Contributo para a arte e o património em Santiago de Compostela (1860-1910), dado pelo viajante português Daniel Martins de Moura Guimarães no seu ‘Guia do amador de bellas artes’ publicado em 1871

No período que medeia os anos 60 do século XIX e a primeira década do século XX, assistimos ao florescimento de mais de 30 tendências artísticas precursoras da arte moderna. A moda das viagens leva a maioria dos povos em digressão pelo mundo, salvo ibéricos que viajam menos. No entanto, não faltam publicações de literatura de viagens em Espanha e Portugal assinadas por artistas, críticos, diplomatas, escritores, jornalistas, políticos e meros viajantes. Há mesmo quem escreva dentro de um quarto, consultando guias e livros de outros autores.

Confessa o viajante português Daniel Martins de Moura Guimarães (1827-1893) – ou D.M. de M.G., como assina –, no seu Guia do amador de Bellas-Artes, publicado em 1871:

«Mas quantas viagens se augmentam depois d’estar-se em marcha?

Quantas pessoas não teem antes de emprehendel-as o tempo, ou a paciencia precisa para tantas notas?

E a quantas emfim deixa de ser familiar a língua franceza?

Estas considerações fizeram-me conceber a esperança, de que mesmo sem habilitações poderia contribuir para popularisar a nossa maior ou menor riqueza em bellas artes, quasi virgens d’explorações estrangeiras; (…) um meio de forçar o viajante leigo a adquirir instrucções sobre a pintura, minha mania ou paixão dominante»1.

D.M. de M.G. viaja entre 1865 e 1867, percorrendo 22 cidades de Espanha com a preocupação de escrever o referido guia que apresenta um mapa ferroviário da época da viagem (c. 1866). Nesta carta confirmam-se as linhas em funcionamento e em construção (ou apenas projectadas). Ressalva, na sua margem esquerda, o título Nouvelle carte des chemins de fer de l’ Europe e o subtítulo Publiée par M M. A. CHAIX et Cie., Editeurs, Rue Bergère, 20, à Paris.

Observamos que, neste mapa, a Alemanha está ainda dividida em três estados (Würtemberg, Baviera e Saxónia), pertencendo Berlim à Prússia que se estende até Estrasburgo e Cracóvia. A Áustria liga-se às Províncias Danubianas, no Cáucaso, e à Turquia que faz fronteira com a Grécia a cerca de 200 quilómetros de Atenas. Os caminhos-de-ferro em exploração distinguem-se daqueles em construção, estando toda a Europa ligada à Turquia por linhas férreas (e / ou em vias de o estar, como acontece na Grécia, Rússia e Sardenha). Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda, Inglaterra, Irlanda e norte de Itália encontram-se amplamente recortados por linhas férreas, especialmente a Inglaterra berço da Industrialização.

Este guia artístico-cultural apresenta, numa primeira parte, sucessivas descrições pormenorizadas – em especial no que respeita a monumentos a visitar e a colecções de arte significativas. A primeira parte do guia termina com uma relação de hotéis, indicação das distâncias e alguns esclarecimentos ao viajante onde se comparam preços e comodidades. Na segunda parte do livro, o autor faz uma exposição sobre escultura e pintura das escolas italianas, alemãs (incluindo a flamengo-holandesa), espanhola, francesa, portuguesa, inglesa e russa. Distingue artistas dos menos célebres aos mais notáveis, sem esquecer os modernos: «Ainda que não dispomos do espaço necessario para uma historia mesmo resumida d’estes dois ramos das bellas-artes, não podemos mencionar o que possa haver de mais notável, sem que essa menção seja precedida d’ alguns elementos, que habilitem o simples touriste a poder julgar do valor relativo dos objectos, de que dermos noticia»2.

O autor dá-nos uma história muito resumida da escultura egípcia, assíria, etrusca, grega, romana, italiana, espanhola, alemã, flamenga, inglesa, francesa, portuguesa, inglesa e russa, assim como de escultores e pintores célebres, menos conhecidos e modernos.

Reserva, no seu guia, um parágrafo a 10 escultores portugueses (Manuel Machado, José d’Almeida, António Ferreira, Gaspar Cão, João José d’Aguiar, José Joaquim, Joaquim Machado de Castro, Tomás d’ Aquino, Faustino José Rodrigues, Joaquim José de Barros Lobarão e João José Braga), referenciando outros «mais ou menos distinctos»que trabalharam com Joaquim Machado de Castro (Francisco Leal Garcia, José Joaquim Leitão, João José Elveni e Alexandre Gomes) e ainda os mestres como seu pai, Joaquim d’Almeida e Alexandre Giusti. D.M. de M.G. termina o capítulo: «Actualmente consideram o snr. Victor Bastos um esculptor distincto»3.

A respeito de pintores, inseridos na escola portuguesa, e com base no levantamento do conde de Raczynski, D.M. de M.G. vai mais longe, abordando Afonso Sanches Coelho, Álvaro de Pedro, Amaro do Valle e Reinoso, André (ou Diogo) Reinoso, Bartolomeu de Cardenas, Cláudio Coelho, Cristóvão Lopes, Estêvão Gonçalves Neto, Francisco da Holanda, Frei Domingos Rodrigues, Gaspar Dias, Inácio d’ Oliveira Bernardes, José d’ Avelar Rebello, Josefa de Óbidos, Nuno Gonçalves, Vasco Fernandes (mais conhecido por Grão Vasco) e Vasques Lusitano, entre os séculos XIV e XVII; André Gonçalves, António Bernardo Ferreira, António Joaquim Padrão, António José Pereira, António Manuel da Fonseca, Auguste Roquemont, Bento Coelho da Silveira, Cirilo Volkmar Machado, Domingos António de Sequeira, João Baptista Ribeiro, João Glama, Joaquim Rafael, José da Cunha Taborda, José d’ Almeida Furtado, José Teixeira Barreto, Manuel de Castro, Pedro Alexandrino de Carvalho e Vieira Lusitano, nos séculos XVIII-XIX. Só Grão Vasco conta com 23 páginas de destaque, dando D.M. de M.G. a uns pintores mais relevo do que a outros, consoante a importância, e apresentando ainda, no final desta sua breve dissertação com 51 páginas, uma relação dos quadros mais notáveis existentes em Portugal4.

Ao longo da viagem (ou das viagens), observamos que D.M. de M.G. recorre à citação dos guias que consulta e enumera previamente, acrescentando algo de seu que atualiza com as muitas viagens realizadas para escrever este livro. Antes de partir, o autor estuda as viagens que pretende fazer e dá uma visão real do que encontra – o que nem sempre acontece nos guias consultados.

Neste que parece ser um simples livro de bolso pelo seu formato, o viajante leitor tem assim acesso às informações mais práticas e actuais: a descrição da arte, património e aspectos mais importantes das vilas e cidades europeias (54 em Portugal, 22 em Espanha, 14 em França e Itália, sete em Inglaterra, seis na Bélgica e Holanda, nove na Alemanha, Áustria e Suíça, oito nas margens do Reno); as escolas de escultura e pintura e artistas consagrados e em emergência; a relação de hotéis, indicação de distâncias entre os centros urbanísticos e outros esclarecimentos ao viajante como a comparação de preços e a diferença entre as 1.ª e 2.ª classes.

Trata-se assim de um autor que nos dá informação pormenorizada sobre o património das grandes capitais europeias, espólio dos museus e outras curiosidades como o número de habitantes. Mesmo que escreva os nomes dos artistas com diferentes grafias, assim como o património. Esta observação faz-nos concluir que o livro não teve uma revisão e que o autor caiu nos mesmos erros daqueles que consulta para se preparar para as viagens e para escrever o Guia do amador de Bellas-Artes, com mapa ferroviário da Europa onde observamos uma geografia muito diferente da que conhecemos hoje.

O estado de conservação do guia, hoje considerado raro, prova a sua utilidade e uso. É uma ferramenta essencial para o viajante, amante das artes, que se aventura de comboio pelo mundo culto europeu, apoiado por este livro que refere as mais importantes vilas e cidades de 11 estados que o autor calcorreia.

