As Meta-forias de Constança Araújo Amador

Texto para catálogo de exposição, Galeria dos Leões, Universidade do Porto, Porto, 2013

Gostaria que quem olhasse os meus quadros se encontrasse com eles a meio caminho, nem muito perto, nem muito longe… Não sei bem quem o disse ou se foi mesmo assim, penso que terá sido Rembrandt em relação a alguns borrões de tinta, que observados demasiado perto desvaneciam-se e perdiam sentido, por exemplo, pensemos num desfocado Vermeeriano ou numa transparente e quase imperceptível renda de um vestido… Mas se esta ideia de nebulosa e de projeção nos serve para a pintura, servirá certamente como metáfora da arte, da poesia e da vida, seja qual for a sua cor ou aparência – uma condição primordial: nem demasiado explícita e focada nem demasiado vaga e impenetrável.

É assim que me proponho revisitar, premonitoriamente, a exposição e as imagens de Constança Araújo Amador, não como um grupo de desenhos ou pinturas nem, tão pouco, como ilustrações. São sim, na minha perspetiva, meta-forias – inspiradas na insólita compilação de Ramón Gómez de la Serna – que, tais como as páginas de um livro, que também é para folhear, para ser lido aos bocados ou só em parte, se afirmam como uma constelação de inúmeras janelas que se abrem e nos contam episódios tão diferentes como podem ser os curtos espaços de tempo de uma só vida.

À medida que vou divagando sem rumo nestas imagens apercebo-me que cada uma delas tem a sua identidade própria, conta a sua própria estória, mas que ao mesmo tempo, no seu conjunto, coexistem pacificamente definindo várias famílias. Encontro, para além da constante e indelével presença da autora ou, mesmo, da ainda fresca memória dos nossos fugazes cruzamentos matinais, relicários, mandalas e iluminuras, umas mais discretas e nebuladas, outras mais soturnas e focadas. Vejo também rostos, gestos e vulvas… montanhas, árvores, céus e luares, por vezes lágrimas e telhados de vidro, que de um modo mais ou menos explícito, de um modo mais autónomo ou ancorado se desprendem da greguería que lhe esteve na origem. Continuando a deixar-me submergir e sem querer ainda olhar à sua numeração, catalogação ou inventário, demoro-me na figuração vermelha, na nuvem solitária ou nas luas improváveis, umas vezes subtilmente associadas a ícones e referências, outras a símbolos surrealizantes, se é que tal conjugação é verosímil.

Mas se estas por vezes inquietantes imagens podem ter estas leituras – atributos –, umas tendencialmente mais explícitas, outras menos, também expoenciam outras formas, memórias e territórios. Para além da pertinente e sempre bem-vinda memória de Botas e de Cesariny, remetem-nos ainda para improváveis composições musicais, para uma qualquer estação do ano ou estado psíquico, onde dificilmente somos capaz de discernir entre aquilo que é pertença do nosso corpo e aquilo que lhe é exterior.

Mas como nos diz o próprio Serna, o lápis só escreve as sombras das palavras – ao que poderíamos acrescentar, e as imagens as sombras dos sonhos –, ficará a cada um que por aqui passar, desejar, sentir e interpretar aquilo que está a meio do caminho, entre si e as imagens…

[meta – ideia de mudança, união, transformação]

[foria – tendência para desviar os olhos da sua posição normal]

Pedro Maia, Junho de 2013


Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro, Texto em catálogo
Publicação Greguerías, Catálogo de Exposição
Páginas 5-6
Editora Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Local Porto
Ed/Org Amador, Constança Araújo; Machado, Graciela
Idioma Português
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