Caprichos

Quem desenha participa de um jogo muito complexo de representações, ainda que frequentemente o faça de forma involuntária. Este jogo ultrapassa em larga medida o que o desenhador enuncia no plano da imagem. Integra-o, mas não se confunde com ele.
Em primeiro lugar, há a representação que o artista tem de si próprio, manifesta na exterioridade do traço e nas imagens com que se apresenta; em segundo, o valor de uso que a sociedade atribui aos desenhos, como mediadores simbólicos do conhecimento, do pensamento, da percepção — em suma, dos seus habitus; mas há também, simultaneamente, a representação que todos fazemos do que são os modelos de actuação do desenho.
Estas representações são fortemente determinadas pelas narrativas de ruptura que moldam a história da arte e a perspectiva pós-disciplinar da cultura visual (cf. Petherbridge, 2011: 412): algumas das principais são as que se fundamentam na hibridização de processos, dispositivos e linguagens, manifesta no lacónico desenho With My Tongue in My Cheek, de Marcel Duchamp; na dissociação entre o óptico e o háptico, ensaiada nos Blind Time Drawings de Robert Morris; ou na dialética do skill-deskill, hoje ligada ao impacto das tecnologias digitais e das imagens de síntese nos processos de representação.
Mas a prática do desenho caracteriza-se sobretudo pelos processos de continuidade e reinvenção daqueles aspectos que, mesmo em estados muito distintos de transformação, emergem continuamente nestes momentos de ruptura, como actos de guerrilha de um inconsciente gráfico que arrepia permanentemente a consciência temporária da contemporaneidade (desenhamos os desenhos que já vimos, como dizia Richard Serra). São os topoi do desenho, os lugares onde se vão buscar os argumentos para desenhar. E estes incluem práticas como a observação directa (que é sempre uma forma dialógica de colaboração com o que se observa) ou a articulação entre o olhar e o gesto; instâncias como a invenção, a apropriação e a cópia; categorias como o finito e o non-finito; conflitos como os que opõem a certeza de um traçado à teatralização da dúvida num gesto que se arrepende do que fez; ou confrontam a substância do contorno, onde o gesto se fixa, com a suspensão da imagem onde o gesto se retrai como reserva — argumentos que cada geração revê, reinventa e reintegra nos seus próprios repertórios.
É por isso que o desenho não é — nunca foi — o exercício de um saber o quê, mas de um saber como: o saber prático onde as imagens se formulam como projecções de um corpo que actua — “e especialmente quando vemos o desenho de uma figura humana, somos inevitavelmente confrontados com isso” (Rosand, 2002: 16) — mas também de um saber retórico  que põe em crise o uso normal das imagens e dos processos artísticos.
Este saber retórico parece inscrito no próprio nome — desenhar > de-signare > des-significar — e abre espaço para entender o desenho como o exercício consentido de uma irresponsabilidade que desautomatiza a relação que temos com o real, com as imagens e com a própria prática artística, des-significando-as.

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Ano 2012
Tipo Capítulo de Livro, Texto em catálogo
Publicação Make Believe
Editora Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende
Local Gondomar
Idioma Português, English
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