A Configuração da Forma: O Belo como Categoria Transversal

Nas primeiras páginas de Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke, e como parte de um movimento reflexivo que conduz o protagonista através das ruas de Paris de princípios do século XX, este afirma:
«Aprendo a ver. Não sei porquê, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar onde até agora acabava sempre. Tenho um interior de que não sabia. Tudo lá vai dar agora. Não sei o que ali acontece.»

E mais adiante:

«Já disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou aproveitar o meu tempo».1

Este é um texto que se pode considerar herdeiro dos “romances de formação” do século XIX. Ao longo de uma narrativa construída entre o presente e a remissão para um passado fundador, assistimos a um movimento de constituição do sujeito como entidade reflexivamente consciente de si e consciente dos limites dessa mesma consciência. A
aprendizagem do olhar é aqui parte de um processo de aprendizagem do eu e tem a paisagem urbana como espaço privilegiado de mediação. Mas esta é, ainda, uma aprendizagem que aceita o olhar dos artistas como mediadores de referência, seja o olhar do poeta, como Baudelaire, sejam os da escrita, ou os da modelação plástica da percepção sensível, aí representada pelas tapeçarias renascentistas do conjunto La Dame à la Licorne. A percepção do mundo pela mediação da arte é parte de um processo de formação da percepção.

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1
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge,Trad. Paulo Quintela, O Oiro do Dia, Porto, 1983, p. 30, 31.

(continuar a ler)

Autor(es)
Ano 2008
Tipo Artigo de opinião em jornal, Artigo electrónico
Publicação Revista Filosófica de Coimbra, vol.17 - nº34
Páginas 323-336
Editora Universidade de Coimbra
Local Coimbra
ISBN / ISSN 0872-0851
Idioma português
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