A História do Homem Montanha e a Menina dos Lápis de Cera

uma viagem à volta do nosso quarto pode ser mais intensa do que uma à volta do mundo…   (C. Bessa, 2004)

 

A definição gráfica dos desenhos de Pascal Ferreira, a precisão das paisagens e dos objetos representados e, sobretudo, o facto de na leitura do conjunto das imagens que se apresentam nesta exposição nos apercebermos, por uma série de elementos que se repetem e que são dados a ver sob diferentes pontos de vista, que se trata sempre de um e mesmo lugar. Levam, provavelmente, qualquer espectador, mais atento ou mais distraído, a pensar que o sítio aqui representado realmente existe… Tal é a força e a convicção do autor, na construção de uma ficção que esteve sempre muito presente na elaboração destas paisagens aparentemente desabitadas e que traduzem, tal como o próprio afirma, vários capítulos – aventuras – da História do Homem Montanha e a Menina dos Lápis de Cera. Mas há ainda outros fatores que tendem a metamorfosear estes lugares imaginários em lugares verosímeis: o traço firme, contundente e decidido, e, por outro lado, toda a engenharia construtiva – engenho – de Pascal Ferreira que, com alavancas, escopros e martelos pneumáticos esculpe sabiamente arquiteturas, escadarias, barcos, torres, pontes e eólicas, fazendo-o ao mesmo tempo que vai definindo e talhando as geografias imaginárias constituídas por escarpas, cadeias rochosas, árvores, leitos e outros adereços que vão desaguar à imaginação que cada um de nós lhes tem para dedicar.

Num primeiro relance ou, mais justamente, quando vi pela primeira vez estes desenhos, interroguei-me sempre em relação à pertinência do traço espesso utilizado no contorno da generalidade dos elementos que constituem estas paisagens, confrontado, provavelmente, com a minha recente memória dos elegantes desenhos de Giacinto Gigante (1806–1876) realizados no seu Grand Tour a Itália a lápis, caneta e com o auxílio de uma câmara clara. Contudo, fui-me apercebendo gradualmente que teria de me entregar a este trabalho de Pascal Ferreira não numa perspetiva naturalista mas a partir de uma outra: desenhos realizados por um escultor nato que edifica tridimensionalmente um imaginário numa simples folha de papel. Por outro lado, poderemos também constatar quando olhamos para os exemplares desta exposição e, por exemplo, para a nova série a cores que o autor tem atualmente em mãos, testemunhamos um apuramento gráfico e conceptual surpreendentes e próprios de quem domina um ofício e que com o talento vai definindo, de capítulo para capítulo, uma linguagem própria e um estilo que, sem dúvida, albergam sabiamente as aventuras, as ideias e os imaginários que eles próprios vão despoletando simultaneamente em nós e no autor.

Pelo gosto que poderemos ter em viajar, de nos deixarmos levar para lugares mágicos e desconhecidos e, também, pelo entusiasmo com que Pascal Ferreira nos fala convictamente destes lugares, destas arquiteturas e destas aventuras, quase como se de facto fossem reais e que, só por si, legitimam esta exposição, vale a pena entregarmo-nos e visitar este lugar recôndito que até agora, de facto, não existia.

Pedro Maia, março 2013

Autor(es)
Ano 2013
Tipo Capítulo de Livro, Texto em catálogo
Publicação A História do Homem Montanha e a Menina dos Lápis de Cera, Catálogo de Exposição
Editora Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Local Porto
Ed/Org Machado, Graciela
Idioma Portuguese
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