Habitando espaços: a experiência do espaço a partir da prática artística

A produção de espaço, nesta investigação, é discutida a partir do campo escultórico e da prática curatorial. A arte participa na construção de um lugar habitado, atribuindo-lhe sentidos e representações ideológicas. Construir espaço envolve dar-lhe substância, abrir possibilidades entre as já existentes e representá-las. O processo de expressar e dar vida às possibilidades do mundo, atribuindo-lhes uma manifestação sensível através da arte, não é possível sem a intervenção do corpo que afunda e alarga no seu espaço interior e exterior, abrindo e produzindo espaço. As propriedades sensíveis do corpo, nomeadamente a qualidade de abertura e fechamento, a possibilidade de entrar e sair de um corpo/espaço, reflectem-se na representação e têm um correlato nas práticas artísticas em processos de alargamento e afundamento de campo. O alargamento de campo pode observar-se, sobretudo, num eixo horizontal, correspondente aos territórios onde a arte opera e em que se torna difícil distinguir a produção artística da vida. O afundamento de campo ocorre num eixo tendencialmente vertical, um locus intangível, onde se gera o enigma do acto criativo, que conserva um reduto intraduzível. Entre aqueles terrenos e modos de operar, surge um deslize, abrindo um espaço não-resolvido na representação – necessário à construção de posicionamentos político-ideológicos. Os diferentes modos da arte produzir espacialidade dão origem a novas linguagens e formas artísticas, diferentes possibilidades de representação e formas renovadas de habitar o mundo. A curadoria, nomeadamente através dos seus processos editoriais e expositivos, conserva, amplia e potencia aquele âmbito não-resolvido da espacialidade, aberto à construção do espectador. A curadoria e a vertente escultórica da arte instituem-se assim como formas de produção de conhecimento, com recurso não apenas ao intelecto mas todo o ser somático, pondo-o em movimento e interrogação.