D.M. de M.G. parte de Portugal, de sul para norte, e segue em direcção à Galiza, dando a volta a Espanha e continuando a subir em direcção aos países do norte da Europa. Brasileiro de torna viagem, enriquecido no Brasil, D.M. de M.G. publica o seu guia antes de fundar o Grande Hotel do Porto em 1880, onde eventualmente introduz conhecimentos que adquire na vida dedicada a viagens (ou terá mesmo aproveitado as muitas viagens e estadias para este projecto tão inovador à luz da época).

Em finais do século XIX, o Grande Hotel do Porto, dispõe já do que se pode chamar actualmente de health-club orientado por professor de ginástica. Hoje, depois de passar por várias mãos, pouco se sabe sobre a história do hotel a não ser pela tradição oral dos funcionários e de alguns entes de famílias a ele ligadas.

D.M. de M.G. aplica a fortuna no comércio e indústria, assim como em viagens, cultivando-se, recorrendo a guias importantes e criando o próprio guia, que publica e o torna mais célebre. Em idade avançada, acaba por regressar ao Brasil onde falece e para onde havia ido jovem, ao encontro do padrinho, casando depois com uma viúva francesa rica com dois filhos.

Marcado pelo sucesso, e já viúvo, faz-se grande proprietário, acabando por fundar o referido hotel em Portugal com traço do arquitecto José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906), recentemente decorado por Fernando Marques de Oliveira.

No livro de hóspedes, pontuam figuras ilustres como o imperador D. Pedro II e mulher, a imperatriz Teresa Cristina Maria, que falece num dos quartos do primeiro andar do Hotel (1889), e o ministro Afonso Costa que aí é preso, sob ordens de Sidónio Pais (1917). Eça de Queirós instala-se, também, no Grande Hotel do Porto, em 1884, sente-se mal do estômago e atribui o facto à cozinha que critica.

O autor autodidacta, natural de Fânzeres (Gondomar, Porto), parte para o Brasil com 17 anos e regressa ao Porto, em 1867 «com uma fortuna avaliada em mais de setenta contos de reis (…)», quantia muito significativa para a época. Não só D.M. de M.G. está na origem do afamado hotel, na rua de Santa Catarina, basicamente idealizado por ele, como outros sócios brasileiros.

D.M. de M.G. volta a casar, no Porto, onde deixa descendência. Curiosamente, é bisavô por linha materna do músico portuense Pedro Abrunhosa. Referenciam-no nas suas teses, Maria do Carmo Marques Pires – a respeito do autor do risco, o arquitecto Sardinha – e José Francisco Ferreira Queirós, a propósito do mausoléu romântico no cemitério da Lapa (Porto), onde nunca chega a descansar por se suicidar a bordo do navio, a caminho do Rio de Janeiro, quando toma conhecimento da falência e perde o hotel. Um dado que nos é revelado pela família, aquando da investigação, pois a imprensa da época jamais o menciona, avançando que este morre no Rio de Janeiro.

D.M. de M.G. é ainda referenciado no jornal O Tripeiro, como representante dos herdeiros de António Martins dos Santos que partilha, em 1846, a quota da Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela, com dois outros sócios exteriores, mas continuando a figurar nos corpos sociais como o único detentor da fração de capital respetivo (9.907$670)5.

Para além de negociante, é «viajante do mundo, tendo visitado vários países da Europa, a Palestina»6. A tradição familiar diz que publica dois livros, mas apenas encontramos o Guia do amador de Bellas-Artes, assinado com as iniciais D.M. de M.G., de capa dura com encadernação original em percalina vermelha (ou azul) e letras douradas. Porventura, a dúvida pereça por o livro ter duas capas.

A primeira parte é descritiva dos países e cidades da Europa com relação de hotéis, distâncias e esclarecimentos ao viajante (Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, Itália, Suíça). A segunda parte contempla, como referimos anteriormente, um guia artístico das obras de pintura e escultura encontradas nesses países, organizado por escolas, com breve histórico e biografias sucintas dos artistas. Ninguém diria pelo rigor da obra que o autor é um simples amante (ou amador) de Belas-Artes.

Santiago de Compostela, um caso isolado

Verificamos que, à época do referido guia, Santiago de Compostela cai em quase esquecimento nos roteiros europeus. A cidade passa a ficar fora dos circuitos culturais, servindo até como exemplo de isolamento ocasionado pela evolução do tempo. Ganham cada vez mais protagonismo cidades ligadas ao Grand Tour, como Paris e Nápoles. Esta última, mais do que Roma, por causa das escavações de Herculano e Pompeia.

O caso do isolamento turístico de Santiago dá-se, eventualmente, pelo facto de esta cidade galega não estar ainda conectada com os caminhos-de-ferro que ligam os grandes centros industriais europeus onde as novidades surgem a um compasso alucinante. Pelo esquecimento que a modernidade lhe trás, não obstante o rico património em bom estado de conservação ainda hoje, Santiago de Compostela merece um apontamento sobre o que dizem alguns escassos viajantes a seu respeito entre as datas cronológicas de 1860-1910.

A mudança de mentalidades, a velocidade do tempo, o desenvolvimento dos transportes, o surgimento instantâneo de novidades, que marcam já o caminhar para a atualidade, levam a que Santiago de Compostela deixe de fazer parte da rota dos caminhos traçados pela maioria dos viajantes portugueses que, à partida, poderiam visitar a cidade a caminho do norte de Espanha e França – em especial, os da região minhota tão perto. D.M. de M.G. não esquece a cidade, apesar de fazer referências ao seu património com erros – porventura repetidos nos muitos guias que consulta, antes de escrever o seu. Nomeadamente, quando se refere a um palácio real que nunca aí existiu tendo-o confundido com um da arquidiocese.

Independentemente do indiscutível interesse artístico e espiritual desta capital, a Galiza ainda se encontra pouco desenvolvida em finais do século XIX e a rede ferroviária não chega aí. Por comodidade, os portugueses viajam via Lisboa para Madrid e depois seguem para França, via Irun, onde já todas as províncias estão ligadas por caminhos-de-ferro. Mesmo assim queixam-se da lentidão dos comboios ibéricos, comparando uns e outros.

Em Portugal, os caminhos-de-ferro terminam no Porto e chegam de Lisboa até Beja com alguns cortes. Na Galiza ainda só existem linhas em construção paraligar Vigo7 a Orense, Lugo e Corunha; assim como Lugo a Ponferrada, Bembibre, Branuelas e Astorga. Nesta última localidade já existe uma linha em exploração que a liga a Leão, Palência, Burgos e Vitória com vista a proporcionar a entrada do viajante em França, junto à costa, ou para seguir em direcção a Barcelona e Madrid que se encontram ligadas a Valência, Málaga e Cádis. Por sua vez, nestas localidades marítimas, o viajante apanha vapores com destino a paragens do Mediterrânico e da Europa do Norte; quem segue para Lisboa viaja via Badajós (ou vice-versa).

Amplamente procurada por viajantes e peregrinos, durante séculos, Santiago de Compostela que «é hoje apenas cabeça de districto»8, encontra-se isolada do mundo industrial apesar dos 26.938 habitantes9 de então. Ainda em construção, observamos no mapa anteriormente citado, apenas a linha entre Santiago e Carril. Daí que tenhamos encontrado poucas referências à cidade, e mesmo a outras da Galiza, por parte dos viajantes portugueses, que optam por embarcar em Lisboa ou Badajós, seguindo em direcção a Madrid e depois a Valadolid ou a Saragoça – porventura com o propósito de entrarem em França através de Irun via Vitória ou Pampelona.

Mesmo assim, Santiago de Compostela não fica fora dos destinos preferenciais de alguns portugueses. Se bem que, longe do alcance das linhas férreas que levam e trazem as novidades, a cidade perca importância. Historicamente, pelos caminhos que levam a Santiago, se faz a difusão das artes na Idade Média – em especial das Cortes que permitem a troca de peças artísticas de grande qualidade.

