DISCURSO DIRECTO

1.  Produzir imagens e discorrer sobre imagens produzidas, tentando compreender o seu modo de aparecimento e o sentido que assumem, são dois exercícios diferentes e extremos. Diversos no seu modo de realização e no campo de necessidades que visam suprir, por um e outro se instala uma problematicidade radical: a que decorre do trabalho sobre um a constituir, ou constituído já, em processo de acrescentamento que é, também, e no interior de um campo cultural específico, processo sempre contínuo de revisão e de reordenamento, em jogo de conflitual tensão. De facto, se produzir imagens é, sempre, estabelecer um corpo diferente e autónomo, capaz de, pelas suas virtualidades formais, assumir um grau de distinguibilidade que dele faz, também, um lugar de inquietação e de perplexa (mesmo quando agradável, ou até exaltante…) abertura, — discorrer sobre as imagens produzidas, e geradoras de perplexidade, visa reintegrar tais corpos num esquema inteligibilizador, abrindo-as, no limite do possível, à compreensão global, de algum modo, e por essa via, as apreendendo e, mesmo, domesticando. Percursos autónomos e, portanto, não necessariamente interligados, ou consequentes, eles apontam para dimensões cuja aceitação comporta imprevisíveis riscos: o que todas as actividades do espírito arrastam, desde que não encaradas como simples dinâmicas repetitivas ou de mera sujeição a quadros estabelecidos, em cada momento buscando uma acrescida consciência do processo em curso, e do impulso que exige a sua execução. Por isso nada espanta que, tendo em conta as características específicas de um e outro dos exercícios considerados, dificilmente se encontre quem concilie as duas práticas, alternada mas continuamente as executando; mas, por isso também, importa ver com extrema atenção quem é capaz de o fazer, e as razões profundas por que o faz, — sobretudo quando ninguém o espera ou, mais ainda, tende a aceitar.

Estranhos, assim, no interior do nosso campo cultural, manifestando-se em registos diferenciados, e aparentemente conflituais, tais autores assumem o risco de cumprir uma exigência íntima de máximo rigor: aquele que apenas se pode entender à luz de uma procura de si que é, também, uma afirmação de si segundo os modos díspares das suas várias dimensões operatórias, desenvolvendo as múltiplas possibilidades que possuem, buscando a compreensão e a explicitação mais ampla do espaço onde a sua produção se exerce, nele interferindo segundo os modos em cada momento havidos por convenientes ou, mesmo, exigíveis. Disponíveis para acções de vário tipo, e sempre que em um e outro dos sectores atingem um grau de evidência referenciável, inquietam: apontam limites alheios, mostram possibilidades, recusam sectarismos redutores. E se, eventualmente, a sua produtividade pode ser, em cada campo particular de intervenção, mais reduzida do que se a uma única se dedicassem em exclusivo, algo importa referir: a dupla virtualidade que os anima (ou que os marca…) permite-lhes falar do que outros fizeram a partir de um conhecimento aprofundado dos processos operatórios, técnicos e mesmo processuais, que conduzem ao aparecimento de determinados tipos de configurações, e controlar quanto fazem com uma reflexão mais aguda e constante — por tal dinâmica estabelecendo uma acrescida consciência dos fenómenos abarcáveis e das suas implicações. Aumentando, assim, em consistência intrínseca o que pode diminuir em mera quantidade. E é esta consistência, e quanto por ela se adivinha, que, na sua ambivalência, surge como problemática: é que, frente a uma suposta especialização, ou tão só ao que se esperaria ser uma vocação sem exigências produtivas de índole diversa, uma tal ambivalência é, também, ambivalentemente vista: como uma riqueza ou como uma limitação, — ambivalência sempre, em si, inquietante, geradora de inquietações e, mesmo, por vezes, de ásperas perplexidades…

De algum modo, diga-se, tais personalidades cumprem, enquanto, e de uma só vez,  tendem a vencer, a famosa asserção hegeliana conhecida como morte da arte: é que, por ela, se concilia a prática produtiva e a reflexiva — e, assim,  o artista torna-se esteta, os objectos constituídos assumem-se, com acrescido grau de evidência,  como sinais gerados no interior de uma  problematização radical, e a dinâmica crítica (no seu sentido mais nobre…) instala um espaço de problemática, mas inesgotável, consistência ôntica. Arte e  filosofia, quaisquer que sejam as especificidades próprias ao seu exercício, ou as modalidades segundo as quais se manifestam, podem habitar um mesmo projecto existencial, — o de Ser. Sem amputações.

Poderá hoje — e esta é uma questão que, necessariamente, fica em aberto… — um artista, professor de uma Faculdade de Belas Artes, deixar de assumir uma tal ambivalência, apresentando-se aos alunos apenas como pintor, ou escultor, ou…, com os seus conhecimentos técnicos, e eventual projecto pessoal de realização plástica, por mais forte que seja, mas manifestando uma muito grande incapacidade discursiva, ou de compreensão das formas alheias e do sentido que veiculam, num processo em que qualquer realização não é reconhecida e tratada senão com base em juízos conjunturais, ou em apreciações de gosto onde a dimensão subjectiva, agora estranha a toda a problemática histórica e sociológica, e como seu princípio e termo: filosófica…, assume um lugar dominante ou, mesmo, único?

