Bruno Vilela: Da Vida e da Morte De Todos Nós…

Oh meu deus ave de rapina

Anjos não são como gente

Estou tão caído

E é tão difícil levantar 1

 

Respondendo sobre de que falava o seu trabalho, Bruno Vilelanos disse em uma entrevista virtual: “da vida e da morte de todos nós”. 2 Essa consciência da morte que leva o homem a constatar o universo de suas limitações, de seu corpo destinado à finitude assombra a humanidade que a registra antes de registrar a própria vida: a necrópole antecede a polis na história de nossos restos.

No desenvolvimento dos aglomerados humanos permanentes encontra-se a prova das inquietações que não têm correspondente no mundo animal. A admissão da morte, da incerteza que ela acarreta e que se manifesta em sepultamentos deliberados e cerimoniais com evidências de apreensão, temor e fascínio pelo desconhecido. Os mortos foram os primeiros a terem uma morada permanente: uma caverna, uma cova assinalada por um monte de pedras, um túmulo coletivo. Eles detêm esse privilégio já em meio às andanças inquietas do homem paleolítico. (LEWIS, Munford, 1982, p. 13).

Se historicamente, porém, a morte ocupa lugar constante na ação humana, a contemporaneidade – e suas conquistas técnicas que a retardam e sonham bani-la – nos proporciona a fuga que empreendemos de nossa fragilidade, do irreversível do destino final. Medo. Não convivemos naturalmente com a morte. A incerteza que ela acarreta amedronta. Hoje muito mais que antes porque temos mais esperança de ganhar ao menos uma partida no eterno jogo contra ela. A lembrança da morte é guardada, portanto na mais esquecida gaveta do nosso arquivo pessoal num processo de negação inconsciente da única certeza que temos desde o início de nossas vidas.

É nessa gaveta largada (e só resgatada, temerosa e temerariamente , quando ela, a morte, chega mais perto) que Vilela vai buscá-la para contrapô-la à vida: esse morrer cotidiano de todos nós. Esse resgate da morte como complemento da vida tem na poética de Vilela sua iconografia feita do universo de pessoas, conceitos, lugares e lembranças ao qual ele recorre em suas múltiplas formas de expressão. Ele conta a sua história e daqueles que cruzam seu caminho através de sua mitologia pessoal.

Stanley Krippner (2002) nos faz refletir sobre mitos e homens: “os mitos como produto da imaginação humana cujo sentido se assenta não em suas denotações literais, mas sim nas suas conotações metafóricas e metafísicas”. 3O Bruno criador de seus próprios mitos  medita, escreve  e recorre ao acervo de seu inconsciente quando afirma que desde criança desenha e pinta seus pesadelos.4 Seu trabalho é para ele literalmente “uma projeção da minha memória aplicada em diversos suportes.Essa mitologia é criada através de ícones pessoais, como fotos de família por exemplo,ou mesmo através do, uso de imagens do inconsciente coletivo.” 5

O ato de vasculhar suas memórias torna-se o produto de uma luta constante contra a anestesia do próximo minuto dentro do contexto de dispersão e apatia em face da velocidade e fugacidade dos fatos e imagens que povoam nossos dias e noites. Bruno se posiciona contra a certeza e o fascínio do final. Munido de detalhes do cotidiano, quer eles abordem a beleza da mulher idealizada, quer eles falem dos fantasmas que emergem das fotos de família resgatadas da poeira e do esquecimento, ele constrói e reconstrói sua história pessoal que é um recorte da história de todos nós.

Caçador de lembranças. Em suas composições restos do cotidiano fazem parceria com o lirismo do artista e estruturam reflexões de imensa sedução sobre o aleatório da vida, sua fragilidade e sua dor. Quem somos nós?

Das mãos do artista nascem imagens que parecem despregadas da nossa velocidade diária. Resultados de meditações, instantes de silêncio, exercício de subjetividade que buscam dar sentido à transitoriedade da vida.

Signo Leão, ascendente em Aquário e lua em Sagitário

 

Bruno Vilelanasceu em Recife no dia 26 de julho de 1977 às dezoito  horas e trinta minutos. Filho de Kátia e Nunes. Cruzamento de socióloga com bancário. Nasceu na Rua Conde da Boa Vista onde iniciou seu processo de abordar o cotidiano acompanhado da mãe. Segundo ela Bruno “odiava ficar em casa e pedia sempre para sair” 6 . Foram, talvez, essas andanças os primeiros subsídios para a criação de seus mitos.