Apontamos sempre, como expoente máximo, o contributo de Santa Isabel de Aragão, infanta aragonesa, e rainha consorte de Portugal de 1282 a 1325. A Rainha Santa Isabel percorre os caminhos centenas de vezes em peregrinação. «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», segundo o poeta português Luís Vaz de Camões (c. 1524-1580), e a caminho do século XX os interesses convergem para os países e centros mais industrializados do norte europeu ligados por uma teia de caminhos-de-ferro rápidos, eficientes e práticos. Fica o passado e os percursos históricos como inspiração a um qualquer revivalismo.

D.M. de M.G. escreve sobre Santiago de Compostela com imprecisões, eventualmente, ocasionadas pelos guias que consulta. Justifica-o na obra Viagens na terra alheia. De Paris a Madrid(1863), o escritor, jornalista, diplomata António Augusto Teixeira de Vasconcellos (1816-1878) a propósito do guia de Lavigne, entre outros: «(…) a parte em que se trata de Portugal está cheia de erros (…). Pois todos estes senhores andaram por essas Hespanhas, e escreveram o que viram, e o que não viram (…)»10.Este ano comemoram-se os 200 anos de nascimento de Teixeira de Vasconcellos cuja mãe o deu à luz, no Porto, a 1 de novembro de 1816.

D.M. de M.G. começa por escrever que Santiago é a capital da Galiza que nunca foi. Tão importante para os viajantes portugueses no passado (e ainda no presente) – pelos laços linguísticos e culturais, pela fé, pela universidade –, a cidade de Santiago é unicamente mencionada por este autor viajante estudado na tese de doutoramento Impressões sobre a arte e o património nas cidades europeias mais visitadas por viajantes portugueses (Londres, Madrid, Nápoles e Paris): Notas para o estudo de uma sensibilidade estética (1860-1910), que defendemos em 2014 na Faculdade de Geografia e História da USC. E, não obstante D.M. de M.G. estar integrado num grupo de 14 viajantes estudados com díspares educações, formações e origens.

Preocupado em visitar, exaustivamente, todos os centros históricos europeus para referenciar o seu património num guia de viagem, D.M. de M.G., não esquece Santiago de Compostela, dedicando-lhe pouco mais de duas páginas, na obra inédita intitulada Guia do amador de Bellas-Artesonde referencia o património europeu digno de visitar, escrevendo portanto com essa mesma preocupação: «Antiga capital da Galliza, é hoje apenas cabeça de districto. Possue uma formosa cathedral com fachadas para todos os lados; a principal, ao poente, dá sobre o largo Mayor, em frente do palacio real (…)»11.

Na realidade, a oeste, em frente à fachada principal da catedral, situa-se o paço de Raxoi, atualmente ocupado pela câmara municipal. O paço é um edifício neoclássico projetado em 1767 por Carlos Lemaur12, por ordem do arcebispo Bartolomeu Raxoi e Losada. O diretor do hospital dos Reis Católicos opôs-se à construção por considerar que este priva o hospital de luz, ventilação e espaço para os doentes entrarem e saírem.

A extensa fachada suportada pela arcada e coroada por relevo em mármore da batalha de Clavijo, de Gambino y Ferrero, faz deste um dos mais elegantes edifícios de Santiago de Compostela. É usado, originalmente, como prisão e sede de ayuntamiento, como alberga sacerdotes, acólitos e crianças do coro da catedral. Atualmente, é sede do ayuntamientode Santiago e da Presidência da Junta da Galiza e os seus interiores não podem ser visitados por ser utilizado para fins administrativos13.

Santiago de Compostela mantém-se, assim, à margem da industrialização e peca na falta de novidades e atrativos, não obstante o rico património que é já sobejamente conhecido e se conserva. O próprio plano urbanístico, em cerca de 1750, muito se assemelha ao anterior apesar de terem passado 266 anos.

A muralha começa a perder presença dentro do perfil urbano e criam-se outros lugares de acesso ao centro histórico através de portas menores abertas em espaços não construídos14. O mesmo ocorre nos planos urbanísticos de 1796, 1886 e 1908, realizados respectivamente pelos arquitectos Juan López Freire, Enrique Mayer e Pablo Costa Buján. O mais significativo, quando comparamos os planos anteriores, é descobrir como Mayer introduz um modelo cognitivo buscado ao passado já que sobra a presença de uma grande muralha com os blocos correspondentes, elemento que não é constante no plano de 179615.

Contudo, e mesmo já sem a muralha, Santiago de Compostela continua a ser uma cidade limitada por essa mesma muralha – hoje praticamente imaginária –, transformada com o passar dos anos em via de circulação. Outro exemplo é a construção do novo mercado de abastos (1870), contíguo à de San Agustín e de San Fiz de Solovio, lugar onde em 1796 se mantém um cemitério, hortas e edificios dos Condes de Altamira. Como testemunho da transformação do espaço urbano16.

Algumas impressões sobre a arte e o património em Santiago de Compostela

Daniel Martins de Moura Guimarães dedica pouco mais de duas páginas àquela que chama a capital galega17 por imprecisão e que é visitada pela Rainha Santa Isabel, na Idade Média, centenas de vezes (para cumprir o número que os historiadores estimam, a rainha teria viajado uma vez por mês, dispensando 15 dias no percurso) – viagens que muito contribuíram para a difusão e troca de tesouros portugueses e europeus. O autor faz basicamente referência à Catedral, com fachadas para todos os lados, sendo a principal a poente que dá para o largo Mayor em frente ao paço de Raxoi (e não palácio real, como o autor indica e que nunca existiu em Santiago).

Santiago possui a formosa catedral com fachadas para todos os lados, sendo grandiosa a que está em frente do paço de Raxoi, por causa do rico trabalho das duas torres muito elevadas, no meio das quais «campêa S. Thiago a pé», com hábito, cajado, cabaça e chapéu largo, e a seu lado figuram duas estátuas de reis ajoelhados, tudo de tamanho colossal. A fachada da igreja distingue um estilo romano-bizantino, evoluindo nas torres para o estilo da Renascença. A fachada norte é de puro estilo romano: nas outras fachadas predomina o romano-bisantino, que no parecer do autor se assemelha ao gótico.

Recuperando as próprias palavras de D.M. de M.G., este refere que a referida fachada «é na verdade grandiosa, por causa do rico trabalho das duas torres muito elevadas, no meio das quaes campêa S. Thiago em pé, com hábito, cajado, cabaça e chapeu largo, e aos lados d’elle duas estatuas de reis ajoelhados, tudo de tamanho collossal. Este grupo termina por assim dizer a fachada da egreja, que é d’um bello estylo romano-byzantino; e as torres acabam pelo estylo da Renascença. Sobre a capella-mor há outra torre chamada, a do relogio, egualmente alta e graciosa. A fachada do norte, que dá para um pequeno largo e convento de S. Martinho, é de puro estylo romano: nas outras fachadas predomina o romano-byzantino, que se assemelha ao gothico»18.

O autor descreve o interior do templo como simples e elegante, com forma de cruz grega e 23 altares, sendo o principal debaixo da cúpula, isolado, e sobre o túmulo do Apóstolo com quatro imensos anjos a sustentarem o dossel, sobre o qual está a estátua do Santo a cavalo. Por baixo do dossel, fica o altar de mármore e prata, sendo as restantes decorações de madeira doirada19. Dentro da porta principal encontra-se um vestíbulo que, por um grande pórtico em forma d’ arco, dá entrada para a igreja; tem em toda a circunferência figuras esculpidas em pedra em meio corpo que o autor considera um belo trabalho «e prova-o o dispêndio com que de Londres vieram homens competentes examinal-o, e tirar-lhe o desenho»20.

