Cruzeiro Seixas: O visionário

Pintor, ilustrador, cenógrafo, escritor poeta, Artur Manuel do Cruzeiro Seixas funda o grupo Os Surrealistas que realiza a I Exposição dos Surrealistas no Verão de 1949, com Mário Cesariny (1923-2006) – na adolescência, «um amigo de peito» – e Fernando José Francisco (1922-2008).
Activo aos 95 anos, Cruzeiro Seixas vai realizando exposições individuais onde surpreende. Em 2012, a Sociedade Portuguesa de Autores, atribuiu-lhe a Medalha de Honra como reconhecimento pela sua longa e sólida carreira artística, como pintor e poeta.
Nasce em 1920 na Amadora. Em 1945, entra numa fase expressionisita neo-realista. Em 1947, desenvolve os primeiros ‘objectos’. Em 1948, toma parte na actividade dos surrealistas, expondo no grupo Os Surrealistas em 1949 e 1950.
Atraído por África, alista-se na Marinha Mercante e viaja da Índia ao Extremo Oriente. Em 1952 fixa-se em Angola, percorrendo o ‘interior’ com o intuito de formar uma colecção etnográfica. Aí, escreve os primeiros poemas a par do desenho, pintura e colagens.
Em 1953 e 1959, realiza exposições em Luanda de desenhos e de ‘objectos’ e ‘colagens’, numa casa do século XVII em ruínas. Em 1960, interessado por museologia, trabalha no Museu de Angola onde cria um salão de pintura.
Em 1964 regressa à Europa, estabelecendo um encontro com Goya e Gaudí, em 1968, através de uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian. Em Amarante, é convidado a expor no Museu Muncipal Amadeo de Souza-Cardoso onde realiza um décor surrealista, suspendendo quadros em movimento, com o qual sonhava há 40 anos.
Em Lisboa, em 2006, participa na Galeria Perve com Cesariny e Fernando José Francisco na última exposição conjunta dos fundadores de Os Surrealistas.
No tempo de Salazar, não chegava nada de fora a Portugal mas os artistas iam reinventando. Mais de meio século volvido, Cruzeiro Seixas continua a ver para além do visível, afirmando que «alguém está por certo a perfazer o futuro; é nesse que penso!».
As tertúlias do Café Herminius introduzem-no nas correntes de vanguarda da época. Acaba por aderir ao Surrealismo, se bem que em meados dos anos 40 tenha passado por uma fase neo-realista. Entre o real, o abstracto e o sonho, entre a pintura e a poesia. O que lhe trás o surrealismo de novo…
Formado pela vida e pela vontade de pintar aquelas que são conhecidas por viagens interiores. Aprendeu sempre (e só) consigo mesmo?
Tenho dito e repito que com os professores não aprendi nada, e ainda hoje não sei se isso aconteceu por grave culpa minha ou por grave culpa deles. Aprendi o que aprendi, devorando muito cedo Romain Rolland, Roger Martin du Gard, Tomas Man e André Gide e Genet, etc., mas os meus mestres foram os colegas da António Arroio e a rua. Tudo isto se coordenava, tanto quanto possível nas viagens interiores que refere.
Por isso se intitula um homem que pinta e não um pintor…
As designações de «pintor» e de «artista» já não me parece terem muito a ver com o tempo de hoje, em que sabemos o valor que pode ter o traço casual de um qualquer personagem. Além de «pintor», fui eu muitas outras coisas, apaixonadamente.
Em 1948, integra-se na escola surrealista de António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria, Pedro Oom, Fernando José Francisco, Risques Pereira, Fernando Alves dos Santos, Carlos Eurico da Costa, Carlos Calvet e António Paulo Tomás. Cesariny, um amigo da adolescência que conhece na Escola de Artes Decorativas de António Arroio, tem influência na escolha…
Não me integrei com António Maria Lisboa, com Cesariny, com Mário Henrique Leiria, etc., etc.; Fizemos o mesmo percurso, através de livros que clandestinamente nos chegavam, com notícia do surrealismo que diga-se, em ar de graça, já mexia dentro de nós. Por certo não será motivo de grande espanto se disser que Cesariny adolescente, ainda ia contar os «pecados» aos confessionários da Igreja de S. Domingos, então impressionante de oiros e de velas. Influenciamo-nos muito mutuamente, mas seria por demais longo dizer como, e até quando. Que os dotes de sensibilidade e de inteligência de Cesariny eram superiores, tocando a genialidade, é evidente.
Mantém uma relação forte com poetas como Herberto Helder e António Barahona, nunca mais se desligando da estética surrealista. Chega mesmo a colaborar com várias revistas internacionais ligadas ao movimento. A poesia, as palavras, estão sempre ligadas à pintura?
