Delimitação da Escala

 (texto para catálogo de exposição de artes plásticas, Galeria Painel, FBAUP, Porto, 2013)


Jim Jarmusch, a propósito da ideia de autenticidade, de originalidade e de apropriação, diz-nos, citando Jean-Luc Godard, que não importa onde vamos buscar as coisas – importa sim onde as levamos… Se este pressuposto e modo de estar reflete um fenómeno que sempre existiu no âmbito artístico e, mesmo, científico ou em relação à história da humanidade, hoje, com a grande proliferação de imagens e de ideias via internet, o conceito faz cada mais sentido.

No caso desta exposição em particular, de Horácio Frutuoso e de João Pedro Trindade, que decidiram transladar o seu trabalho do atelier para um espaço expositivo e, ao mesmo tempo, fazer convergir física e conceptualmente duas posturas na minha opinião bastante diferenciadas, parece-me importante preambular, antes de me debruçar nos trabalhos propriamente ditos, nos antecedentes e no percurso que aparentemente cada um poderá ter trilhado antes de aqui chegar.

No caso do Horácio, que há cerca de um ano explorava o imaginário e os ícones do mar e dos marinheiros, optando por vezes por utilizar o seu próprio corpo como suporte dessa manifestação, testemunhamos agora uma espécie de abandono da carga mais simbólica e mitológica, havendo, contudo, um enfoque na ideia de cartografia e, acrescentemos, na paródia da teia geométrica da Natureza de Mario Bettini ou do cartesianismo – da ideia positivista que tudo é mensurável e quantificável. Diameteralmente talvez, o João Pedro, que vinha há um ano de um processo exploratório e claramente experimental, onde questionava microscopicamente a vida dos aracnídeos, as suas texturas orgânicas e a sua conjugação com estruturas quadriculadas, agora, nesta exposição, opta menos pela intimidade ou interior dessas configurações subtis e mais por artefactos que mimetizam o que está à sua volta, pela configuração externa das coisas que nos rodeiam, pelo seu volume e superfície.

Todavia, muito para além destas extrapolações sobre a origem e percurso de cada um e de algum hiato que possa existir em relação a outros trabalhos que produziram nesse espaço de tempo, será talvez mais pertinente, expormo-nos à ocupação que fizeram cumplicemente do espaço habitável da Galeria Painel.

Ainda com uma reverbação das camisas listradas dos marinheiros, Horácio propõe-se, através de uma série de artefactos métricos curiosos, trazidos do seu imaginário e também apropriados dos utensílios utilizados na arqueologia para medir e contextualizar porções de espaço e de terra, a mapear o espaço, a quantificar o inquantificável e a ver para além das coisas que se nos apresentam a cada momento. Nas suas Cartas Topográficas de…, deprovidas de qualquer território, para além de quaisquer outros atributos que possamos ler nelas, lembra ao espetador que aquilo que está em questão a cada momento, quando olhamos o mundo, não é tanto o que vemos mas, sobretudo, onde nos colocamos, como vemos e que preconceitos podemos ou não fazer embarcar na nossa perceção das coisas. Esse mesmo pressuposto volta a estar presente em Denkraum, um termo apropriado de Aby Warburg e que nos remete para uma ecologia do olhar ou, mais especificamente, para a ideia de um espaço e para um pensamento simbólico (…) em contraposição com a tecnologia moderna e educação abstrata e racionalista. Curiosamente, este trabalho, para além dos seus componentes métricos listrados de vermelho e branco para despertar a nossa atenção, é composto de uma série de elementos: envelopes abertos com coordenadas improváveis, uma corda tradicional casualmente pousada e ainda uma outra régua mais discreta e uma tela com uma bandeira – novamente símbolos ou metáforas das designações que damos ao mundo ou das entidades que ocupam territórios e que no seu conjunto não deixam de nos levar para o imaginário do mar que assim continua a estar presente no autor. Para além de umas tiras de plástico vermelhas e brancas que decoram as portas principais da galeria, não obstante poderem ser vistas como um marco geodésico ou como a sinalização de um ponto estratégico, mas que também nos remetem para a ideia de construção, de obras ou de um processo de ocupação, ainda vamos poder encontrar um curioso objeto colocado fortuita e ironicamente no chão do espaço. Trata-se de uma pedra talhada e protegida escrupulosamente por uma caixa para depósitos arqueológicos e onde vemos inscrita a palavra hic, do latim, designação sempre pertinente e adequada onde quer que o objeto seja colocado, exposto ou observado.

Já com os trabalhos do João Pedro, não obstante a articulação cuidada dos dois autores e da contextualizada ocupação que é feita do espaço da galeria, deparamo-nos com uma outra realidade, claramente mais sólida, física e material. Numa das suas peças mais emblemáticas, mas também menos subtil comparativamente com outras que ocupam discretamente os espaços vazios e menos improváveis de serem utilizados, o autor confronta-nos com quatro placas de gesso que, sendo pesadas e de uma extrema opacidade, tanto nos remetem para o chão do atelier que as moldou, como, pela posição em que estão colocadas, para a ideia de uma janela fechada mas que por ser branca e imaculada permite da parte de quem as observa projetar-se e ver através delas aquilo que muito bem aprouver. Mais discreta e também mais especualtiva será com certeza uma outra placa de gesso que vemos estrategicamente colocada no chão (também sem título), junto a uma das grandes aberturas para o exterior da galeria. Esta peça, tal como uma ímago, reflete mimetizando parte do lajeamento empedrado do passeio e uma tampa encastrada e, se quisermos, leva-nos também para o outro lado do espelho de Alice ou, senão mesmo, para o mito da caverna e de um outro mundo paralelo com que raramente somos confrontados mas que existe de alguma forma e nos lembra que tudo depende da perspetiva com que olhamos as coisas que se nos apresentam. Na mesma lógica, João Pedro, recorrendo a outros meios e desta vez mais explícitos, com outro trabalho atira literalmente sob os pés do transeunte mais desprevenido uma esteira formada por elementos idênticos aos utilizados no revestimento do chão do espaço expositivo.

Mas mais subtis ainda são duas outras peças que ambos os autores apresentam e que para um olhar menos atento passariam eventualmente despercebidas: a primeira, de Horácio, é uma pequena régua vermelha e branca pousada discretamente num canto mais obscuro da galeria, relativamente próxima e muito provavelmente em contraposição com a quadrícula arqueológica e restantes elementos de conotação cartográfica e náutica; a outra, de João Pedro e que curiosamente nos lembra um sextante ou um estranho dispositvo de navegação, é apresentada também no solo e num outro canto do espaço junto a uma janela, confundindo-se, pela forma, pela cor e pela interessante utilização de um espelho, com um adereço construtivo ou equipamento da própria galeria.

No seu conjunto, através dos trabalhos expostos, da sintonia que registamos entre os autores e da sua apropriação do espaço, temos a clara sensação de que não existem artefactos expositivos, existem sim, uma série de pressupostos bem alicerçados, a delineação de uma estratégia de ocupação ou, se quisermos, os preparativos para uma delimitação da escala…

Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro, Texto em catálogo
Publicação Delimitação da Escala, Catálogo de Exposição
Editora Galeria Painel
Local Porto
Idioma Português
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