O autor descreve, ainda, uma particularidade da grande festa do Apóstolo em que içam a meio um enorme turíbulo, com mais de um metro de altura, e algumas arrobas de prata, necessariamente conduzido por dois homens. Explica que o incenso queimado, com carvão, funciona como um desinfectante (já desactualizado à época, critica, mas há que manter a tradição medieva até por questões simbólicas), pois, como também alega, o grande número de peregrinos adoentados pelas doenças e distâncias percorridas, bem o pede: «D’este sae uma nuvem de fumo e uma estalada que mais parece ter de burlesco que de religioso»21.

D.M. de M.G. salienta a Glória com toda a circunferência decorada por figuras a meio corpo esculpidas em pedra com Cristo no alto e os apóstolos à volta, assim como anjos com harpas, liras, e outros: «É um bello trabalho, e prova-o o dispêndio com que de Londres vieram homens competentes examinal-o, e tirar-lhe o desenho»22.

Para além da catedral, D.M. de M.G. só faz referência ao património que a circunda como seja o convento de São Martinho, do qual salienta a fachada, a igreja e a escultura notável; o grande hospital que surge logo de seguida (actual Hostal dos Reis Católicos), «antigamente destinado aos peregrinos», com fachada tão imponente quanto a do paço de Raxoi que fica a poente, distinguindo uma estátua equestre de Apolo.

«A egreja do hospital tem sobre a capella-mór uma cúpula, que maravilha pela forma: sobre quatro pilares distantes e dispostos em circulo, nasce d’uns aos outros uma especie de arco abatido, d’onde principia a cúpula»23.

De entre os muitos edifícios notáveis, D.M. de M.G. recorda a Cortezela (ou igreja paroquial) e não esquece a universidade, o seminário e alguns estabelecimentos de instrução e caridade, sem adiantar nada mais24.

Registos sobre outras cidades de Espanha

Entrando no estrangeiro pela Galiza, Daniel Martins de Moura Guimarães observa as muralhas de Tui antigamente bem fortificada, e então em ruínas, fazendo ainda referência a uma velha catedral em forma de castelo25. Sobre Vigo recorda a importância como excelente porto d’abrigo, não esquecendo a boa alameda ou passeio público que ainda hoje perdura, e algumas edificações novas e importantes para a época26.

A paixão pela pintura de D.M. de M.G. que se entretém a aguarelar postais de viagem numerados, como outros da época os colecionam em álbuns próprios à imagem dos de fotografia, sobressai desde logo neste seu guia, referindo «uma boa pintura a Madona de la Servilleta por Murillo», na Capela do Campo Santo. Terá iniciado a viagem em julho ou agosto, dado referir que as alamedas se enchem nas belas tardes de verão de passeantes que retornam à noite à rua Real, que apesar de larga e comprida se enche completamente27.

Vê Badajoz uma velha cidade com fortificações formidáveis, mas maltratadas, e como praça de guerra não lhe encontra outras curiosidades, a não ser uma ponte de pedra de 28 arcos sobre o Guadiana, um castelo mourisco a desabar, e uma catedral, que mais parece uma fortaleza28.

Mérida está também em ruínas, se bem que preciosas, pelo que recorda que, a insignificância da cidade à época, esconde a sua espantosa importância no tempo dos romanos29.

O autor escreve sobre as cidades de Espanha mais do que as de outro país que visita e percorre em toda a Europa. De Valadolid, sem porto de mar, diz ter sido «corte d’Hespanha até Filippe II, que a transferiu para Madrid, tornando a sel-o no reinado de Filippe III, de 1601 a 1621». O palácio real que lhe serve de residência e é por este último «muito augmentado, nada tem bella escadaria e um pateo com bustos de bello relevo por Berruguete30. Proximo do palacio fica o antigo convento de S. Paulo, meio destruido (…)». D.M. de M.G. considera notável a igreja «pelas suas proporções e pelas pinturas de Bartholomeu de Cardenas. (…) É egualmente notável o collegio de St.ª Cruz, em estylo do Renascimento, que serve hoje de museu, onde se vêem algumas boas esculpturas de Berruguete, Hernandez31 e outros, e telas de Rubens, Pereda32, Carducci33, Bassano34, Ribera, Zurbaran, uma de Corregio (…) e quatro quadros pelo pintor portuguez Bartholomeu de Cardenas (…)»35.

Diz ainda que, ao contrário de Valadolid, tem Burgos estado estacionária, o que talvez se deva à inconstância e rigor do clima. Segundo D.M. de M.G., o monumento mais notável é a catedral com belo portal e duas torres góticas. «Ainda que infelizmente com algumas reconstruções em desaccordo (…) do mais puro estylo gothico, com vidros de cores (…). A outra parte, chamada Pellegeria, é em estylo do Renascimento, mas com uma tal profusão d’esculptura (…) que mais parece um trabalho de pincel que de cinzel. (…) O interior não desdiz d’este bello efeito. (…) um admirável quadro representando a Magdalena, pintura em meio corpo, cujo auctor se ignora, mas que é digna de Raphael».

O autor considera igualmente notável a capela de Sant’Anna, pelas esculturas e por um quadro atribuído a André del Sarto, «(…) a capella da Apresentação, por um quadro (…) attribuido a Sebastião del Piombo. Não deve passar desapercebido o grande e excellente órgão da egreja, e a dupla escada que a elle conduz»36.

Vê Barcelona como a cidade de Espanha mais importante em comércio e por isso a mais activa. Mal arruada, numa área muito pequena, dentro de muralhas, com excepção da Rambla, «bello boulevard de cerca de 1200 metros d’extensão (…) e de poucas mais (…) estreitíssimas, sombrias e tortuosas. Ultimamente, a demolição das fortificações, que ficaram restringidas a uma cidadella a leste, ao forte de Atarazanas ao sul (…) e ao castello de Monjuich sobre a montanha (…). Em logar das antigas muralhas, tem sumptuosos prédios em novas ruas larguíssimas, e lindos passeios (…)»37.

Sustenta a Associação Comercial uma espécie de escola politécnica, onde se ensina naútica, química aplicada às artes, física experimental, cálculo, agricultura prática, matemática, geometria prática, teoria das máquinas, desenho linear, direito comercial, desenho aplicado à fabricação de tecidos, pintura, paisagem, escultura, arquitectura e línguas estrangeiras.

Tem mais Barcelona: «(…) um importante archivo com documentos raríssimos; um museu particular dos mais especiaes que existem no seu genero, denominado museu Salvador, que conta já com gerações de proprietarios e se compõe: 1.º d’uma bibliotheca d’obras de historia natural, sciencias medicas e viajens; 2.º d’uma collecção de manuscriptos (…)»38.

Os edificios públicos e religiosos mais admiráveis na cidade são: a Catedral, de estilo gótico, cujo coro do centro é notável – como em quase todas as igrejas espanholas da mesma época (séculos XIII e XIV) –, sobretudo pelo trabalho em talha do cadeiral. O palácio real «ainda que moderno», é de pouco gosto para o autor. «A Bolsa edificio vasto e luxuoso d’estylo moderno, encerrando o tribunal do commerecio e a eschola de bellas-artes (…). A alfandega já pequena para o immenso movimento commercial d’aquella praça (…). Esta cidade é muito abundante em aguas potaveis e em fontes monumentaes, entre as quaes sobresahem a da praça do Theatro no principio da Rambla, em forma de pyramide egypcia (…), e a mais moderna, porem a mais notavel, da praça do Palacio. Esta fonte é de mármore de Carrara».

Os arredores de Barcelona, chamados de Gracia, ligam-se à cidade pela avenida do mesmo nome. É a povoação favorita dos de Barcelona, «que em pouco tempo fará com Barcellona uma só cidade, conta com mais de 600 casas, pela maior parte habitações de gente abastada (…)»39.

