du siècle, Paris, Verdier, 1998

Zizek, Slavoj, Amor sin piedad. Hacia una politica de la verdad, Madrid, Editorial Sintesis, 2004 (1ªed: Die gnadenlose Liebe, Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag, 2001)


[1] Os referentes da nossa análise são a arte moderna, e particularmente os exemplos das vanguardas artísticas  – aproximadamente entre 1850 e 1950 – até às obras do séc. XXI.  Servimo-nos da obra de Gérard Wajcman e particularmente o livro L’objet du siècle como referente para a adopção do conceito de objecto da arte definido pela triangulação autor – obra – espectador.

[2] Na consideração do sintoma como “vestígios do passado resgatado” servimo-nos da consideração de Žižek, no livro Benvenuti nel desreto del reale, 2002,  acerca do texto manuscrito de Santner, E., Miracles Happen: Benjamin, Rosenzweig and the limits of enlightenment, 2001

[3] Consideramos desde já a dificuldade na clareza do termo e conceito de representação. Só nos últimos anos, desde Bergson a Derrida, foram feitos muitos trabalhos.  Fixaremos o conceito na proximidade da interpretação de uma presença incompleta na mediação do inteligível através do sensível [Nancy in Tre saggi sull’immagine, 2002, p.63]

 

Co-autoria: Magalhães, Graça; Pombo, Fátima.

 

Artigo apresentado no 19th Congress of the International Association of Empirical Aesthetics, Avignon, France, 29 aug- 01 sept, 2006.

Autor(es)
Ano 2006
Tipo Publicação em Actas
Publicação Culture and Communication: Proceedings of the XIX Congress of the International Association of Empirical Aesthetics.
Editora IAEA - International Association of Empirical Aesthetics
Local Université D'Avignon Et Des Pays de Vaucluse; France
Ed/Org Hana Gottesdiener,
 Jean-Christophe Vilatte
Idioma English
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