Arte Sacra: Capela de Santa Anastácia nos 800 Anos da Paróquia da Foz do Douro

 

Interior recuperado da Capela de Santa Anastácia com escultura maneirista da santa romana de família patrícia, ao centro.
 

A inscrição latina que mal se lê na fachada da Capela de Santa Anastácia, na Foz Velha, confirma tratar-se de uma peça edificada em 1340 e 1391, defende Maria Clementina de Carvalho Quaresma, no livro Inventário Artístico de Portugal — Cidade do Porto (1995). Mas há quem defenda seja de finais do século XVI, após 1575 e 1577 a peste ter assolado o Porto, e até ser desconhecida a data da sua fundação.
O Padre Alexandrino Brochado confirma, em O Porto e suas Igrejas Azulejadas (1990), que a dita inscrição em franco desgaste reza ter sido «construída por promessa da população da Foz em agradecimento por não ser atacada pela peste». Assim consta que a capela foi erigida pelos fozeiros, em honra da santa curandeira, mártir e patrícia romana do século IV, aquando da peste que também assolou o Porto em 1486 e depois em 1899. A doença entrou em Portugal no outono de 1348, pressupondo-se que o edifício terá sido erguido antes da peste negra ter devastado a Europa (1347-1353) e tendo em conta a primeira teoria. Porventura por precaução e / ou porque já existia uma suposta ermida em seu lugar que terá sido aumentada e alterada com as tendências artísticas de então. Como comprovam os raros e ainda visíveis elementos arquitectónicos e decorativos de época.
Duas cruzes de pedra em pontos opostos, sugerem a existência de duas fachadas, porventura a primeira virada à foz do rio que se terá voltado numa fase posterior à vila e seu núcleo central, sendo no século XIX cercada de casas com quintais que a abafaram. O local onde foi erguida a suposta e remota ermida seria um monte de areia. Prova-o a pintura sobre madeira no revés de um quadro do Barão de Forrester (1809-1861), oferecido a D. Antónia (a Ferreirinha), e na posse da família. A pintura ilustra a explanada do castelo e uma popular inclinada sobre o poço que existiu no pátio do Hotel Boa-Vista até às últimas obras de ampliação no final do século XX. O poço do areal no monte fazia ligação com o poço do castelo, também ilustrado na pintura do barão que revela um antigo segredo.
A antiguidade do casario em ‘U’, em frente à capela, formando um conjunto semelhante ao de um paço, e a do casario que a circunda, fundamenta a teoria de que a ermida estaria isolada, implantada no monte ainda integrado no areal no seguimento das praias. Parte do castelo era banhada pelo mar.
O património arquitectónico da face da rua junto à capela remonta ao século XIX-XX, enquanto que aquele arvorado em frente da mesma exalta elementos do século XVI-XVII, nomeadamente na cantaria com pilastras de base bojudas, frisos e capitéis de cornija saliente e cachorros enrolados com estrias, suportando varandas gradeadas e pouco salientes. Inicialmente composto por piso térreo e primeiro andar, este casario ganhou mirantes no século XIX voltados ao rio e mar.
Por observação, constatamos o horizontalismo do edifício de culto religioso e a parede lateral muito espessa e arredondada como característicos do Românico. Sendo que a única e ampla janela lateral existente afirma a verticalidade de uma Baixa Idade Média. A mesma contrasta com as mais pequenas janelas predominantes no frontispício que distingue a dita inscrição, por hipótese aí colocada posteriormente quando a capela terá sido aumentada no século XVI-XVII, talvez ganhando arco com sino e cruz (séculos XV-XVII). Consta porém que, em 1869, foi anexada à capela uma pequena casa a nascente porventura anterior e que completa hoje o desenho da fachada principal distinguindo o arco sineiro.

Rematada por frontão triangular encimado por cruz de pedra e pirâmides laterais, a capela revestida de azulejo no século XIX, apresenta à esquerda o referido corpo que parece ser o primitivo (e estaria desligado) com porta descentrada e, no enfiamento desta, uma janela encimada por nicho vazado, onde se destaca o sino rematado por cruz de pedra.

O corpo da direita distingue porta central ladeada por janelas gradeadas, por cima das quais consta a inscrição latina já pouco legível e, no mesmo enfiamento da porta, uma janela.

O corpo interior compõe-se de um varandim a todo o comprimento, assente em colunas de granito. No coro alto, as grades são de madeira, com colunas também de madeira no enfiamento das de pedra. O tecto em madeira, porventura anteriormente pintado, levou uma velatura em cor pérola, assim como toda a estrutura de madeira. O antigo órgão (segundo consta, belíssimo) foi substituído por um contemporâneo. Desapareceram também os inúmeros genuflexórios de madeira esculpida, as cadeiras de ajoelhar com encosto e os bancos de pregaria de várias épocas e estilos, todos com almofadas de damasco e com o nome dos seus utilizadores, na maioria senhoras, os quais conservavam a atmosfera medieval da origem do templo. Deram lugar a bancos corridos de madeira mais práticos e populares.

Ainda no livro Foz do Douro de 1216 a 2016 — 800 anos da Paróquia de São João Batista, o Cónego Rui Osório informa que as últimas obras de conservação de 1998 sacrificaram o altar-mor e a azulejaria oitocentista do exterior e meias-paredes do interior. Segundo Agostinho Guimarães, em Azulejos do Porto (1989), este revestimento formava um tapete de padronagem que remetia aos anos 80 do século XIX, sendo o desenho azul sobre branco como era comum nos edifícios religiosos da época.

Maria Clementina de Carvalho Quaresma, em Inventário Artístico de Portugal — Cidade do Porto (1995), diz ainda que o lambrim de azulejo do interior retirado em 1998 apresentava figuras geométricas em azul claro e castanho escuro. Resta um painel em sua memória.

Interiormente, a capela apresenta-se muito simples. Possuía um altar branco e ouro neoclássico que foi retirado e substituído pelo altar barroco da Senhora da Luz. Assim, no lugar de honra que cabia a Nossa Senhora da Piedade, passou a figurar a imagem de Santa Anastácia ligada ao maneirismo português (século XVI). Outras esculturas sobressaem em mísulas, compondo o retábulo, tais como São João, Sagrado Coração de Jesus, Santo Coração de Maria e Santas Mães. Sendo que, à esquerda, figura também São Brás.

Os interiores testemunham esse tempo remoto na colunata de pedra e tecto de madeira em caixotão que imaginamos ter sido pintado, tal como a cúpula abobadada da matriz renascentista ainda com vestígios de figuras alongadas policromadas nos anos 70 do século XX.

A capela fica na rua Padre Luís Cabral (antes rua Central), por detrás da Esplanada do Castelo, no largo onde outrora existia o paço da antiga vila com prisão, serviços camarários e arquivo, persistindo hoje este conjunto de edifícios já descaracterizados nas mãos de locais. (Num tempo em que só contam as fachadas, ou nem isso.)

Segundo o Cónego Rui Osório, a capela chegou a servir de igreja matriz durante o período que mediou entre as obras do Castelo da Foz e a construção da actual matriz barroca iniciada no século XVII.

A tradição oral diz que a antiga prisão se situava à esquerda do conjunto. Sofreu um incêndio e foi recentemente recuperada, mantendo a cantaria e outras características do século XVI-XVII, e ganhando um torreão no século XIX. O mesmo aconteceu com as casas ao lado muito intervencionadas e já despidas de elementos decorativos, apresentando a de esquina que fecha com a primeira o conjunto, formando o largo, algumas características do século XVII-XVIII.

Corta-as a meio uma das 14 estações da Via Sacra, com moldura em pedra amplamente decorada ao gosto do barroco. Aí terá existido uma viela de acesso aos quintais (como a que se segue fechada por portão). Como poderia achar-se uma via de ligação ao alto da vila, à chamada rua Alto de Vila, como aquela sinuosa adiante, com o nome de rua de D. Miguel da Silva, com reminiscências castrejas. Dispondo antes de calçada de pedra irregular, acabou por ser alcatroada, desvalorizando o percurso.