Entre outras cidades de Espanha, D.M. de M.G. distingue Valência como aquela cercada de fortificações em forma eliptíca: «A alfandega, hoje fabrica de charutos. O palacio da cidade e a Bolsa, n’um edificio que foi um antigo alcaçar (…). A Cathedral, que é um grande templo de tres naves, com 98 metros de compruimento e 60 no transepto. É notavel a capella-mór por boas esculpturas e pinturas. (…) Das outras egrejas só merecem mencionar-se a de S. Martinho, onde se vê um quadro de Ribalta representando Christo morto; a de St.º André, de boa architectura e esculptura, com pinturas dos melhores auctores de Valencia (…)»40.

Málaga é, à época, uma cidade mal arruada, ainda que com bons edificios. Os principais são: a Catedral grande templo de arquitetura notável ao estilo da Renascença. «La Alcazaba, cuja origem é anterior aos arabes, e era uma fortaleza, parte da qual foi demolida para a construcção da nova alfandega (…). Sobre uma alta collina a leste da cidade está o castello de Gibralfaro, cuja origem é tambem anterior aos arabes. Malaga tem diversos e bons passeios, sendo o mais notavel o chamado Salão de Bilbao, com 420 metros de comprimento por 42 de largura, com bancos, estatuas, e seis fontes (…)»41.

Sevilha é antiga e igualmente mal arruada. A catedral não só é o templo maior e mais notável da Espanha, senão também um dos mais importantes da cristandade. Foi construída de 1401 a 1519 no lugar de uma antiga mesquita.

«Tem uma curiosa torre sobre a qual gira a estatua, a que chamam Giralda. (…) O côro no centro da nave maior tem 127 cadeiras com esculpturas gothicas d’admiravel execução; e dois orgãos, tambem sobrecarregados d’esculturas, com 3,500 tubos. (…) Ao lado da capella-mór na sacristia principal em estylo composito existem alguns quadros do insigne Murillo, e uma pintura maravilhosa de Pedro Campana, representando o Descimento da Cruz: quadro venerando pelo merecimento proprio, e por ter sido n’elle que Murillo estudou e se inspirou do colorido, que tanto o celebrizou»42.

Na sacristia estão guardadas uma em frente da outra duas preciosidades, das quais salientamos a custódia de prata, transportada nos dias solenes por 24 homens, com a forma de um templo circular de quatro andares. D.M. de M.G. refere ainda, na sacristia de los Calices, notáveis pinturas – especialmente, a Beata Dorothêa de Murillo e um Ecce Homo de Morales.

Entre as outras igrejas de Sevilha são notáveis – a da Caridade pelos quadros de Murillo, Valdez, e outros – a de S. Martinho pelas telas d’Alonso Cano e Herrera, – a de St.º Estevão pelas pinturas de Zurbaran, e a da Universidade por quadros diversos. Há na cidade um bom museu de pinturas da escola sevilhana. «Cabe n’elle o logar d’honra a Murillo, por ter lá avultado numero de telas (…). Brilha alli egualmente Zurbaran na Apotheose de S. Thomás d’Aquino, e acham-se lá representados outros mestres, como Ruelas, Valdez, Herrera, Cespedes, etc. Há tambem em Sevilha galerias particulares de pinturas, sendo a principal a de D. Pedro Garcia com mais de 400 telas da eschola hespanhola e d’outras nações»43.

D.M. de M.G. descreve a Lonja como um vasto edifício da ordem toscana que serve de sede ao tribunal do comércio, à Bolsa e a um riquíssimo arquivo com mais de 30 mil massos de documentos preciosos com referência a actos públicos das Índias e Américas, classificados por ordem das provincias a que pertencem, em ricos armários envidraçados dispostos em salas próprias e luxuosas44.

O Alcazar é um vasto edificio árabe, que era ao mesmo tempo fortaleza e palácio real. «A fachada principal é do mais lindo estylo arabe de folhagens. Os pateos são calçados de marmores de côres (…). O antigo castello de San Telmo, fóra de portas, era outr’ora eschola e asylo d’orphãos, e hoje é um rico palacio do duque de Montpensier, opulentamente reconstruido á moderna, com lindos jardins e luxuosas decorações. (…) A 10 kilometros de Sevilha, do outro lado do rio, fica o logar onde existiu a antiga cidade – Italica – pátria de Trajano. Descobrem-se lá algumas ruínas (…)»45.

Córdova é cercada de muralhas ainda do tempo dos árabes. Toda a cidade é um verdadeiro museu para o autor, sendo os principais o Alcazar velho e a catedral. «É esta um templo que os árabes construíram de 770 a 795 no logar d’outro templo romano que os godos haviam consagrado a S. Jorge. (…) É verdadeiramente uma cathedral dentro d’outra (…). A sua abobada é muito mais elevada e o todo digno do maior elogio como obra d’arte, se não tivesse contra si o ser um enxerto, para o qual foi preciso destruir ou pelo menos deslocar 63 columnas antigas que occupavam aquelle logar até 1523»46.

A antiga torre árabe de 65 metros foi por ameaçar ruína substituída por outra em estylo greco-romano, principiada em 1593 e terminada em 1653. Do Alcazar velho só existem recordações e ruínas47.

Em Granada a maior parte das ruas são estreitas, tortuosas, e «mal calçadas, mas na cidade baixa há algumas excellentes. As janellas das casas estão cheias de vasos com flores e arbustos. (…) A Cathedral, construcção de 1529 a 1560, com uma bella fachada de tres portas, ornada d’estatuas e baixos-relevos. (…) Tem umas 15 capellas ricas em esculpturas e pinturas (…). Na sacristia e claustros vêem-se outras capellas com boas pinturas. (…) A capella real é grandiosa, em estylo gothico, e com alguns monumentos importantes. A torre está por concluir, mas a parte feita é de tres estylos, dorico, jonico e corinthio, e o seu risco era para ser terminada em estylo toscano. A Cartucha adornada com preciosos mármores e pinturas de Palomino. (…) Passando-se as portas das Granadas, espécie de arco de triumpho no logar da antiga porta arabe Bib-el-Aujar, vêem-se em frente os bosques e jardins da famosa Alhambra (…). N’uma das galerias d’este pateo está exposto o mais precioso vaso de louça que se conhece, cheio de lavores, ornamentos e inscripções, e do qual – o que prova a incúria dos seus possuidores – deixaram desapparecer uma aza que quebrou»48.

O autor vê erguer-se no fundo do mesmo pátio a magestosa torre de Comarés, precedida de uma antecâmara que a torna mais digna pela imponência das arcadas, pela variedade e enlaçamento dos arabescos, pelo mosaíco das paredes e pelo trabalho da abóbada de estuque pintada de azul, verde e vermelho, formando uma folhagem à imagem de uma «gruta de stalactites».

Há um elemento particular que distingue este género de ornamentação: o emprego da escrita como motivo de decoração. A escrita árabe com as suas formas contornadas e misteriosas prestava-se, a este efeito, com o auxílio de flores, folhas, cordões, e outros. «A melhor d’estas salas, chamada a real, é adornada de columnas de mármore branco e revestida d’uma fachada de lindo mosaico; (…) Um dos pórticos dá passagem para a sala do Tribunal, onde se vêem pinturas na abobada que dizem ser ainda árabes, no que pessoas competentes concordam, e n’esse caso seriam as únicas d’aquelle género que nos legaram. Estas pinturas, segundo affirmam, são feitas de couro, espécie de pergaminho, e colladas depois na abobada do cedro. Representa uma d’elles o mesmo pateo dos Leões (…)»49.

À época, com mais de 300 mil habitantes, segundo o Almanach de Gotha de 187050, Madrid distingue uma série de monumentos, sendo o palácio real o edificio mais notável que é construído pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Sacchetti (1690-1764), em meados do século XVIII51. Tem cerca de 140 metros, cada uma das suas fachadas. «A principal ao sul, tem 28 metros d’altura, ao passo que a opposta tem cerca do dobro. (…) As partes recuadas são ornadas com pilastras e capiteis doricos, e as que fazem saliencia de columnas jonicas. As janellas do andar nobre teem ricas grades, e são odornadas no alto de lindos frontões, alternativamente triangulares e circulares. As dos dois andares superiores são oblongas e sem ornamentos. (…) Entre as arcadas do pórtico vêem-se quatro estatuas collossaes dos quatro imperadores romanos nascidos em Hespanha, Trajano, Theodoro, Adriano e Honorio, e defronte a de Carlos III em um nicho. A escada é rica e uma das mais bellas partes do palácio. Os degraus são inteiriços e de bello marmore. (…) As paredes da escada são adornadas de 12 columnas d’ordem compósita, e a abobada, pintada a fresco por Giacinto Conrado, representa a monarchia hespanhola rendendo homenagem á religião»52.