Em torno dos dez anos de idade o artista começou a desenhar bastante. Segundo ele, copiava tudo que via pela frente e vizinhos, colegas de escola e a família foram os referenciais de estímulo para o profissional que se tornaria. Foi um amigo e vizinho, o artista Kilian Glasner, membro de uma tradição familiar envolvida com as artes visuais, que o incentivou a fazer um curso de extensão na Universidade Federal de Pernambuco, em 1993, de desenho de observação – Curso de Desenho Clássico segundo a terminologia da UFPE-que foi seguido por um de pintura na mesma instituição em 1994.

O gosto pelo desenho e pela pintura derivou, na época, em um período de grafitagem que gerou cerca de três anos de pintar, profissionalmente, muros de bares e boates em Recife e no Nordeste. Em 1998 começa a investir na teoria. Estuda História da Arte Ocidental e Crítica de Arte no Museu Murillo La Greca onde juntou essas informações a um Curso de Retrato com Anatomia ambos ministrados pelo professor japonês Shunishi Yamada que vai se transformar em seu mentor durante quase quatro anos. Além dessa experiência teórico/prática ele fez curso de História da Arte Moderna e Contemporânea Ocidental e Curso de História da Arte Contemporânea Brasileira, ambos na Fundação Joaquim Nabuco. A experiência paralela no Curso deArtesPlásticas da UFPE não o conquistou e sua universidade foi sua experiência com o mestre nipônico com quem desenvolveu não só a busca pela técnica como pela espiritualidade. Dele diz Vilela:

Ele foi uma figura fundamental no amadurecimento das minhas concepções artísticas e no aprimoramento estético do meu trabalho. A partir dele intensificou-se também a minha relação com o oriente e com o fogo, a terra, a água e o ar, aspectos muito presentes em minha obra 7

 

Entre 2000 e 2002 Bruno passa a integrar o Grupo Aleph juntamentecom BrunoVieira, André Aquino e Laís Castro. Novas possibilidades aconteciam no cenário das artes visuais pernambucanas e os jovens artistas iniciavam-se no terreno das experimentações. Essas mudanças solidificaram-se em Recife a partir do aparelhamento da cidade por algumas instituições como o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ) e mais recentemente pelo Museu MurilloLa Greca. Exposiçõese cursos geravam informações mais sólidas para artistas e público e, juntamente com a descentralização do circuito de arte, contribuíam para o surgimento de novos projetos e posicionamentos no universo das artes visuais. Nesse contexto, o Grupo Aleph se propunha a discutir arte e criar projetos e trabalhos.

Com o Aleph Bruno participa do  58 Salão de Arte Contemporânea do Paraná realizado em Curitiba, do 45 0 Salão de Artes de Pernambuco acontecido na Fábrica Tacaruna em Recife  e do Projeto Prima Obra em Brasília onde, de forma alternativa, apresentou O Curador, uma instalação de teor crítico-irônico composta de um armário onde foram arquivados os portfólios  das propostas excluídas de vários artistas, uma mesa e duas cadeiras. O público podia interagir tendo acesso ao material: idéias recusadas e decisões do curador. O objetivo era o questionamento da função desse profissional e seu poder de eliminação. Segundo Bruno, a instalação foi apresentada na FUNARTE de Brasília – onde aconteceu o projeto Prima Obra, no Salão de Pernambuco e do Paraná anteriormente citados e na Galeria Massangana da Fundação Joaquim Nabuco em Recife.

Ainda integrante do Aleph, Vilela participou de outra instalação: Mercopan, que aconteceu no Instituto de Arte Contemporânea de Recife. Para a sua realização, o grupo contou com o apoio de uma empresa farmacêutica, a Pharmus. O Mercopan era um remédio fictício criado para curar artistas preocupados apenasem ganhar dinheiro. As caixas foram numeradas e seriadas e colocadas em uma redoma de vidro ao lado de cartelas com o medicamento e a sua bula. Nas paredes, silhuetas de artistas tomados pela mercadolite doença curável pelo remédio. Um vídeo com a duração de cinco minutos completava a instalação.

