Design e Responsabilidade Social: cooperação entre Escola e movimento de solidariedade social

APRESENTAÇÃO

Durante o ano lectivo de 2004/05 os professores Suzana Dias e Paulo Fernandes, juntamente com a sua instituição de ensino, Escola Superior Artística do Porto (ESAP), desenvolveram uma parceria com a instituição particular de solidariedade social: Conversas de Rua – Associação, com sede em Lisboa.

Desta parceria resultou um projecto de comunicação gráfica, incluído no âmbito da cadeira de Tecnologias Aplicadas, leccionada por ambos, no Curso de Licenciatura de Arte e Comunicação, envolvendo todos os alunos do 2º ano. É de referir que este curso, com as alterações segundo o modelo de Bolonha, deu origem ao actual curso de Design e Comunicação Multimédia.

Localizada no Centro Histórico, a Escola Superior Artística do Porto existe desde 1982 e possui actualmente 7 Cursos. Mais informações podem ser consultadas no site institucional: www.esap.pt

Foi através de um seminário organizado pela Direcção do Curso de Animação e Produção Cultural (um dos cursos existentes na Escola) que os docentes deste projecto tiveram o primeiro contacto com o educador da Associação Conversas de Rua, Hélder Luís. O poder da sua comunicação e o carácter pedagógico do Projecto levou a que os professores facilmente aceitassem participar na resolução de um problema: dar visibilidade à instituição e à sua mensagem, através do desenvolvimento de todo o material gráfico.

A Conversas de Rua – Associação é uma instituição particular de solidariedade social, de âmbito nacional que, através do trabalho educativo de rua, procura construir relações e ajudar a desenvolver projectos de vida. De forma muito particular, implementa Trabalho Educativo de Rua, com crianças, jovens e adultos, tendo em vista o desenvolvimento comunitário; desenvolve projectos de Redução de Riscos e Minimização de Danos destinados a consumidores de substâncias psicoactivas, em contexto de diversão – discotecas, after-hours, ambientes envolventes e festivais, festas e rave party’s de verão, a nível nacional desde Janeiro de 2002. Apresenta, ainda, o Holofote – Luz Sobre Cenas da Vida, Grupo de Teatro de intervenção, com o objectivo de colocar os espectadores a reflectirem sobre a realidade social que os envolve. Tem feito apresentações em Portugal e na Bélgica, desde Outubro de 2001. Mais informações podem ser consultadas em www.conversasderua.org.

OBJECTIVOS DO PROJECTO

Criação e concepção de diversos suportes gráficos utilizados pelos educadores da Associação nas suas acções sociais, para três objectivos de comunicação:

– flyers para informação sobre Redução de Danos destinados a consumidores de substâncias psicoactivas, em contexto de diversão, com as temáticas: álcool, hipertermia, ecstasy, cannabis

cartazes e postais para divulgação da peça de teatro “Os meus não dão problemas” do grupo Holofote;

redesign e criação de produtos de merchendising para angariação de fundos da própria Associação.

Ao abraçar este projecto, os professores cumpriam os objectivos e conteúdos do programa: responder a um exercício que se apresentava num contexto real e proporcionar a visão global das diversas fases metodológicas de um projecto de design, desde o briefing e enunciação do problema, até à defesa e apresentação dos projectos, produção e edição dos resultados. Estes objectivos foram tidos como etapas de avaliação do desempenho do aluno no âmbito académico.

Além disso, realizava-se também um alargamento das potencialidades da Escola: encorajar os alunos a dirigirem a criatividade para a vitalidade da comunicação em áreas sociais e culturais, muitas vezes veladas por falta de financiamentos, mas merecedoras deste esforço útil. Neste projecto associou-se a pedagogia a uma acção social, envolvendo os alunos não só enquanto criativos, mas enquanto actores sociais, responsáveis pela comunicação efectiva dos objectivos desta Associação.

ORGANIZAÇÃO E ARTICULAÇÃO DO PROJECTO

 O Projecto foi dividido em diversas etapas:

BRIEFING – o educador Hélder Luís, na condição de cliente, apresenta e contextualiza a Associação à turma (fig.1). Define o seus campos de acção, públicos-alvo, posturas educativas e interventivas.

Apresenta a necessidade de possuir suportes comunicativos actualizados, directos, sem moralidades, com impacto e, até, divertidos, para falar de assuntos sérios, adequados ao seu público-alvo de faixa etária equivalente à dos alunos. Fornece todas as informações escritas e estipula-se um calendário de acompanhamento e tempo de execução do projecto. Formam-se grupos de trabalho.

Fig.1: Hélder Luís na aula de apresentação do briefing à turma

 PESQUISA: aprofundamento na compreensão dos temas e análise de outras organizações com material comunicativo forte e já implementado. Recolha de material gráfico proveniente do quotidiano. Análise de aspectos estéticos, formais, funcionais, criativos, materiais, orçamentais, etc.

Nesta fase convidou-se um designer gráfico, Nuno Coelho, para partilhar com a turma a sua experiência na concepção dos seus flyers para divulgação das noites CompactDiscothèque, onde actuava como DJ (fig.2). Este designer é reconhecido pela sua criatividade e ousadia, tendo dado importantes imputs sobre como fazer flyers legíveis para ambientes pouco iluminados, entre outras questões técnicas e concepuais.

Fig.2: Designer Nuno Coelho durante a sua palestra (www.nunocoelho.net)

Brainstorming: discussão e apresentação de ideias. Toda a turma partilha o seu ponto de vista e participa activamente com a sua primeira abordagem do problema (fig.3). Apresenta esboços e primeiras maquetas. Esta fase é fortemente conceptual e de domínio semântico na linguagem visual.

Fig.3: Aula de brainstorming e apresentação de ideias

Avaliação e análise do projecto: de forma anónima, todos os alunos avaliam por escrito questões de estética e de funcionalidade nas maquetas dos colegas. Avalia-se o impacto e a legibilidade. Detectam-se erros (fig.4).

 

Após esta fase, contactam-se as gráficas para se ‘negociarem’ os orçamentos, escolher o papel e materiais para impressão. Os alunos aprendem a fazer um pedido de orçamento de acordo com o seu projecto.

Com estes dados, procede-se aos devidos ajustes das maquetas e preparam-se os projectos por forma a que todos adquiram um aspecto acabado, simulando uma impressão offset. Esta fase tem uma forte componente técnica de resolução digital (fig. 5).

Cada aluno organiza um dossier contendo as informações claras sobre o seu projecto, incluindo os orçamentos e contactos das gráficas seleccionadas, que será apresentado à Associação.

Fig.4: Primeira avaliação das maquetas

Fig.5: Preparação digital dos projectos

 

Apresentação dos resultados: numa segunda visita do educador Hélder Luís à Escola, os grupos apresentam e defendem os seus trabalhos perante o ‘cliente’ (fig.6). Esta fase corresponde a uma avaliação final do protótipo. O olhar do ‘cliente’ é fundamental para a avaliação da mensagem, colocando e discutindo questões quanto à eficácia comunicativa, principalmente na interpretação simbólica dos elementos visuais. Os alunos expõem e defendem as suas ideias, apresentado também os respectivos orçamentos e contactos de gráficas.

O dossier de cada projecto é levado pelo ‘cliente’ para ser melhor analisado pelos membros da Associação em Lisboa, sendo um material fundamental para pedidos de patrocínio junto das Autarquias.

Fig.6: Apresentação e defesa dos resultados

Preparação da arte final: após a análise crítica dos projectos, os alunos desenvolvem a arte final. Nesta fase são ensinados os conteúdos técnicos de organização e preparação dos ficheiros digitais.

Após esta fase, todos os projectos estão agora convertidos em digital e prontos para serem entregues em qualquer gráfica pela Associação.

RESULTADOS

A qualidade dos resultados e o significado desta parceria levou a que as Câmaras Municipais de Sintra e Cascais, e a própria Associação, aceitassem financiar a produção da maior parte dos projectos.

Fig.7: Alguns dos projectos editados

Segundo palavras da Conversas de Rua, “esta parceria foi, não só um projecto inovador, como também, um projecto cujos frutos nos fazem apresentá-lo como paradigma de boas práticas e de sucesso na relação Escola e Sociedade Civil. Pela primeira vez em Portugal um grupo de alunos conceberam produtos de redução de danos, para contextos de diversão, destinado a jovens como eles. Este projecto serviu para os criativos (os alunos) tomarem consciência das atitudes a ter com os consumidores nestes contextos tornando-se, além de criadores, actores sociais”

A adesão e a qualidade dos projectos/maquetas resultantes, surpreenderam tanto a Conversas de Rua que rapidamente envidaram todos os esforços junto de financiadores para que fossem produzidos na sua maioria, com um claro benefício para as partes presentes na parceria.

Foram aprovados e financiados pela Câmara Municipal de Lisboa o cartaz e os postais para a divulgação do grupo de Teatro Holofote, com 36 muppies de grandes dimensões, a serem espalhados pela cidade de Lisboa em 2005; financiados pela Câmara Municipal de Cascais flyers para informação sobre a prevenção de danos para festas de Transe e Clubbing, sendo um deles editado a nível nacional; a Conversas de Rua financiou outros flyers, assim como a proposta feita para todos os produtos de angariação de fundos (crachás, sacos, t-shirts, relógios, etc.); Estes últimos podem ainda ser adquiridos através do site da Associação.

Deste Projecto resultaram duas exposições, uma na Galeria da Escola (fig.8), e outra na Biblioteca Municipal de Sintra. A Associação utilizou estes momentos para fazer o seu trabalho de acção social, não só distribuindo os flyers, como intervindo e agitando as consciências com o seu grupo de Teatro Holofote.

Fig.8: Exposição na galeria da ESAP

Os professores e a Associação foram posteriormente convidados para falarem desta parceria num programa da Rádio Universitária do Minho (RUM).

Este projecto foi um estímulo para se continuar a desenvolver outras iniciativas com o mesmo cariz. Seguiu-se uma parceria com a Liga de Profilaxia Social no Porto (LPPS) e com a Associação SOS Racismo.

Curiosamente, o convite que esta Associação lançou aos professores surgiu da visibilidade da exposição realizada na ESAP. Este novo desafio consistiu no redesign da marca gráfica oficial, com o respectivo manual de normas, e nas suas diversas aplicações em produtos de merchendising.

Seguindo os mesmos propósitos lectivos do Projecto Conversas de Rua, foram então desenvolvidos pelos alunos (de uma nova turma do 2º ano) várias soluções gráficas. Por fim, um dos projecto foi eleito pela assembleia geral de sócios da Associação, para substituir e passar a representar oficialmente a SOS Racismo (fig.9). A imagem, actualmente em vigor, foi efectivamente assumida aquando da comemoração dos 17 anos da SOS Racismo, em 10 de Dezembro de 2007.

Os alunos responsáveis por essa nova imagem continuaram a desenvolver trabalhos, de forma independente, para e com a Associação.

Fig.9: Marca gráfica actual da Associação SOS Racismo

Autores: Diogo Landô e Mariana Malafaya.

http://www.sosracismo.pt

 

CONCLUSÃO

Destas iniciativas resultaram trabalhos realizados no contexto académico que, ultrapassando o seu universo, tocam nos autores e passam para a produção, ou seja, para o público-alvo a que se destinaram os projectos. É de referir o empenho e a vontade que todos os alunos demonstraram em fundamentar as suas ideias e em pesquisar sobre as temáticas propostas. Desta forma, o aluno ganhou em conhecimento e experiência, passando a ter obra produzida no seu portefólio.

Reconhecemos que este tipo de postura se revelou de grande importância sobre o ponto de vista da responsabilidade social e pedagógica. Os alunos, além de desenvolverem competências técnicas e criativas, tiveram, desta forma, uma oportunidade de contactar directamente com a sociedade civil através dos aspectos onde a sua criatividade é de grande utilidade. Desenvolve-se, assim também, o sentido da responsabilidade e ética profissional.

Com estes projectos, reconhecemos e comprovamos que a Escola pode ser um local ideal para cruzar intenções pedagógicas a diversos níveis. Os frutos destas parcerias permitem apresentá-los hoje como paradigmas de sucesso na relação da Escola com movimentos de cariz social e por isso, como um exemplo pedagógico que outras Instituições de Ensino poderiam promover. Acreditamos que o envolvimento emocional do aluno e a utilidade das propostas dadas em aula podem ser os principais potenciadores da aprendizagem.

Agradecemos a todos os alunos que connosco materializaram esta convicção.

Ano 2013
Tipo Artigo em jornal sem revisão por pares
Publicação AGIR – Revista Interdisciplinar de Ciências Sociais e Humanas, 1: 3
Páginas 171-183
Editora Fernando Cruz, UFRN (Brasil)
Local Matosinhos
Ed/Org Fernando Cruz
ISBN / ISSN 2182-9888
Idioma Português
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