O Surrealismo não é uma estética, é antes uma maneira de fazer a Revolução Universal que desejámos. Deixo-vos uma definição nunca por demais repetida, assinada por André Breton: «Automatismo psíquico, por meio do qual se trata por expressar, verbalmente e por escrito ou de qualquer outra forma, o funcionamento real do pensamento, com ausência de todo o controlo da razão, e de todo o controlo estético e moral». É-me difícil separar a pintura da palavra, a palavra do sonho, o sonho do dia-a-dia. Refere alguns dos poetas que me dedicaram poemas: fazendo-o deram sentido à minha vida.
Na década de 50, permanece em Angola onde organiza o Museu de Arte de Luanda e percorre o interior formando uma colecção etnográfica. O que mais tocou neste contexto colonial?
Depois de duras viagens como marítimo, em que me foi dado seguir a esteira da História Trágico-marítima, passando por Goa, Macau, Timor, fixei-me de facto em Angola. Durante 14 anos percorri o «interior» em calhambeques, vendendo coisas como pequenos aparelhos de rádio, onde era possível ouvir Brazaville, que tinha um programa em Português, que se ouvia em surdina pois esclarecia as posições políticas que então se viviam. Parte da aventura das «picadas» que, por vezes, as fortíssimas chuvas apagavam, e das jangadas improvisadas, atravessando os sete leitos que os rios ali possuem, ficava-me pelas sanzalas, adquirindo objectos que encontrava a uso, pequenos bancos, pentes, colheres… Peças sempre únicas, sempre de grande elegância formal, que sendo únicas eram de facto «obras de arte».
A arte africana influencia a sua obra? Não por acaso surgiram em Angola os primeiros poemas…
Creio não ter recebido qualquer influência naquilo que desenhei e pintei. Trata-se de uma civilização, que há muitos anos influenciou o cubismo, nos princípios do século passado, pintores como Braque e Picasso. De toda a pintura, das cavernas à actualidade, sofri por certo influências. Não sendo um «artista», o que faço não vai no sentido da «obra de arte», mas sim no sentido do documento ou do depoimento, visando a minha experiência humana. Tenho podido verificar, com certo espanto, que o que fiz serve mais aos outros, do que me serve a mim próprio. Por outro lado, há quem encontre no que desenho e pinto influências de Dali que, justamente, não é pintor da minha preferência. Apressadamente, referirei De Chirico, Magritte, Max Ernst e o meu amigo Jorge Camacho.
A partir de 1990, rejeita a pintura sobre tela, optando pelo suporte de papel. Alguma razão especial?
Foi a têmpera que pintei algumas telas, mas a minha preferência foi sempre para o papel e para o pequeno formato, também não dispunha de dinheiro para materiais mais dispendiosos. E também porque a pintura sobre tela requer uma exigência técnica, para que sou completamente inábil…
Em 1999, oferece a sua colecção pessoal à Fundação Cupertino de Miranda para a constituição de um Museu que se mantém vivo, dando a conhecer o seu acervo em repetidas exposições. Deixar vivo o movimento é uma preocupação?
Com a Fundação Cupertino de Miranda Centro de Estudos do Surrealismo, tratou-se de uma transacção por um preço simbólico. Além do meu espólio, a Fundação adquiriu o espólio de Cesariny. Evidentemente que é risível a designação de Museu do Surrealismo. Muito gostaria que a colecção que formei, sem dinheiro mas por amor louco, fosse mantida pois não sei de outra com igual unidade. A melhor homenagem que me poderiam fazer, era a de a clarificarem como Colecção Nacional.
Foi, afinal, em Amarante, que aconteceu aquela a que chama de «Exposição Notável»…
Infelizmente, neste espaço geográfico, a sufocação impõe-se. Da Exposição Notável que aconteceu em Amarante, não há qualquer referência de críticos e ensaístas, mas guardo breves bilhetes de estrangeiros (um deles proprietário de uma reconhecida galeria), sensíveis, elogiosos, surpreendidos. Nessa exposição, os quadros estavam suspensos do tecto, e assim em permanente movimento.
A caminho dos 100 anos, o sonho ganha (ou não) outras formas e cores…
Se o Mundo se tivesse tornado à medida do sonho ingénuo dos da minha geração, seria natural desejar prolongar a vida, embora seja desesperador o desaparecimento de tantos Amigos insubstituíveis, daqui e para lá desta fronteira. Além disso se tivesse direito a mais uns anos de vida, teria de inventar um outro Cruzeiro Seixas, pois deste estou farto. Em qualquer parte, oculto, alguém está por certo a perfazer o futuro; é nesse que penso!

Autor(es)
Ano 2016
Tipo Artigo de opinião em jornal, Artigo electrónico
Publicação BomBart , N.º 4
Páginas 16-18
Editora Projecto Núcleo de Desenvolvimento Cultural
Local Vila Nova de Cerveira
Ed/Org Helena Osório
ISBN / ISSN 1647-2039
Idioma Português
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