paragem – da importância do tempo nas práticas artísticas contemporâneas em tempos de compressão do tempo

Vivemos, hoje, tempos reconhecidos como de totalização global. Esta apresentou-se, antes de mais, como vencedora de uma espécie de batalha contra o tempo. Falou-se do fim da História, fim do de todas as utopias e, sobretudo, da expansão totalizadora do espaço. O tempo tornou-se operativo. Para que os fluxos vários, possam circular e ao ser digitalizado, comprimiu-se para medidas que nos escapam. O presente torna-se assim perpétuo. A compressão da ideia de agora produzida pela voracidade tecnológica produz uma espécie de novo sublime, o tecno-sublime. Desta forma, a ideia de contemporâneo complexifica-se. A necessidade de temporalidade num tempo sem tempo para ter tempo produz uma nova situação conhecida como esquizofrenia social: quando os elos da cadeia do tempo se encontram cortados. Tornamo-nos, por isso, impacientes com o Tempo. Impacientes com tudo. O tempo passou a ser, quando se dá por ele, uma espécie de fardo que nos complica a vida. Tornamo-nos impacientes com tudo e, como tal, a arte incluída. Por isso, repensar os mecanismos do Tempo e as formas de actuação que as temporalidades mais exigentes requerem é uma das tarefas políticas mais importantes do nosso tempo. A questão essencial, enquanto intervenientes directos do designado artworld é, então: o que fazer? Algumas hipóteses, com base em projectos já existentes trazem para a prática artística a noção derridiana de im-possibilidade, ou seja a possibilidade da impossibilidade, Uma espécie de necessidade de sobrevivência em condições adversas como as que hoje tempos pela frente. Paragem. Um olhar mais analítico à palavra paragem de imediato apreende a existência no seu interior de duas outras quase opostas: para (verbo parar) age (verbo agir). Falamos da possibilidade contemporânea de repensar e actualizar em práticas artísticas da noção de contemplação, tanto ao nível do fazer saber artístico como da recepção. Aquilo a que chamaremos contemplação activa. Uma contemplação, digamos, estratégica para podermos distanciar-nos da noção tão criticada durante toda a modernidade. A contemplação que aqui se propõe passa pelo ajuste temporal à acção de pensar e, como todos sabemos, esse acto reflexivo leva tempo. Ou, utilizando as palavras de T.J. Clark no seu livro “The Sight of Death: An experiment in Art Writing” quando afirma: “Visual images that carry within them the possibility of genuine difficulty, genuine depth and resistance”. Algumas obras seminais da arte contemporânea podem ser incluídas nesta nova possibilidade contemplativa: “Voyage en mer du Nord” de Marcel Broodthaers; “Slide piece” de James Coleman; “Giardini” de Steve McQueen; “Study for Strings” de Susan Philipzs, “Destroyed word” de Santiago Sierra; “Albert’s way” de Francis Alÿs; “artist at work” de Mladen Stilinovic. Muitas outras poderiam aqui ser incluídas, contudo, estas são significativas da possibilidade que agora nos propomos pensar e investigar. Todas elas têm um denominador comum: o Tempo, seja na sua extensão do fazer, seja na própria obra e na sua relação com o Tempo. São obras que na sua temporalidade “tranquila” corporizam uma opção tão dramaticamente oposta à velocidade contemporânea que funciona perceptivamente como estimulante, quer dizer, provoca uma espécie de incomodidade no espectador que se encontra, agora, absolutamente desabituado do passar do tempo. Ao tornar necessário o tempo como factor determinante para agir o que estamos a possibilitar como nova forma de observar é, então, a contemplação activa. Ainda no domínio do visual, uma referência necessária a algum cinema, sobretudo europeu e asiático que também se encontra nas mesmas latitudes conceptuais. Desde logo o cineasta húngaro Bela Tarr, mas também, o russo Alexander Sokurov ou o chinês Wang Bing. No território poroso que hoje caracteriza a fronteira em termos disciplinares e onde nos queremos situar, deveremos acrescentar a esta espécie de hegemonia do visual as outras possibilidades de sentir: a música e o som como vertente fundamental desta proposta. Desde a proposta radical dos 4’33” cageanos e da aproximação ao silêncio sempre tão evitável no quotidiano contemporâneo como ainda a corrente já adulta da música experimental envolvida com a estética drone e, necessariamente, ligada à essência do tempo, como com Eliane Radigue, Orphax, etc. Todas estas questões constituem o fluxo conceptual deste projecto que procura, antes de mais, aprofundar esta relação da arte com o tempo a partir de uma premissa fundamental e essencial: sem tempo não há a hipótese de Arte. Juntar no projecto várias áreas de investigação é, também, um propósito importante: artes visuais, filosofia, música e artes performativas, todas elas, obviamente, numa dimensão tão cara às práticas artísticas, isto é, em campo expandido. Por outro lado, o projecto quer integrar no seu centro uma relação muito próxima com os estudantes de doutoramento que queiram estudar nesta área. Assim, serão convidados a participar os estudantes pertencentes aos vários doutoramentos das áreas e instituições envolvidas.

Entre premissas importantes do projecto, alguns realces:

Tempo vazio
Damos conta de um certo tipo de tempo que nos inumaniza.
Dele podemos dizer que, quando se instala em nós, afecta a nossa qualidade de experimentadores.
Essa perda é grave por não nos deixar transformar tempo em conhecimento.
Curiosamente, é esse mesmo tempo vazio do relógio que, carregado de agoras, nos dá agora – será isto um oxímoro? – a oportunidade política de lhe ensaiar uma resistência.

Tempo oblíquo
Eis um tempo propício à autonomia de um pensamento e de uma acção que nos põe dentro e fora.
Este movimento, só por si, suscita a abertura a uma coexistência entre a vivência do tempo antropológico e a indeterminação do tempo cósmico.
A essa coexistência damos o nome de tempo oblíquo que faz assinalar a sua marcha por entre os escombros de um tempo linear demasiadamente exposto à racionalidade discursiva.

Tempo desanestésico
Um tempo votado à resistência. Um tempo que não partilha da anestesia generalizada e que, pelo contrário, propõe a ruptura com estas posturas para melhor poder operar como catalizador de opções resistentes em condições adversas.

Tempo com Tempo
Diz-se do nosso tempo como o tempo da instantaneidade, o tempo com tempo refere-se à possibilidade de corporizar a dimensão humana do tempo com as várias camadas que o constituem. Um olhar arquivista para entender o presente.

Coordenador(es) de Projeto Fernando José Pereira
Data de Início - Fim 2018-01 / 2019-01
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