Bruno Vilelaparticipa de várias coletivas com e sem o Aleph, que se dissolve em 2002. Segue carreira solo e mostra seu trabalho na 1 aBienal de Desenho de João Pessoa realizada no Espaço Cultural da FUNJOP em 2002; na mostra Identidades: O artista no Divã realizada na Galeria Capibaribe no Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco também em 2002;no Salão de Artes de João Pessoa realizado no Casarão 33 pela Funesc em 2003; na Coletiva de Abertura da Galeria Dumaresq em Recife; no SPA das Artes em Recife em 2004 e no 1º Salão Aberto realizado pela Cooperativa dos Artistas de São Paulo também naquele ano. Mais recentemente, em 2007, ele participa da mostra Verde Cinza realizada no Espaço Ciência em Recife e da exposição Linguagens também em Recife na Torre Malakoff. Em 2008 expõe com outros artistas na Galeria COHAB, Galeria Espaço Piloto, na UNB em Brasília; participa do Projeto Fora do Eixo realizado também no mesmo espaço brasiliense e da coletiva Amplificadores no Museu Murillo La Greca e Premio Internacional de Pintura de Macau em 2001.

São, porém, suas individuais que definem sua trajetória. Na Fundação Joaquim Nabuco, já em 2002, na Galeria Baobá, ele mostra A imagem no 1, em técnica mista com uma diversidade de materiais propositalmente excessiva fazendo referência à cultura de massa e seu excesso de imagens e informações . Para expressar esse contexto ele se apropria de imagens e objetos e tenta uma síntese de suas ambivalências existenciais onde tradição e contemporaneidade e principalmente ousadia cumprem sua missão de provocar

É, principalmente, essa ousadia que o faz, em 2006, assumir o desenho, pintura e a fotografia como seus meios de expressão preferidos. Para ele a visão contemporânea, que considera ultrapassados esses veículos, traz como conseqüência seu investir na valorização dessas formas de expressão e, militante, assinar o Manifesto não Conceitual onde expõe idéias que vão de Terencio às suas próprias reflexões. É esse o estado de espírito que embasa seus dois trabalhos: Bijinga que apresenta na Galeria Dumaresq e Réquiem sobre papel no Museu Murillo La Greca cujo título revela a alma da mostra: em comum o resgate do desenho e da pintura.

Na exposição da Dumaresq, ele vai buscar a síntese entre sua visão ocidental da mulher idealizada (Bijinga é o nome milenar dado a pintura japonesa que tem como objetivo a busca pela mulher perfeita) e a influência de seu mestre japonês Shunishi Yamada. Suas deusas, produtos do imaginário coletivo divulgado pela mídia, têm a eternidade dos quinze minutos de paixão que o artista lhes dedicou enquanto personagens dos filmes nos quais Bruno as descobriu e as amou. É a conseqüência de um diálogo entre a tradição milenar oriental e a efemeridade de nossa cultura visual. Em paralelo aos seus ícones femininos Bruno, então integrante do Coletivo Branco do Olho 8,  mostra em outro espaço da galeria,  fotografias onde o elevador do prédio onde reside é abstraído em um conjunto de traços  que conduzem o espectador para uma dimensão alternativa do que seria a realidade que, apropriadamente, ele denomina de Fissuras do Escape.

A morte e a memória, a transcendência e a busca pelo sublime constituem o universo sobre o qual ele se debruça na mostra Réquiem sobre papel, realizada seis meses depois no museu MurilloLa Greca. O trabalho celebra o diálogo entre pintura e fotografia e exercita suas interrogações sobre nossa efemeridade através de um material arrancado de suas lembranças. Segundo suas próprias palavras:

Um dia, mexendo nas coisas velhas da minha mãe, achei uma grande caixa com fotos antigas, o cheiro do mofo, as figuras pálidas, não – saturadas, todas as referências da minha família estavam ali, numa simples caixa. Em poucos minutos as lágrimas já me tomavam, parentes mortos, outros que nunca conheci, e mesmo os que tive a oportunidade de conviver, ali naquelas imagens, não existiam mais, eram fantasmas vivos na minha frente.9 

A solidão, o medo, a impossibilidade de comunicação são os questionamentos jogados na cara do espectador na mostra que se segue: Quando dez mil vozes se calam, que encontra seu espaço nas instalações do Branco do Olho em 2007. São fotografias de uma mulher em ambientes diversificados e, de certa forma, contrastantes. Essas situações de isolamento e solidão são reforçadas por textos em braile. Clarissa Diniz 10 interpreta o (os) personagem das cenas cheias de mistério e tensão. A paranóia familiar das cidades contemporâneas expressa na sensação de perigo contagia o espectador. Bruno expõe seu medo, o nosso medo e a impotência diante da situação.

