Ambientes decorativos românticos em casas nobres do norte de Portugal: Expressões oitocentistas e sua permanência até ao século XX

O século XIX português tem vindo a ser objecto de numerosos estudos, realizados a partir de meados do século XX, cobrindo vários sectores da sua história social, económica, política, cultural. Porém, nem todos os temas são contemplados. Os ambientes decorativos onde todas as artes se harmonizam, integram-se neste quase esquecimento. Alguns ambientes do Romantismo por nós estudados chegaram intactos aos dias de hoje. Outros foram vítimas de partilhas entre herdeiros e da insustentável manutenção das grandes casas. Frisamos bem a reforma inevitável nos ambientes do século XIX porque a mudança de hábitos torna imprescindíveis novos compartimentos temáticos e objectos multifacetados para os decorar. Mas, o respeito pelos ambientes românticos não foi o esperado, até porque a fugaz evolução de gosto, aliada às contingências da sociedade de consumo, arrasa a sua autenticidade.

O facto de serem revivalistas pôs sempre em causa a sua antiguidade. Vamos procurar entendê-lo através dos ambientes românticos apresentados, pois terá chegado a altura de melhor olhar este «estilo novo» ainda considerado de gosto duvidoso e cuja inspiração proveio dos ambientes régios. No norte de Portugal, não faltam casas com ambientes característicos deste período (mais e menos intervencionados).

As artes oitocentistas vão buscar influências a todas as épocas, recriando o passado mais remoto, com o saber artístico, sócio-cultural e já industrializado de então. É esta aprendizagem que nos interessa focar, na medida em que muda o rumo do estar, viver e sentir a partir de um recuo feito até à Idade Média. A moda pelo exótico, complementada pela paixão pela Idade Média, é de todos os revivalismos o mais forte.

Repensando a existência, retirando e acumulando saberes anteriores, o século XIX evolui como o resumo das artes e ciências com interpretação própria. Compreende-mo-lo não apenas como a grande era das mudanças e invenções mas, quase isolado, à mercê dos olhares e especiais sentires de cada indivíduo inserido numa dada família e camada social. As actividades, riqueza e situação social do chefe das casas, bem como as relações entre os seus membros, influenciam a estruturação, desestruturação ou reestruturação das famílias, ora reunindo, ora rejeitando membros conjugais ou parentela, e até mesmo criados. A região pode fazer a diferença e não por acaso nos debruçamos sobre ambientes de casas nobres do norte de Portugal.

Parece-nos óbvio que a região acima do rio Douro, historicamente mais fechada e isolada na sua vida privada – sem esquecermos toda a zona duriense e Beira Alta –, tem melhor conservado valores e tradições ancestrais, transmitidos de geração em geração de famílias nobres e aristocráticas. Pela velocidade das modas, circulação de bens e famílias, adesão a estrangeiros e estrangeirismos, centralização do poder, Lisboa acaba por ser penalizada no que respeita a ambientes oitocentistas intactos. Resta-nos como referência a decoração do Palácio Nacional da Ajuda que poderá ter significado a nível europeu pois até a decoração do Palácio das Tulherias foi destruída pela comuna de Paris em 1871. Em casas civis, os ambientes continuam abertos ao estudo, não se distanciando do comportamento, gosto e viver de uma sociedade sensível ao mais variado tipo de manifestações artísticas.

As casas nobres de Guimarães ganham destaque pois, inicialmente, pensamos debruçar-nos sobre ambientes vimaranenses em exclusivo, num elogio à cidade conhecida como berço da Nacionalidade. A abundância, originalidade e riqueza histórico-artística de exemplos a norte do rio Douro fizeram alterar o nosso rumo, que se estende a outras localidades.

Optamos por um critério geográfico na sua descrição, partindo do Porto para o Alto Minho interior e litoral. Relacionamos, assim, os ambientes da casa do visconde da Gândara, fundada por um brasileiro nobilitado, com os do Palacete Boaventura, também no Porto, e com os da Vila Beatriz na Póvoa de Lanhoso. Como relacionamos outros exemplos.

O fluxo de gentes, entre o campo e a cidade, e mesmo entre outras cidades ou países, cria e fortalece redes de emigração dirigida que origina os brasileiros e o seu estilo florescente transferido para o norte português de onde provinham – o qual se afirma em palácios ostentatórios revivalistas do período joanino, como réplica daqueles que beneficiam dos proventos do Brasil, não permanecendo mais do que três ou quatro gerações.

O Porto mantém um fluxo relativamente estável de emigração, sendo as oscilações mais bruscas provenientes dos distritos envolventes de maior ruralidade – mais sensíveis a alterações sócio-económicas e a momentos de crise. Inicialmente, um fenómeno localizado na faixa litoral do noroeste, a emigração nacional, a partir da década de 80, sofre uma transformação e alastra-se a todas as regiões portuguesas.

