A imaginação cega: Mecanismos de indeterminação na prática artística contemporânea

Este é um estudo sobre um certo impensado da arte que se associa à presença do acaso e da indeterminação. O seu assunto é portanto o instante em que a vontade do artista e a precisão dos seus instrumentos deixam de definir a previsibilidade das suas acções — ainda que apenas como gesto de enunciação ou artificialização do acaso. Tomaram-se
como ponto de partida os regimes das artes plásticas onde se combinam elementos aleatórios e acções planeadas, imprevisibilidade e determinismo, acaso e controlo, para assim se questionar o carácter aporético de um jogo estético que conjuga a surpresa absoluta com a sua antecipação metodológica e processual.
Como enfrentar então os resultados daquilo que é impensado e inesperado no pensamento da arte? Quais os elementos distintivos, na prática artística actual, da presença do acaso e do indeterminado nos mecanismos processuais da arte?
Assumindo que a arte é coisa feita do seu próprio fazer, começamos por propor a noção de jogo quase-ideal — a partir de uma releitura de Deleuze — para definir o acaso da arte como operativo, articulando a plasticidade, a experimentação e a imaginação como seus motores. A imaginação cega surge assim apenas como um outro nome para a experimentação tacteante através da qual se acede ao próprio impensado da arte. Como a cegueira operativa da arte resulta da imprevisibilidade dos seus media, das suas máquinas, os mecanismos de indeterminação da prática artística acabam por coincidir com os específicos processos maquínicos da experimentação estética.
Sugere-se depois, de acordo com Agamben, que só na era da ubiquidade da técnica pode a arte pensar radicalmente os seus media, tornando-os (in)operativos, e considera-se o princípio de uma medialidade pura que se inscreve no seio da experimentação estética, isto é, o princípio de uma arte que se mostra capaz de experimentar até ao limite os seus media. A disfuncionalidade maquínica e a obsolescência dos media serão pois duas das principais modalidades de indução dessa vertigem que leva as coisas a gaguejar e a reagir de forma inesperada e surpreendente. Dando corpo à figura quase perfeita de uma máquina que produz e faz produzir — uma máquina de partilha e interferência que o artista se deve abster de impedir ou controlar, porquanto as coisas importantes acontecem sempre de forma surpreendente, nunca onde as esperamos —, chamamos inconsciente tecnológico a esse grau de indeterminação e surpresa que é reserva das máquinas.
Em resposta à vontade declarada de centrar a análise nos genuínos processos operativos do fazer-pensar da arte, introduzem-se ao longo de todo o tra balho vários casos de estudo, da tradição clássica das imagens acidentais a Alexander Cozens ou de August Strindberg a Duchamp, para se chegar finalmente a uma discussão destes problemas do ponto de vista da arte contemporânea.
Conclui-se deste estudo que a tecnologia é, ou pode ser, o terreno do impensado, do aleatório e do inesperado, constituindo-se como elo de ligação entre a experimentação, a plasticidade e a imaginação cega de que se alimenta a arte. A atenção — fascinada ou desfascinada — dispensada pela arte às suas máquinas e respectivos mecanismos de indeterminação define assim, em termos operativos, um dos mais importantes elementos distintivos da presença do acaso na prática artística actual.

Autor(es)
Ano 2010
Tipo Tese
Instituição Universidade do Porto
Grau Doutoramento
Orientador(es) Maria Teresa Cruz (UNL)
Idioma Português
Área Artes Plásticas/Visual Arts
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