Suas duas últimas mostras também abordam mulheres, tema recorrente em sua obra. Aheroína (ou heroínas) anônima exposta em Famintas Folhas Vermelhas, na Galeria Dumaresq, Recife, em outubro de 2008, é a mulher sem rosto e pernas abertas que atravessa os tempos. Gerações de quase fetos envoltos, às vezes, por sinais que lembram ideogramas japoneses e se contrapõem às meias ocidentais fetichistas.

A outra exposição, Bibbdi Bobbdi Boo, mostra realizada  também em 2008 na Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), na mesma cidade aborda o destino e as lendas que envolvem as boas meninas. Branca de Neve é revisitada. Nas duas ações, Bruno é o caçador. Persegue com sua visão contemporânea, a mulher e o mito em cenas capturadas por um olhar amoroso, mas impiedoso de artista.

A mitologia vileliana não escapa da histórica marginalização da mulher mesmo quando a denuncia. A fêmea que Bruno expõe, nas sociedades de coletae caça possuía um lugar central. Quando a coletase tornou escassa e iniciou-se a necessidade de abate dos grandes animais se instalou a supremacia masculina. O homem começou a dominar o excedente alimentar e, conseqüentemente, a reprodução e a sexualidade feminina.

A mitologia acompanha os fatos. Podemos retraçar os caminhos da espécie através de seus mitos. Na Grécia arcaica, por exemplo, a criadora primária é Géia, a Mãe Terra. Dela nascem todos os protodeuses e as protodeusas entre as quais a própria Réia que vai ser mãe do futuro dominador do Olimpo: Zeus. A partir do segundo milênio AC raras são as sociedades que registram mitos onde a divindade primária seja a mulher. Elas são substituídas por um deus macho, o homem que cria o mundo a partir de si mesmo. Entre essas concepções está a da nossa mitologia cristã. Nela, Javé cria sozinho o mundo em sete dias e, só no final, cria o homem e como subproduto dele, a mulher. Uma mulher que é o símbolo do pecado, pois que seduz o homem afastando-o de um Jardim das Delícias onde o alimento é abundante e colhido sem o trabalho inerente a uma realidade de caça e dificuldades.

A culpa por essa nova realidade é de Eva e o pecado original colocado no ato sexual. O sexo passa a ser mau e limitado às funções procriativas. O desejo dominante agora é o do homem e ele precisa precaver-se contra a mulher, alijá-la das decisões e convencê-la de sua inferioridade.

A religião católica e, mais tarde, a protestante, contribuem decisivamente para essa visão. O braço legitimador foi a inquisição. Ela ligou a transgressão sexual à da fé e puniu as mulheres por isso. O Malleus Maleficarum (o manual de caça às feiticeiras) em uma das suas teses centrais explicita que a mulher está essencialmente ligada à sexualidade e, portanto, agente do demônio, veículo de tentação e perdição. Aquelas que esquecem o corpo aproximam-se da divindade. As outras são queimadas.

Bruno não escapa dessa divisão nem mesmo quando ironiza. Somos todos impotentes diante de nosso condicionamento atávico. Suas deusas fugazes em Bijinga são as mesmas mulheres de pernas escancaradas e sem rostos. Bruno as constata, impotentes e abandonadas, com suas meias multicoloridas ou suas fantasia desfeita de senhoras do castelo. A dualidade , entretanto, permanece e ambos, criador e criatura são impotentes  em relação ao imaginário da história.

Quem ensina sobre armas ao caçador?

 

Quem determina o processo de criação de seu trabalho, segundo o próprio artista, é a memória aplicada em diversos suportes. Paraessa ação enquanto flaneur da vida com linguagem própria, Vilela cruza com algumas poéticas que lhe fornecem subsídios para as três etapas que ele considera como fatores que impulsionam seu trabalho: o prazer fisiológico que é encontrado através do uso das cores, da composição, do desejo de “ver” o objeto; a relação mente/conceito/idéia onde o trabalho mental guia a produção física e o sentimento onde seus desejos inconscientes são transformados em arte. 11

De suas referências iniciais passamos pela inegável e sempre presente influência em sua vida e em sua obra do japonês Shunishi Yamada: através dele lhe chegou a técnica pictórica e a diretriz existencial. Bruno, porém tem um lado autodidata e cosmopolita que é conectado com a arte e sua história. Esse conhecer gerou empatias e influências que se agregaram à sua ação de observação e registro.

Segundo ele, cronologicamente, alguns artistas interferiram nas descobertas e transformações em sua poética 12. Jean-Michel Basquiat 13 teve a gênese de sua obra expressa nos muros e paredes de Nova York: um grafite inicial que ganhou o mundo. Bruno usou o mesmo suporte e técnica em seus primeiros tempos e O entrecruzamento de culturas também esteve (e está) presente em sua vida e em seu trabalho. Rauschenberg 14, , outra referência, une a pintura à comunicação privando esta de sua aura histórica de arte maior. Vilela, por sua vez, investe nas novas mídias e as adiciona ao ato de pintar . Como Rauscehemberg , afirma  não confiar só em idéias e investe nos meios, nos materiais e no processo de investigação que eles desencandeiam.

Com Cindy Sherman15Bruno Vilela compartilha a linguagem cinematográfica. Reconhecimento e estranhamento se juntam na tensão de seus personagens. Como no cinema , alguns espectadores reconhecem as imagens mas não sabem de onde. O código se perdeu na relação do cinema com a vida

De Vic Muniz 16 ele partilha a diversidade de materiais e a magia de desencavar ilusões. Imagens fotográficas envolvidas com  desenho e pintura em uma espécie de documentarismo do cotidiano une a poética dos dois artistas: ambos invocam a memória como cúmplice e se apropriam de imagens que vão empilhando juntamente com os sedimentos de experiências com outros meios de comunicação gerando uma nova iconografia, uma nova linguagem. A sedução barroca  do espectador pelo ilusionismo de ambos é o resultado desejado.

A narrativa fotográfica se conecta também compartilhada com o trabalho de Rosangéla Rennó 17 quando ela comenta as imagens criadas  em textos que as explicam. Bruno expoe a cegueira de seus espectadores quando tenta explicar suas imagens  em braile.

Existe no trabalho de Vilela uma requintada ironia em relação ao hermetismo pictórico modernista. Ele retorna à pintura figurativa como uma espécie de transgressão gerando efeitos de estranhamento não só em relação ao meio de expressão utilizado  mas também à temática. O expressionismo é revisto em todas as suas formas e em Lucien Freud18 nosso caçador encontra mais um parceiro, mais um companheiro de aventura. Ambos têm pontos existenciais em comum:tenacidade e coerência. São avessos a modas e tendências e abertos ao experimentalismo constante, à inquietude e à perturbação diante da vida que se recusa a ser sufocada.

Como o alemão Richter 19, sua outra influência declarada , Bruno assume uma distância plena de ceticismo dos vanguardistas conservadores em relação à pintura por mais paradoxal que possa parecer o conceito.Prefere investir no abandono das convenções formais e testar seus limites enquanto criador. O resultado é a a vitalidade de uma pintura nova resultante da desconstrução dela própria. Imagens antigas e atuais que estabelecem uma espécie de tensão com o já conhecido. Esse é também o elo de ligação com a obra fotográfica de Jeff Wall: 20 uma viagem em uma outra dimensão do real.Recriações a partir do olhar para e sobre o mundo.

Influêcias, cumplicidades… o fato é que para Bruno Vilelae seus companheiros e cúmplices o dia a dia é uma Odisseia cheia de efeitos especiais.

Notas

1.Poema de Tavinho Teixeira in Tavinho Teixeira. Deus somos nós.João Pessoa, Gráfica JB, 1998.

2.Depoimento à autora.2008

3.Krippner , Stanley. Aspectos mitológicos da morte e do morrer,2002.

