It’s not just about Rabbits and the Bears

Comissário de It’s not just about Rabbits and the Bears, da autoria de Maja Babic Kosir, Novembro, Galeria dos Leões, Universidade do Porto, 2013

Vista de exposição, Galeria dos Leões, