Depois de 1950After 1950

DE POLLOCK A NAN GOLDIN:
UMA CARTOGRAFIA DE POSSIBILIDADES
texto introdutório de PAULO CUNHA E SILVA

 

Para que serve a arte?

António Quadros Ferreira parece propor uma resposta imediata ao subtitular este livro como “o instalar de um novo olhar sobre o mundo”. De facto é de um novo olhar sobre o mundo que se trata. A arte sempre propôs um novo olhar sobre o mundo. Sempre teve esse lado de farol. Antecâmara do futuro, ela ajuda-nos a perceber aquilo que já víamos e a vermos o que ainda não tinha nascido. Além de provocar uma rotura paradigmática, uma mudança de direcção, ela provoca também uma antecipação paradigmática, isto é, fala-nos de amanhã como se fosse já hoje. É por isso que é tão importante haver arte, e é por isso também que perante o sempre proclamado fim da arte, ou pelo menos da história da arte, ela aí está, provandoà saciedade a sua capacidade de reivenção. Isto só por si poderia ser um exercício demasiado autopoiético, demasiado autocentrado – a arte demonstrando que se consegue reinventar -, mas o que a configura verdadeiramente é sobretudo a capacidade de reinventar o mundo, é essa a sua função mais extrema.

O que é que se anuncia neste livro “Depois de 1950”? Uma data e o seu futuro. Uma data é sempre uma baliza, uma zona de rotura que cria um antes e um depois. Neste caso, a opção do autor é pelo depois, pelo que vem a seguir. Por um momento e o seu futuro. A data é redonda (1950); e sendo redonda na morfologia, torna-se cortante na historiografia. Aceitamos com facilidade a existência de um antes e um depois de 1950, mesmo que não sejamos especialistas em história da arte contemporânea. Deve haver uma arte mais contemporânea que a outra. Admitimo-lo facilmente. São profusos os trabalhos, os estudos, os ensaios sobre arte contemporânea, mas como adiante demonstrarei, a morfologia deste é particularmente inovadora. E seguramente não só pelo facto de atentar ao momento também mais inovador, até pelo facto de ser aquele que nos é mais próximo, portanto mais contemporâneo, como se pudéssemos falar a este propósito numa hipercontemporaneidade, mas sobretudo pela estrutura do livro.

O que António Quadros Ferreira se propõe fazer é perguntar o que se passou na segunda metade daquele que é o século mais marcante da história da arte e por isso da história do mundo. Mas, insatisfeito com a possibilidade de ter que se confinar ao século XX, vem até ao presente, ou melhor, ao presentíssimo, a ontem, ao ano passado, dado que este ano, 2006, é o ano da própria feitura física do livro. António Quadros Ferreira baliza o início do seu trabalho, mas não o fim. Ou melhor, o fim é o presente.  E com isso quer dizer que o livro só pára aí porque ainda não descobriu a possibilidade de caminhar e avançar no tempo. De contrário viria por aí adiante. E rasgaria de bom grado a cortina do tempo.

“Depois de 1950” é assim todo um programa historiográfico. De uma historiografia do quase-futuro. Por detrás da aparente inocência deste título, esconde-se um curioso processo de análise dos últimos 55 anos da história de arte. Mas, e como no seu trabalho plástico, também aqui António Quadros Ferreira produz um “algoritmo da instabilidade”. O método que sustenta este livro remete para a composição dos seus trabalhos plásticos: Unidades morfológicas são destacadas e posteriormente reordenadas à procura de um sentido capital. Neste livro-projecto AQF identifica uma obra de arte produzida em cada um dos anos posteriores a 1950. Ao identificar a obra está também a identificar o seu autor. E o ensaio monográfico que surge, apesar de ter a obra como referência e elemento nuclear, é sobretudo uma  meta-análise do processo criativo de cada um dos autores que constituem essa constelação artística. Esta estratégia, que se consolida através de uma cronologia das obras e não de uma cronologia dos autores, permite-lhe, embora começando em 1950 com Jackson Pollock e terminando em 2005 com Nan Goldin, ir resgatar Matisse, Picasso, Léger, Magritte ou Duchamp. A cronologia das obras, apesar de correr um pouco contra o espírito do tempo que se habituou (mal) a encontrar a fonte da juventude no autor e não na obra (veja-se a forma como as insuportáveis expressões “jovem artista”, ou ainda “artista emergente”, vão fazendo o seu caminho!), estimula um bonito reencontro com o passado recente da história da arte contemporânea e esses fundadores absolutos que enunciei.
A seta do tempo que preside a este projecto é assim uma seta flexível, uma seta que olha para trás no sentido da procura de autores seminais. Usando esta estratégia AQF certifica-se de que não deixa cair autores essenciais na construção do pós-1950. E afirma também que a história da arte não é a marcha da  juventude. Ou seja, que pode existir arte jovem, no sentido do entusiasmo e das perplexidades que convoca, em autores “mais velhos”. É particularmente reconfortante encontrar Picasso e Matisse, e seria angustiante não encontrar Duchamp num trabalho que pretende elaborar o estado da novíssima arte. E além disso encontrá-los com trabalhos recentes, rompendo assim a tentação fácil de encarcerar um autor numa estreitíssima faixa de tempo, por mais prolixo, fecundo e estendido que tenha sido o seu trabalho. À primeira vista este livro tem uma estrutura quase pontilhista. 56 pontos, 56 anos, marcam um espaço, marcam um tempo. Mas cedo verificamos que esses pontos não estão abandonados à sua sorte. Antes constituem os nós de uma rede com múltiplos sentidos. E o sentido é aqui apresentado de uma forma também aforismática. Começamos com uma data (um ano) e entre o autor e a obra coloca-se um pequeno descritor que enuncia e configura a pretensão do ensaio. Através  desses descritores, ou subtítulos, que são também um índice da obra, AQF apresenta o seu olhar sobre o olhar do outro. E este olhar vai desenhando todo um projecto historiográfico que só podia ser a historiografia de um artista. Isto é, de alguém que tem com as obras uma relação da natureza do fazer. De alguém que cumpre a circunstância de ser um deles.

Esta rede de possibilidades, em que a obra se vai tornando, é também um mapa. Não um mapa seguro e assertivo, como se pudesse haver leituras seguras e assertivas da história da arte, mas uma cartografia de possibilidades. Uma cartografia fractal. Isto é, um mapa sem escala. Um mapa que se vai fazendo à medida que o percorremos, como o “caminho que se faz caminhando”. AQF indica o território e fornece a bússola, mas deixa os trajectos à vontade do leitor. Podemos fazer múltiplos trajectos neste livro. Qualquer coisa como 56 elevado a 56. O que corresponde a um número que ocuparia muitos dos 7000 caracteres que tenho disponíveis para esta introdução.  E isso porque é possível ler só um, ou lê-los todos, ou só alguns, ou ainda fazer todas as combinações possíveis. Ele é também uma tabela de múltiplas entradas. Podemos começar pelo fim, pelo meio, pelo início.  Podemos procurar um autor, uma data, uma obra ou uma situação. E nesta combinatória quase ilimitada é também o trabalho compositivo e plástico de AQF que emerge. Ao fim e ao cabo, um autor é um autor é um autor…

[:pt]Autor(es) [:en] Author(s)
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