Os anos de 1835 e 1880 apresentam-se como datas limite do período romântico maior, já atrás anunciado. Se os primeiros passos românticos são dados em finais do século XVIII e, os derradeiros, se arrastam até inícios do século XX, a sua idade madura jubila durante cerca de 50 anos – o que nos parece ser um período significativo e digno de ser aprofundado.

O ano de 1835 (ou 34, ou 36) marca o termo imposto às obras do Palácio da Ajuda com frustração do projecto neoclássico anterior e morte de Domingos Sequeira (1768-1837) que apresenta marcas de um último vestígio setecentista. Não por acaso, neste mesmo ano de 1835, se afirmam as obras românticas resultantes da nova proposta do ensino oficial de Belas-Artes e do Teatro Nacional. Já 1880 (ou 79) representou a definitiva ruptura das estruturas pombalinas (e tradicionais) de Lisboa, com a chegada de Paris dos artistas que viriam a ser os fundadores nacionais da pintura naturalista.

É, pois, com a derrocada dos Jerónimos imitados por Giuseppe Luigi Cinatti (1808-1879) – e com a morte deste – que se começa a dar por terminada a fase activa do Romantismo. A partir de então, entramos num período de reflexos artísticos que se prolongam no tempo até inícios do século XX e mesmo ao longo do século XX (se bem que tenham sido tantas vezes renegados).

Os ambientes destas casas, erigidas ou apenas intervencionadas em Oitocentos, encontram-se descritos nos romances e opiniões de escritores notáveis, como Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. São eles que perpetuam os modos, gentes, vivências, preconceitos (e conceitos), reflexos de tempos onde o passado nunca se perde. Destacamos seis dos exemplos que nos parecem relevantes em termos de ambientes decorativos românticos, em casas nobres susceptíveis de exercerem uma influência marcante na época, embora tenhamos estudado ambientes de outras casas, dispersas pelo norte português, aos quais vamos fazendo referência.

Acresce ao interesse destes espólios, característicos do acervo de famílias nobres (alguns já desmantelados), a descrição de bens, que nos transporta para a realidade das grandes casas da Nobreza da Corte, fazendo apelo para uma nobreza em ascensão desde a segunda metade do século XVIII. Após a pesquisa de casas nobres, destacamos tanto ambientes preservados como, recentemente, desmantelados por partilhas, sendo a maioria já ecléctica e adaptada ao gosto do século XX.

Consideramos, como exemplos a relevar, as casas de Villar d’Allen e do visconde da Gândara (no Porto), as casas do Carmo, de São Cipriano e de Sezim (em Guimarães) e a casa da Boavista (em Ponte da Barca).

Villar d’Allen, apesar de ter sido remodelada inicialmente por João Allen, é seu filho, Alfredo Allen, 1.º visconde de Villar d’Allen, que a transforma no museu vivo de curiosidades ligadas à família e de naturalia, que se mantém. De todas as estudadas, Villar d’Allen é, porventura, uma das mais românticas na medida em que conserva as memórias e intervenções passadas. A

Já a casa ao estilo classicizante erigida, no Porto Oriental, pelo 1.º visconde da Gândara apresenta aquecimento central por meio de caldeiras num piso subterrâneo e casas de banho com ventilação – à imagem das grandes casas victorianas. Os seus ambientes decorativos relacionam-se (mais do que com quaisquer outros já antes por nós revelados), com os do Palacete Boaventura, construído posteriormente em plena avenida da Boavista da mesma cidade.

A sede do Instituto Arquitecto José Marques da Silva, situada na praça do Marquês da Invicta, constituiu, para nós, mais uma descoberta na medida em que nela descortinámos ambientes e recursos decorativos próximos dos encontrados em casas por nós estudadas. Datável dos anos 80 do século XIX, esta casa sofre uma intervenção por parte de Marques da Silva em 1909. Referenciamos os frescos de paisagem em reserva, à entrada, em muito semelhantes aos de Vila Beatriz (Póvoa de Lanhoso) e Casa da Camarinha em S. Félix da Marinha (Granja); a imponente escadaria inglesa decorada ao estilo da casa do Visconde da Gândara; a pintura de portas-almofadas e corredores, recordando as das casas de Villar d’Allen e da Boavista; a sala de jantar neo-árabe da autoria do referido mestre da Academia do Porto, com reminiscências das casas de S. Cipriano, Camarinha e Boaventura.

Concluímos que tudo se interliga. Os artistas e executantes circulam, apropriando-se de exemplos públicos e transpondo-os nos particulares. Os donos das casas mantinham relações entre si, com troca de saberes.

A Casa do Carmo, ligada à família dos condes de Margaride, em Guimarães, e que recebe os últimos reis de Portugal, encontra-se despida do seu recheio, disperso pela família que vendeu o imóvel há alguns anos. Esperemos se mantenham preservados as pinturas murais, os papéis franceses, os estuques, os têxteis, a talha, o mobiliário, os objectos e os sanitários de porcelana pintada.

No mesmo concelho, Nicola Bigaglia (1841-1908) é chamado a intervir no Paço de S. Cipriano depois de projectar a casa hoje conhecida por Museu da Quinta de Santiago em Leça da Palmeira. Ao medievalismo primitivo acrescenta estéticas decorativas e arquitectónicas já enraizadas num Romantismo maduro, que influencia as primeiras décadas do século XX. Compara-mo-lo à Quinta de Pindela cuja casa sofre um último restauro e alargamento, em 1885, operados pelo 2.º visconde de Pindella, amigo pessoal de João Santiago então senhor de S. Cipriano.

Igualmente, em Guimarães, distinguimos a possível contribuição do gosto de Auguste Roquemont (1804-1852), no papel de parede dos salões da Casa de Sezim encomendado e aplicado em pleno romantismo. Este artista passa grandes estadas na referida localidade, deixando a sua marca por várias habitações que visita, valendo-se de uma posição advinda do facto de ser filho bastardo de um príncipe alemão.

Já os ambientes da Casa da Boavista, em Ponte da Barca, são concebidos em finais do século XIX por Bento Malheiro Pereira Pita de Vasconcelos, 4.º visconde da Carreira. Apresentam um gosto inglês, aparentado com Villar d’Allen, sendo uma sua característica a farta luz proveniente das amplas aberturas que permitem o convívio com a natureza. A inspiração provém da Casa da Carreira, dos Távora de Viana do Castelo, actualmente sede da Câmara Municipal desta localidade. As obras ocorridas em Oitocentos são realizadas em simultâneo, tendo os proprietários recorrido aos mesmos artífices.

Importa-nos focar, como um todo, as artes decorativas no domínio privado que circulam dos interiores para os exteriores com alguns elementos constantes de tempos passados. São elas produzidas em Portugal e, primeiro, na Europa do século XIX, pois a realidade nacional perdura sempre como o reflexo tardio das tendências europeias – se bem que, nesta época, a moda ditada em Paris era, em muitos casos, logo seguida em Portugal.

O expor bem, no sentido estético, e na vontade de reter o olhar, não era significativo. O expor muito passa a ser um ideal – como acontece em Villar d’Allen, onde se volta a constituir um pequeno museu de peças íntimas e memórias vivas, em homenagem a João Allen.

Estudámos ainda os ambientes decorativos românticos, montados e desmontados nos jardins, como o prolongamento daqueles vividos nos interiores das casas quando o tempo o permite. Nos jardins, encontramos casas de fresco que se enquadram na arquitectura paisagística de formas ora geométricas ora pretensamente espontâneas.

Salientamos os jardins labirínticos setecentistas do Paço de S. Cipriano, adaptados ao gosto romântico. As janelas da sua Casa da Manteiga são mesmo de arquitectura de raiz renascentista. Este espaço ao ar livre é transportado para as proximidades do tanque setecentista, com aranhões em forma de leão, em inícios do século XX. Todos os tempos se mesclam num só – o que é um ideal romântico.

Noutros jardins, nos próprios arbustos ou espécies arbóreas se talham esconderijos semelhantes a grutas onde se servem bebidas exóticas como chá, café e chocolate. Os espaços ajardinados e mata de Villar d’Allen, formados a partir de várias quintas, estão mais relacionados com o espírito romântico, através da presença de percursos sinuosos, quase selvagens, pontuados por elementos arquitectónicos, evocando ruínas.

Os jardins de Sezim, com labirinto de buxo pontuado por espécies arbóreas e elementos arquitectónicos, ficam mais próximos deste ideal inglês onde as instalações da natureza (na natureza) beneficiam de maior liberdade. De entre as espécies exóticas ressalvamos as cameleiras ou japoneiras trazidas para Portugal desde os Descobrimentos (primeiro da China, depois do Japão) que resultam em espécies com nomes portugueses, como acontece em Villar d’Allen.

Em termos dos arquivos existentes nas casas abordadas, deparamos com uma situação lacunosa. Não podemos afirmar que a documentação escasseie, pois a maior parte das casas estudadas tiveram a fortuna de se manterem no seio das mesmas famílias e de serem estimadas. No século XIX e inícios do século XX, há uma real preocupação em acumular memórias e documentos (cartas, postais, recibos, cadernos de contas) e, dos arquivos desorganizados, dispersam documentos fundamentais.