2. Vêm estas reflexões a propósito do aparecimento do presente volume, Discurso Directo, terceiro livro de A. Quadros Ferreira, — conjunto de reflexões sobre alguns dos essenciais problemas que a Pintura suscita, ou que pelo conhecimento da Pintura são suscitados (e vejam-se, por exemplo, em dois dos últimos textos onde o cinema, e alguns realizadores importantes, se convocam…), vistos sobretudo através de pintores, e de obras, e de espaços de realização, que o Autor revisita criticamente. Na sequência da longa meditação sobre Almada, e do conjunto de ensaios Entre Florença e Guernica, que José-Augusto França prefaciou, na sequência ainda de múltiplos textos dispersos, ao longo dos anos, por jornais e revistas, A.Q.F. continua a enfrentar-se com a prática produtiva plástica que, durante  séculos, o espaço ocidental viu surgir, em processo de contínuo fascínio e de inesgotável inquietação.

Medindo-se com as formas construídas por artistas de proveniências e épocas díspares, de Giotto ou Duccio a Duchamp ou Mondrian, de Ticiano ou Greco a Tarabukin ou Rauschenberg, de…, a reflexão corre sobre a consciência, cedo partilhada pelo leitor, de que quem escreve faz parte do próprio  grupo de produtores de que fala, partilha com eles a tensão que o acto instaurador suscita, com eles participa de uma aventura transtemporal  que em conjuntos sígnicos de índole plástica se expõe, e que nas suas perplexidades e alegrias por igual mergulha. Longe, necessariamente longe, de espaços e modos que a distância dificilmente deixa recuperar, logo estabelece os laços que, para um pintor, apenas os gestos mais simples, e comuns, podem organizar: sentir a dimensão de uma tela, ou de uma tábua ou folha de papel, avaliar a dimensão e a forma de um pincel e a marca que, por ele, pode ser realizada, medir o gesto necessário à construção de uma linha ou de uma mancha, controlar a produção da tinta, da sua cor à sua textura, decidir da organização espacial das linhas de composição, sentindo-as como geradoras de estruturas habitáveis, … são passos, ou atitudes que, anteriores a qualquer discurso, fazem parte de uma disposição específica, — mas sobre a qual, e se para isso houver capacidade crítica e intelectual, um posterior discurso, sábio e diversificadamente inteligibilizador, se pode vir a constituir.

Logo no primeiro dos textos que constituem este volume, A.Q.F. refere, citando Adorno: “(…) o conteúdo das obras de arte é efectivamente história. Analisar obras de arte significa essencialmente tomar consciência da história imanente nelas contida.”; mas logo acrescenta, agora sem necessidade de invocar qualquer autor: “Mas analisar obras de arte é também analisar autores. É analisar projectos. É analisar propostas.”, num trânsito que passa de uma visão aparentemente globalizadora e neutral, ou que pode, mesmo, deixar entender a obra de arte quase como epifenómeno de um acontecer exterior e que a determina, a uma exigência de abordagem de posicionamentos complexos, e de interacções contínuas, e onde o enfrentamento do processo produtivo assume, para a reflexão, um estatuto central. A esta luz, cada objecto, ou cada obra, é o resultado necessário de um projecto, por mais difícil que seja a sua cincunscrição; mas é também, e apenas, pelos objectos, ou pelas obras, que esse projecto se revela, — desde que seja o espectador capaz de perceber a tensão que animou o seu produtor, o quadro de expectativas e de crenças em que ele se movia, a visão, sempre ‘utópica’, que o animava. Falar, assim, do projecto, é integrar cada quadro, ou escultura, ou desenho, ou filme, ou…, no interior de uma aventura existencial que é preciso compreender, — ou tão só entrever; mas é, também, afirmar um propósito humano e transformador de máximo alcance: o que pela partilha do dinamismo produtivo se abre a um novo mais rico e denso, mesmo quando a novidade existe a partir de objectos antiquíssimos, mas tão virtualmente poderosos que os homens  que nos antecederam, com cuidado ou sorte, mas sempre com óbvia atenção, foram capazes de conservar. E que afirma, implicitamente embora, mas que afirma…, que a mudança só é possível na base de uma consciência esclarecida e, porque culturalmente alicerçada, consistente.

Ler, assim, essas obras; abrir-se, analiticamente, a quanto, nelas, e por elas, se deixava expor; buscar, pelo contacto com  os magníficos sistemas de significação que os objectos constituem, a abordagem de modos de ser exemplares; — tal pode ser uma outra aventura: a que o texto constitui.

3.  Por isso, talvez por isso, por tudo quanto se disse, logo a abrir o volume, na Introdução que para ele redigiu, A.Q.F., pintor, professor de Pintura na F.B.A.U.P., tenha escrito: “Escrever como quem pinta pode não ser uma coisa normal. Mas é um processo que permitirá, acreditamos, viver uma outra visão dos diferentes universos em causa”; e é este amplo reconhecimento, e este amplo desejo, projecto também, que pode perturbar. Mas, agora, e aqui, a estratégia volve-se esforço de abertura e de conhecimento; e ensaiar novas visões é apelar ao desdobramento das possibilidades operatórias de cada indivíduo, confrontá-lo com os seus limites, chamá-lo ao seu destino mais amplo.

Por isso, talvez por isso ainda, a proposta de A.Q.F. aparece como a proposta de um Professor: proposta de quem suscita pensamento e não teme cumprir, no espaço que lhe é dado, um destino singular. Paralelamente à sua obra plástica, cuja coerência interna surge, hoje, como um caso extremamente singular no panorama português, tão saturado, em exposições sucessivas, de pobres gestualidades e de figurações sem grandeza, — a sua obra escrita vai-se avolumando e tornando consistentemente referenciável. E se outro não fosse o seu mérito, este, por certo, haveria que conceder a A.Q.F.: o de marcar,  no país que aprende a ensaiar novas aventuras, e no Porto da tradição em transição secular, um lugar de singular diferença, — e de discreta e referenciável evidência. Um lugar de privilégio.

Diogo Alcoforado

 

 


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