A propósito de She Changes, 2005, de Janet Echelman

Seguindo uma tradição da escultura para rotundas ou praças, consegue, a meu ver, transgredir e permitir ser fruída/sentida pelos pedestres, como se ultrapassasse os limites do espaço físico que a confinam.
Embora ainda não esteja resolvida a recuperação do estado de degradação acelerado da peça, tudo nos leva a pensar que em breve a situação estará resolvida.

Se na concepção de uma obra pública questões com a perenidade ou efemeridade da própria obra se podem colocar, que geralmente não estão associados a casos como o presente, She Changes não terá sido concebida para ter uma validade tão curta e não se tratava de uma intervenção temporária no espaço público pelas características que apresenta. De qualquer forma, quanto maior é a diversificação de técnicas, meios e materiais, mais estamos sujeitos a estas situações. Será que as obras de arte pública têm de ser perenes? Não acontecerá com a arte o mesmo que acontece com tantas outras coisas com que convivemos no dia-a-dia?

Remetendo-me para a obra que alcunhamos de “anémona”, o que denota uma relação de afectividade com a população e de importância que adquiriu para a cidade, parece-me importante referir alguns aspectos que a caracterizam.

A sua escala monumental torna esta peça ilusoriamente maior ao termos a sensação que mesmo estando distantes conseguimos tocar-lhe. Por outro lado, quando nos deslocamos num transporte temos uma percepção da peça a partir de uma enorme distancia o que cria a curiosidade de nos aproximarmos dela (uma situação única na região).

Além disso é simultaneamente estática e móvel. As suas cores e forma elíptica, estruturalmente inflexível, modificam-se ao longo do dia. O vento e a luz alteram-na conferindo-lhe uma existência de ser orgânico. A estrutura geometricamente pura opõe-se às redes que flutuam no espaço, como se de uma membrana se tratasse.
O vermelho e branco de peça contrastam com o relvado verde da praça e com o céu e o mar que se unem num elemento único.

Estamos perante um ser gigante e poderoso, simultaneamente leve e flutuante, que convive serenamente com todo o espaço envolvente.
Ao fazermos uma rotação completa por She Changes temos a sensação que esta se vai adaptando e modificando (a relação com o título) o seu sentido sem nunca perdermos a sensação de estarmos próximo do mar, mas dentro de um espaço urbano.
Muito relevantes são, igualmente, as alterações que a obra vai tendo ao longo do dia. Ao anoitecer a iluminação artificial parece transformá-la num outro ser.

O relacionamento de uma obra de arte pública com o espaço para a qual é projectada é fundamental, e o artista procura, por vezes, fazer um levantamento e uma pesquisa que pode abranger quer questões históricas, como politicas, sociológicas, antropológicas ou geográficas, e estabelecer relações entre estas.
A minha memória apenas alcança as ruínas de um grande grupo de edifícios relacionados com a indústria das pescas, mas muitos se recordarão do tempo em que esta região vivia do mar, dos pescadores e das indústrias associadas.
Se os cabos, mastro, redes, cores e a estrutura da iluminação artificial tendem a remeter-nos para as vivências passadas do local, a forma como esta obra foi projectada e concebida é, não só, uma continuidade do projecto artístico de Janet Echelman como amplia o seu carácter simultaneamente poético e cosmopolita, de actualidade na vivência do espaço. Hoje bem distinta do passado.

Autor(es)
Ano 2007
Tipo Outros
Publicação Jornal Expresso - Passeios no Porto, Ciclo Arte Pública, 14 de Maio de 2007
Editora Jornal Expresso
Local Paço de Arcos, Portugal
Ed/Org Jornal Expresso
ISBN / ISSN 0870-1970
Idioma Português
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