Sem entrarmos em minúcias de análise, gostaríamos de chamar a atenção para o tempo cronológico do século XIX que vai de 1801 a 1900. O corte ou se faz, porém, em 1780 ou em 1820. Nunca, em 1801. Foram estabelecidas balizas que dividem o período oitocentista em três partes e que são caracterizadas por modelos estéticos neoclássicos, românticos e naturalistas. Todos eles interligados pela própria derivação natural. Abrindo uns caminho a outros e estando sempre relacionados, marcando os novos tempos já antes anunciados.

A Europa aparece a propósito de Portugal, funcionando sempre como filtro cultural próprio a quem viaja e está habituado a conviver, no quotidiano, com um património histórico e civilizacional rico.

Os sentires misturados ao saber, geram novos estados do ser, vivências e ambientes. E, estando Inglaterra à frente do Movimento, não nos parece estranho afirmar que a ideia do Romantismo começa com John Constable (1776-1837), Thomas Lawrence (1769-1830) e Richard Parkes Bonnington (1802-1828) – os quais aparecem pela primeira vez, em Paris, a expor uma outra visão da natureza que se distingue pela luz envolvente. Uma visão de transparências atmosféricas e, simultaneamente, turbulentas no tempo e no espaço, assumindo contrastes de luz, sombra e volumes que marcam uma nova era simplificada.

Em Portugal, a crise política dos primeiros anos do século XIX (motivada pelas Invasões Francesas e retirada da Família Real para o Brasil), a morte precoce de Vieira Portuense, a emigração de Domingos Sequeira, tornam efémera a renovação e o desenvolvimento das Belas-Artes nacionais. Mesmo com a instauração do liberalismo e reformas que levam à criação da Academia Portuense de Belas-Artes, a produção artística portuguesa passa ao lado dos movimentos de renovação estética que decorrem, por toda a Europa, desde o final do 1.º quartel do século XIX. Com um programa escolar pouco ambicioso (baseado nos modelos romano e francês do século XVIII) e com dificuldade em beneficiar de formação na Europa, os nossos jovens artistas procuram respostas junto de pintores estrangeiros residentes em Portugal.

Em Portugal, como na Península Ibérica, o Romantismo pictórico surge tardiamente com Roquemont e artistas de formação sólida como Francisco Augusto Metrass (1825-1861) e João António Correia (1822-1896). O horizonte lisbonense e portuense alargam-se dentro de um discurso parisiense. Os temas e expressões invadem todas as artes harmonizadas nos ambientes como uma só. Recriam-se grandes cenários de um teatro vocacionado para despertar emoções.

No que concerne a artes decorativas, em finais do século XIX, o gosto não se reconhece apenas na imitação e falta de imaginação como acontece em França. O acrescido fascínio por mobílias antigas, vai acabando com a moderna marcenaria artística e todos os entalhadores de talento se fazem restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Leandro Braga (1839-1897), natural de Braga, vai aos 14 anos para Lisboa como aprendiz de Inácio de Loiola Caetano, é um discípulo passageiro de Anatole Camels (1862) e abre oficina em Lisboa (1865), trabalhando na sala do Senado e Paços do Concelho. Vive e trabalha como entalhador na segunda metade do século XIX, realizando trabalhos para várias personalidades da alta burguesia e da aristocracia portuguesa, assim como para a Família Real. Faz obra sobretudo para as rainhas, duquesa de Palmela, Carvalho Monteiro – o Monteiro dos Milhões – e marquês da Foz que o protege, leva a viajar por França e Inglaterra, homenageando-o com uma exposição no seu palácio dos Restauradores.

Na década de 1870, é introduzido no Palácio da Ajuda através de D. Fernando, com um contrato para a decoração da sala de jantar da rainha. O ateliê de pintura de D. Luís é por ele decorado, todo em carvalho, ao estilo neo-gótico. Leandro Braga inspira-se em álbuns franceses e ingleses, copiando desenhos e fazendo réplicas a partir de modelos antigos e acrescentando mesmo pedaços de talha antiga a móveis novos. Executa com a perfeição de um cinzelador móveis, portas, lambrins, tudo e em todos os estilos, da Renascença a Luís XVI, contribuindo para que o mobiliário português deste período não seja esquecido e satisfazendo o gosto historicista dos seus clientes que aderem à moda da Europa.

Apesar das resistências que as famílias nobres fazem em aderir ao novo estilo revivalista, todas acabam por aderir de forma mais ou menos relevante, tendo sido o Palácio da Ajuda um dos melhores exemplos a seguir.

Autor(es)
Ano 2016
Tipo Tese
Instituição Escola das Artes / Universidade Católica Portuguesa
Grau Mestrado
Orientador(es) Prof. Doutor D. Gonçalo de Vasconcelos e Sousa
Idioma Português
Área Artes Decorativas
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