As peças mais importantes que se visitam são a sala dos embaixadores, com pinturas no tecto pelo mesmo Giacinto, «figurando a exaltação da monarchia hespanhola; (…) as paredes são forradas de velludo carmesim bordado a ouro; doze grandes espelhos estão por cima de mezas de jaspe, sobre as quaes se vêem objectos preciosos; e aos lados do throno as figuras da Prudencia e da Justiça; – a capella, de forma eliptica, com uma alta cúpula e frescos pelo citado pintor, é adornada de lindos mármores e ricos dourados, mas não prima pelo gosto (…)»53.

Dos palácios particulares, os que merecem preferência são os seguintes: o da Rainha Cristina, na pequena praça dos Ministérios, apesar do seu todo ser pouco harmonioso; o do duque de Lérida, com uma bela colunata da ordem dórica; ao desembocar no Prado, «d’um lado o do duque de Villahermosa, e defronte o do duque de Medina-Celi, reconstruido no gosto do seculo XVII: este ultimo tem extensos jardins, ricos aposentos e collecção magnifica d’armas, armaduras, quadros, etc.»54; o do Marquez de Salamanca, em estilo moderno, ou seja, ao estilo da época, no passeio dos Recoletos, é notavel pela riqueza dos aposentos.

«Stº. Isidro el Real, a maior de Madrid, antiga egreja dos Jesuitas, para onde Carlos III fez transportar as relíquias do santo Padroeiro depois da expulsão d’aquella ordem em 1769. É notavel (…) pelas estatuas de Stº. Isidro (…) e pelos quadros de Alonso Cano55, Morales56, Palomino57, Coelho, Raphael Menz, Lucca Giordano58, Carducci, e outros. A egreja da Encarnação, n’um dos ângulos da praça do Oriente, mandada construir em 1616 por Margarida d’Austria, mulher de Filippe III, e restaurada no seculo passado pelo habil architecto Ventura Rodriguez59, que fez d’ella a mais elegante de Madrid. As Salesas Reales, na praça d’este nome, é um mosteiro fundado por Fernando VI e D. Maria Barbara de Portugal, para educação de meninas nobres. A fachada principal é d’ordem composita, com baixos-relevos e estatuas. A fachada que dá para o jardim é a mais linda (…). A egreja é de forma de cruz latina, e encerra objectos preciosos, como retabulos magnificos, columnas de marmore verde de Granada, quadros e frescos, e as esculpturas do tumulo do fundador, fallecido em 1759. (…) dizem os hespanhoes (…) barbara rainha, barbara obra e barbaro gosto»60.

A galeria de pinturas, chamada museu d’El-Rei (atual Prado), por ter sido principalmente fundada com os quadros da casa real. Depois de feitas as convenientes mudanças na edificação primitiva, inaugurou em 1828 a galeria de pinturas, recolhendo e colecionando os quadros dispersos pelos palácios reais, e Isabel II continuou a obra do seu antecessor, reunindo-lhe as telas, ainda existentes no Escurial. Segundo o autor viajante, esta colecção avaliada como sendo museu de pinturas, não sofre paralelo com os de Dresde, Florença, Paris, Viena, Munique e Berlim, porque lhe escaceiam os elementos para o estudo das diferentes escolas, e da origem, progresso, e desabrochar da arte.

Para o autor, só a escola de Valença se pode orgulhar de estar bem representada no museu d’El-Rei, porque além dos quadros do grande Ribera, apresenta produções de Juan de Joannes, Ribalta e Espinoza. D.M. de M.G. considera-a uma galeria de pinturas sem igual. Somente nella se pode estudar Velasques, porque ostenta 64 telas, entre as quais a Rendição de Breda, as Meninas, os Borrachos, as Fiadeiras, e as Forjas de Vulcano, sem equivalentes n’outra parte. «Murillo figura lá com 46 producções (…). E Ribera apparece na collecção com 58 quadros (…). Surprehende e maravilha, que entre os mestres estrangeiros viesse Raphael enriquecer esta galeria com 10 quadros (…) que só no Vaticano se encontram eguaes prodígios d’arte. Admiram-se 2 quadros de Leonardo da Vinci, um d’elles, a Sacra Familia, das obras capitaes do seu auctor»61.

Titiano está representado por 46 telas; Tintureto apresenta 46 quadros e alguns dignos do seu renome. «(…) Possue ainda o museu d’El Rei duas allegorias de admiravel execução por Alberto Durer (…). Existem da eschola flamengo-holandeza 62 quadros do grande Rubens (…), 22 de Van Dyck, sendo admirável o retrato da condessa d’Oxford: e de Rembrandt um excellente retrato, etc.»62.

Os pequenos flamengos são numerosíssimos, notando-se os Breughel com 54. O Museu Nacional é inaugurado em 1842 no convento d’Atocha, com os quadros, que se recolhem dos conventos, e com a galeria confiscada ao infante D. Sebastião. De entre 800 quadros só merecem menção cerca de 90. A galeria da Academia de Madrid, ao contrário do museu nacional, é notável pela excelência, e não pelo número de pinturas. Rubens é o único mestre estrangeiro de alguma importância. A galeria do Marquez de Salamanca, onde vemos aparecer os nomes de Velasquez, Murillo, Zurbaran, Ribera, Claudio Coelho, Rubens, Van-Dick, Rembrandt, Alberto Durer, Gerard Dow, Tenniers, Titiano, entre outros; A galeria dos Duques de Medinacelli com pinturas de Rubens, Van-Dyck, Velasques, Murillo, Salvador Roza, Paulo Veroneso, entre outros.

A 12 quilómetros de Madrid existe uma grande quinta real, chamada o Pardo, onde se sustenta abundante caça; e a 62 quilómetros outra magnífica, chamada a Granja, «com um rico palacio, bellos jardins, parque, rico jogo d’aguas e boas estatuas. Na estrada d’Alicante, a 42 kilometros (…) a excellente quinta d’Aranjuez, sobre o Tejo, que lhe serve de lago»63. Na opinião do autor do Guia do amador de bellas artes, Escurial, é uma vila «que só tem de notavel o palacio e convento d’este nome (…). Na sacristia existe a melhor tela do nosso pintor Claudio Coelho, de 26 palmos d’altura por 13 de largura (…)»64.

Em grande velocidade de ideias e novidades

O tempo desperta um novo interesse pela vida mundana, mais ligado a manifestações sociais de rua que se assistem nos boulevards. Os viajantes ligam-se (conscientemente, ou não) a um certo dandismo revivalista do estilo da Regência, ao qual se acrescentam novos matizes como o culto do artificialismo e do exotismo tão ao gosto de finais do século65. Este é um dandismo com diferentes contornos, um voyerismo semi-inconsciente, ou mero comportamento turístico então inovador, que tão-somente desperta a curiosidade pelo outro observado.

A presente reflexão sobre a importância da arte, património e cultura artística das cidades europeias – retirada da referida tese de doutoramento defendida em 2014 na USC –, inclui-se na descrição de viagens de portugueses eruditos (artistas, críticos de arte, diplomatas, escritores, jornalistas, políticos), ou de meros viajantes curiosos (como é o caso de D.M. de M.G.). Viajam, registam impressões e publicam-nas em periódicos e livros com a ideia de trazerem para Portugal as novidades do tempo, bem como com a preocupação da conservação e promoção do património artístico que se faz através do olhar ao outro.