4.Entrevista concedida a Rodrigo Ataide Mendes do Nascimento in Bruno Vilela, trabalho de conclusão da disciplina Historia da Arte Brasileira ministrada pela Prof. Dra.Madalena Zaccara no Curso deArtes Plásticas da Universidade Federal de Pernambuco, 2006.

5.Depoimento à autora. 2009.

6. Entrevista concedida a Rodrigo Ataide Mendes do Nascimento in Bruno Vilela, trabalho de conclusão da disciplina Historia da Arte Brasileira ministrada pela Prof.Dra.Madalena Zaccara no Curso deArtes Plásticas da Universidade Federal de Pernambuco, 2006.

7.Depoimento à autora. 2008.

8. O Branco do Olho é um grupo recifense que tem a intenção de refletir e discutir sobre a arte produzida na atualidade. Ativo desde 2004, ele é formado por: Clarissa Diniz, Silvia Paes Barreto, Bruno Monteiro, Bruna Rafaella, Luciana Padilha, Lúcia Padilha, Eduardo Romero, João Manoel Feliciano, Bárbara Collier, Zel Garret e Isabela Lucchesi.

9.. Depoimento à autora, 2009

10.ClarissaDiniz égraduada emArtesPlásticas pela Universidade Federal de Pernambuco, crítica de arte, e editora da revista Tatuí..

11. Depoimento a autora, 2009

12  Depoimento à autora, 2009

13 Jean-Michel Basquiat(1960-1988) foi um artista americano neoexpressionista.Iniciou seu trabalho como grafiteiro em Nova York.

14. Robert Rauschenberg (1925 – 2008) , artista americano é considerado um expoente do  neodadá e precursor da Pop Art nos Estados Unidos.

15. Cindy Sherman( 1954- ) é uma artista plástica norte americana que utiliza  também a fotografia como veículo de expressão.

16. O artista paulistano Vik Muniz, tem obras nos principais museus de arte contemporânea do planeta e colecionadores ávidos por suas fotos, que reproduzem meticulosos desenhos feitos a partir de matérias-primas como chocolate, poeira, brinquedos e sucata.

17. Rosangela Rennó nasceu em Belo Horizonte, em 1962. Artista visual. Formadaem Arquitetura pela UFMGe emArtesPlásticas pela Escola Guignard, BH. DoutoraemArtespela Escolade Comunicações eArtesda Universidade de São Paulo.

18. Lucian Michael Freud (1922) é um pintor alemão neoexpressionista filho de pais judeus, neto de Sigmund Freud.

19. Gerhard Richter (1932) é um artista alemão do movimento neoexpressionista. Funde retratos de família com a iconografia jornalística com um realismo austero baseado na fotografia.

20. O fotografo canadense Jeff Wall é um dos artistas mais aclamados de sua geraçãoi. Usa a informática avançada fotográfica para evocar alguns aspectos caros à tradição da arte ocidental como a permanencia, a escala, a composição inerentes às obras dessa tradição.

Referências

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CAVANI, JULIO. O Pop e suas múltiplas expressões. In Diário de Pernambuco, Recife, 10 de maio de 2006.

DEMPSEY, AMY.Estilos, Escolas & Movimentos: Guia enciclopédico da arte moderna.São Paulo: Cosac&Naif,2003.

DINIS, CLARISSA. Cracha: aspéctos da legitimação artística.Recide: Massangana,2008.

KRIPPNER,STANLEY.Aspéctos mitológicos da morte e do morrer.2002.

    MELO, CARLOS. Dentro ou fissuras do escape, e também, a experiência da imagem e mais:    Afirmar compartilhando in http://www.brunovilela.com.br/

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TIBURI, MARCIA. Bruno Vilela ou era uma vez Branca de Neve e outras sonsas in http://www.brunovilela.com.br/

WESCHER, H. La historia Del collage: del cubism a la actualidad.Barcelona: Gilli1980.

VILELA, BRUNO. Manifesto não conceitual in http://www.brunovilela.com.br/

Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro
Publicação O artista contemporâneo: Pernambuco e o ensino da arte
Páginas 72-82
Editora Editora da Universidade Federal de Pernambuco
Local Recife - Brasil
Ed/Org Sebastião Pedrosa
ISBN / ISSN 9788573159165
Idioma Portuguese
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