O Cónego Rui Osório, também no livro Foz do Douro de 1216 a 2016 — 800 Anos da Paróquia de São João Batista (2015), confirma que os monges beneditinos estiveram na igreja renascentista do castelo até 1647, embora vivessem, fora do mosteiro velho, em casa própria, na rua da Cerca, servindo-se da Capela de Santa Anastácia para o culto paroquial enquanto se faziam obras na nova igreja do Monte com vista para a Cantareira e Passeio Alegre, hoje Igreja Matriz.

Os beneditinos habitavam porventura a casa renascentista recuperada e agraciada com o Prémio João de Almada 2004, por melhor reabilitação do património arquitectónico do Porto, talvez ligada às vizinhas da rua da Cerca já com intervenções do século XIX e à da rua da Senhora da Luz onde ainda se observam o par de torreões, a cantaria do século XVI-XVII e a arcaria de um eventual claustro. Uma pequena parte da cerca desta casa, melhor dizendo a zona agrícola, ainda existia nos anos 70-80 do século XX.

Note-se que a Foz do Douro foi couto do Mosteiro de Santo Tirso, cuja paróquia foi fundada em 1216 e a dependência só terminou em 1834. Isabel Pinto Osório, em O Porto das Mil Idades — Arqueologia da Cidade (1993), escreve que, em 1176, a ermida e sua herdade encontravam-se na posse de Soeiro Mendes da Maia que as doou em testamento ao Mosteiro de Santo Tirso de Riba d’Ave. Em 1211, D. Mafalda, filha de D. Sancho I, coutou a ermida e propriedades envolventes ao Mosteiro de Santo Tirso.

A historiadora informa ainda que, nas escavações iniciadas em 1987, no castelo, na parede norte do templo, foi reutilizada como pedra de construção uma ara romana. O corpo rectangular e cabeceira quadrangular mais estreita, assim como a tipologia dos materiais cerâmicos detectados, inserem esta construção nos primórdios do século XI, senão em momento anterior, numa fase inicial da Reconquista. As escavações possibilitaram igualmente a identificação de um acrescento do corpo da ermida realizado por volta de finais do século XV.

Perdeu-se o património artístico da igreja renascentista que veio depois desta e o qual aí figurava ainda nos anos 70 do século XX, como sejam o altar e pia baptismal esculpidos em pedra, esta última peça semelhante à do século XV-XVI que se encontra hoje na Capela de Santa Anastácia.

Em 1560, D. Catarina, viúva de D. João III e regente do reino na menoridade do neto D. Sebastião, mandou ao Porto João Gomes da Silva com a missão de fortificar as costas marítimas muito assediadas por piratas argelinos. O historiador Francisco Ribeiro da Silva confirma que este deu início às obras do castelo a 16 de agosto de 1570 por ordem de D. Sebastião.

Germano Silva, em Porto: Caminhos e Memórias (2006), atribui a construção do castelo (Fortaleza de São João da Foz do Douro) que desactivou a igreja renascentista, a D. Miguel da Silva (1480-1556). Este abade comendatário de Santo Tirso, filho do primeiro conde de Portalegre, bispo eleito de Viseu, construiu na Foz do Douro a igreja e o mosteiro velho, hoje cinturados pela muralha da fortaleza. Edificou também, em 1527, o farol-ermida de São Miguel-o-Anjo com quatro colunas, no enfiamento da barra, a meio do Douro, onde colocou uma edícula para albergar uma estátua romana do século III-IV.

A estas obras parece ligar-se o Solar de Sobreiras, cujos interiores foram destruídos já neste século com a sua adaptação a uma clínica. Como memória, restam a inusitada cantaria da fachada e a loggia das traseiras tão característica dos paços medievais.

O tempo tudo apaga quando menos interessa preservar a memória a quem mais ganha com a destruição do património do que com a sua conservação. Há um par de meses, deitou-se abaixo um quarteirão de casas de finais do século XIX e inícios do século XX, viradas a plena rua da Senhora da Luz e imediações. Estas serão substituídas por um único prédio de quatro pisos e sabe Deus com que figura. Não seria melhor classificar a dita rua e as suas obras mais emblemáticas? (Sem esquecer as demais.)

Autor(es)
Ano 2016
Tipo Artigo de opinião em jornal, Artigo electrónico
Publicação Blasting News, 6 março 2016
Editora Blasting News
Local Porto
Ed/Org Helena Osório
Idioma Português
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