Acabamos por concluir que os viajantes portugueses se entusiasmam mormente com o que é novo e está em voga, se bem que não esqueçam uma visita aos espólios museológicos históricos e de referência que acabam por ser sempre os mais visitados. A maioria queixa-se da falta que um museu nacional faz em Portugal66.

A tese de doutoramento por nós defendida em 2014 – intitulada Impressões sobre a arte e o património nas cidades europeias mais visitadas por viajantes portugueses (Londres, Madrid, Nápoles e Paris): Notas para o estudo de uma sensibilidade estética (1860-1910) –, onde o Guia do amador de Bellas-Artes e seu autor são estudados, apresenta, ainda, uma perspetiva não apenas artística, mas sociocultural e histórica, num período em que a viagem assume também um papel turístico, ligando-se a circuitos organizados por agências e guias, e ganhando, o viajante, o estatuto de turista então inovador. D.M. de M.G. é exemplo disso, revelando na única obra que publica o interesse especial pelas artes plásticas e muito particular pela pintura.

Noutros trabalhos académicos, encontramos ainda referências a Daniel Martins de Moura Guimarães, pela visão que o viajante burguês nobilitado tem no seu tempo – nomeadamente, a de contratar para a obra do Grande Hotel do Porto, fundado em188067, o arquiteto José Geraldo da Silva Sardinha (1848-1942), que Maria do Carmo Marques Pires trata no VII Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte (2005)68, a propósito de estudos arquitetónicos, consultando o guia deste autor viajante que é abordado; D.M. de M.G. é, igualmente, referido na tese de doutoramento apresentada em 1993 à FLUP, por Jorge Fernandes Alves, a propósito do tema Os Brasileiros. Emigração e retorno no Porto Oitocentista.

No entanto, o seu guia inédito não é estudado e trata-se de um contributo muito importante para as artes e para a literatura de viagens. Neste guia de belas-artes, o autor69 descreve tudo o que se conhece e se pode ver sobre a arte e o património na Europa70 – guia que é referenciado pelo historiador José-Augusto França, mas apenas pelo que escreve sobre os palacetes em Lisboa, como tipologia representante do «fenómeno que traduz uma promoção social necessária para dar quadros ao liberalismo triunfante»71.

Para escrever o guia, com início em Portugal e extensão aos confins da Europa – apresentando um encarte, no final, com mapa completo de linhas férreas construídas e em construção –, D.M. de M.G. faz cerca de 20 viagens só a Londres. Imaginamos que tenha realizado outras tantas às cidades que descreve e que tenha feito da própria vida uma longa viagem, tendo-se suicidado a bordo de um navio antes de chegar ao Rio de Janeiro. Segundo consta, por perder no jogo o Grande Hotel do Porto que dá grande rendimento ao viajante empreendedor e à família – uma questão camuflada que nos é revelada à data da pesquisa por descendentes.

Refletindo à luz da mentalidade de Oitocentos, com todas as influências românticas e mormente orientais, e tendo em conta tantos intelectuais que colocam termo à vida, concluímos que esta se trata de uma questão de honra mais do que desespero. Rematamos, por fim, que não encontramos nenhum estudo particular dedicado à observação das artes e do património em capitais europeias e por parte de autores viajantes portugueses estudados, sendo mais frequente, o contrário: as visitas de viajantes estrangeiros a Portugal e ao mundo.

1GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura – Guia do amador de Bellas-Artes. Porto: Typographia Commercial, 1871.p. 4.

2 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., p. 293.

3 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 330-333.

4 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 559-610.

5O TRIPEIRO, 7ª série, ano XV (1995), N.º 1-2 (janeiro/ fevereiro), pp. 41-46, e N.º 3, pp. 84-88.

6 JORNAL O Primeiro de Janeiro, 1968. Artigo intitulado Há 75 anos, informa da morte ocorrida no Rio de Janeiro, em 1893, deste fundador-proprietário do Grande Hotel do Porto. Apud PIRES, Maria do Carmo Marques – O ArquitectoJosé Geraldo da Silva Sardinha – Construtor de Espaços de Passagem, Encontros e Permanências. Porto: Actas do VII Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte, 2005. p. 353.

7 Em Vigo, situa-se o primeiro centro conserveiro peninsular – o que coloca a região da Galiza, na liderança da produção espanhola neste sector. Vd. CAMPOS, Ana – O relacionamento Portugal-Galiza: das afinidades históricas e linguísticas à cooperação económica. Porto: FLUP, 2009. p. 41. 

8 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura – Guia do amador de bellas-artes. Porto: Typographia Commercial, 1871. p. 64.

9 Idem, p. 64.

10 VASCONCELLOS, A. A. Teixeira de – Viagens na terra alheia. De Paris a Madrid. Lisboa: Typographia do Futuro, 1863. p. 18.

11GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura (D. M. de M. G.) – Guia do amador de bellas artes. Porto: Typographia Commercial, 1871. p. 64.

12 Carlos Lemaur é uma das figuras mais destacadas do Corpo de Engenheiros Militares de Espanha do século XVIII. Natural da região de Champanhe, França, radica-se em Espanha a partir de 1750 por influência do marquês de la Ensenada, começando a trabalhar na Galiza. Vd. GONZÁLEZ, María Soledad Pita – Carlos Lemaur: Ingeniero militar, arquitecto e impulsor del desarrollo económico de Galicia en el siglo XVIII. Cáceres: Universidade de Estremadura, revista Norba-Arte, vol. XXVIII-XXIX, 2008-2009. pp. 102, 104. Disponível em https://www.google.pt/?gws_rd=ssl#q=carlos+lemaur (2 de fevereiro de 2015, 20h37).

13 Disponível em http://wikitravel.org/pt/Santiago_de_Compostela (2 de fevereiro de 2015, 00h55).

14 NOGUERA, J. Esteban – Espacio público. La ordenación urbanística: conceptos, herramientas y prácticas. Barcelona: Ària de Cooperació, 2007. p. 97. Apud MONTERO, Juan M. Monterroso – EL centro histórico. La creación de una consciência cultural. El caso de Santiago de Compostela. Porto: Actas do Seminário Centros Históricos: Passado e Presente, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011. pp. 39-69, 45.

15 O mapa cognitivo é um sistema de representação multimodal. Existe, sem dúvida, uma representação análoga ou imaginária de algumas relações espaciais, mas a informação do espaço organiza-se categoricamente e vê-se modelada por esquemas cognitivos. É flexível e dinâmico, um modo de pensar e resolver problemas na nossa interacção com o meio. Vd. VEGA, M. de – Introducción a la psicología cognitiva. Madrid: Alianza, 1984. p. 50. Apud MONTERO, Juan M. Monterroso – El centro histórico. La creación de una consciência cultural. El caso de Santiago de Compostela. Porto: Actas do Seminário Centros Históricos: Passado e Presente, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011. pp. 39-69, 46.

16 «Es reseñable que este plano de 1886, incluido en la Guía Histórica, Artística, Arqueológica y Militar de la Antigua Capital de Galicia. Santiago de Compostela, escrita por B. Barreiro de V.V., director de la Revista de Antigüedades, Galicia Diplomática, se organiza a través de XII grandes apartados que siguen la antigua distribución de las parroquias, ―cuyo número de orden sirve para el de campanadas de incendios en esta forma‖: I.- San Félix de so-Lobio, II.- San Juan, III.- San Andrés, IV.- San Miguel d‘os Agros, V.- Santa María de Salomé, VI.- San Benito del Campo, VII.- Santa María del Camino, VIII.- San Fructuoso, IX.- Santa Susana, X.- Santa María la Real del Sar, XI.-Real Hospital, XII.- Santa María de la Corticela, y Alrededores». MONTERO, Juan M. Monterroso – El centro histórico. La creación de una consciência cultural. El caso de Santiago de Compostela. Porto: Actas do Seminário Centros Históricos: Passado e Presente, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011. pp. 39-69, 46.

17 Curiosamente, D.M. de M.G. refere-se a Santiago de Compostela como a «antiga capital da Galiza», pelo que não é capital à época e nunca foi.

18 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., p. 64.

19 Idem, p. 64.

20Idem, pp. 64-65.

21 Idem, p. 65.

22 Idem, p. 65.

23 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., p. 65.

24 Idem, p. 66.

25Idem, p. 63.

26Idem, p. 63.

27Idem,p. 66.

28Idem, p. 67.

29Idem, p. 67.

30 Pintor, escultor e arquiteto espanhol da Renascença (1488-1561).

31 Gregório Fernández (1576-1636), escultor do barroco espanhol.

32 Pintor do barroco espanhol (1611-1678).

33 Pintor Italiano (1560-1610).

34 Um dos mais influentes pintores da Renascença veneziana (1510-1592).

35 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 80-81.

36Idem, pp. 82-83.

37 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 84-85.

38 Idem, pp. 85-86.

39Idem, pp. 86-88.

40GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura , op. cit., p. 89.

41Idem, p. 90.

42Idem, pp. 92-93.

43 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 93-94.

44Idem, p. 95.

45Idem, pp. 95-96.

46 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 97-98.

47Idem, p. 98.

48Idem, pp. 99-102.

49 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 102-105.

50 O ano de 1870, numa altura de grande instabilidade aquando da guerra Franco-Prussiana, marca o abandono imposto a todos os pensionistas estrangeiros (especialmente, em Paris). Vd. PIRES, Maria do Carmo Marques – O Arquitecto José Geraldo da Silva Sardinha – Construtor de Espaços de Passagem, Encontros e Permanências. Porto: FLUP, 2005. p. 350. Dissertação de Mestrado em História da Arte, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

51 A edificação do palácio esteve primeiramente sob a responsabilidade do arquiteto Sacchetti e posteriormente é encarregada a Sabatini (1722-1797), que edifica a ala sudeste e a escada de honra.

52 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura (D. M. de M. G.), op. cit., pp. 68-69.

53Idem, p. 69.

54Idem, p. 70.

55 Pintor, arquiteto e escultor espanhol (1601-1667).

56 Pintor espanhol (c. 1510-1586).

57 Pintor espanhol (1655-1726).

58 Pintor napolitano (1634-1705).

59 Arquiteto espanhol (1717-1785).

60 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 70-72.

61 GUIMARÃES, Daniel Martins de Moura, op. cit., pp. 76-77.

62Idem, p. 78.

63Idem, pp. 78-80.

64Idem, pp. 80-81.

65 Derivado do termo inglês dandy, o dandismo é um fenómeno que se começa a delinear na viragem do século XVIII para o século XIX, no período da Regência inglesa (1800-1830). Rejeitando os valores burgueses, o dandy defende um sentimento de superioridade elitista no dia-a-dia votado ao ócio. Brummel, Lord Byron, Edward Bulwer e Disraeli são figuras carismáticas ligadas ao movimento que influencia França, o país mais permeável à voga da anglomania e dandismo e de onde se destacam casos como Alfred d’ Orsay e Barbey d’ Aurevilly. Em França, o dandismo ganha novos contornos, sendo revitalizado por Charles Baudelaire na década de 60 apoiado na doutrina da Arte pela Arte e no Esteticismo. A vida e a arte constituem um todo onde a vulgaridade não tem espaço e, assim, o dandismo abre caminho às posturas decadentistas do fim do século representadas por Huysmans em França e por Oscar Wilde em Inglaterra. Com estas figuras, a importância da moda masculina integra-se numa sofisticação aristocrática que faz reviver o estilo da Regência. Disponível em http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=703&Itemid=2 (8 de dezembro de 2014, 12h05).

66Existe apenas no Porto o Museu Allen (1836-1848), ligado ao Ateneu D. Pedro em 1853, nacionalizado por fim em por manifestação dos portuenses. Com boa coleção de arte adquirida por João Allen e, segundo o historiador e crítico Athanasius Raczynski (-) a única importante organizada em Portugal durante a primeira metade do século. ALMEIDA, António Manuel Passos – Museu Municipal do Porto: Das origens à sua extinção (1836-1940). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2008, Dissertação de Mestrado em Ciências e Técnicas do Património. p. 42. Apud OSÓRIO, Helena Cristina Afonso de Azevedo – Ambientes decorativos românticos em casas nobres do Norte de Portugal. Expressões oitocentistas e sua permanência até ao século XX. Porto: Universidade Católica Portuguesa, Escola das Artes, 2008, Dissertação de Mestrado em Artes Decorativas. pp. 35, 40.

67 É fundador do Grande Hotel do Porto que o perde no jogo, originando o suicídio a bordo de um navio a caminho do Brasil. Informação confirmada pelo bisneto portuense, Roberto Machado, no final do ano de 2011, pois o que está registado na imprensa da época e em obras anteriores à presente tese é que o autor falece no Rio de Janeiro por razão desconhecida e não por suicídio, a caminho do Brasil, tendo o corpo sido atirado ao mar. O mesmo acontece na rubrica «Há 75 anos…» do jornal O Primeiro de Janeiro publicado em 1968: «Um telegrama particular do Rio de Janeiro transmitiu ontem a infausta notícia de ter falecido ali (…). Não temos informações da moléstia que vitimou esse nosso velho amigo (…). Na vida íntima, era simplesmente adorável e adorado dos seus dois filhos (…)» que, eventualmente, encomendam a notícia pelo bom nome do pai.

68 PIRES, Maria do Carmo Marques – O Arquiteto José Geraldo da Silva Sardinha – Construtor de Espaços de Passagem, Encontros e Permanências. Porto: Atas do VII Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte, 2005.

69 Francisco Queiroz também o analisa, na tese de doutoramento apresentada em 2002 à FLUP, no âmbito da capela que manda erigir no Cemitério da Lapa e que não chega a ser a sua morada eterna. QUEIROZ, José Francisco Ferreira – Os Cemitérios do Porto e a Arte Funerária Oitocentista em Portugal – Consolidação da Vivência Romântica na Perpetuação da Memória. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2002. p. 549. Dissertação de doutoramento em História da Arte em Portugal apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

70 No mesmo artigo do jornal O Primeiro de Janeiro (1968), referenciado anteriormente, lê-se: «(…) mais se poliu, finda a carreira comercial, em longas e repetidas viagens na Europa e ainda numa digressão à Palestina. A sua conversação, cheia de anedotas e de notícias das coisas que tinha visto, era deveras interessante. Escreveu um livro, reprodução despretensiosa e singela das suas impressões de viagem aos Lugares-Santos, livro que distribui pelos seus amigos. De tantas coisas que o enfeitiçaram na Europa, e principalmente no Oriente (…)».

71 «Em 71, um ‘Guia do Amador de Belas-Artes’, fazendo o inventário dos palácios mais notáveis, falava de gente antiga e de gente do novo regime, destacando dentro desta o Barcelinhos, o Junqueira, o Gandarinha, o Bessone, todos viscondes, além do José Maria Eugénio. Mas outros havia, igualmente ou mais significativos, como construtores que importa citar». FRANÇA, José-Augusto – A Arte em Portugal no Século XIX. Lisboa: Livraria Bertrand, 1967, Vol. I. p. 347. Numa outra obra anterior, o referido historiador e crítico de arte acrescenta que o Guia do Amador de Belas-Artes, regista apenas dois edifícios recentes, nunca revelando o autor do guia que se identifica apenas com as iniciais do nome (D.M. de M.G.). FRANÇA, José-Augusto – O romantismo em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 1966, Vol. V. pp. 912-913.

Autor(es)
Ano 2016
Tipo Artigo de opinião em jornal, Artigo electrónico
Publicação Revista Abrente, 46
Páginas 275-297
Editora Boletín de la Real Academia Gallega de Bellas Artes de Nuestra Señora del Rosario
Local Galiza, Espanha
Ed/Org 2014
ISBN / ISSN ISSN: 0212-6117
Idioma Português
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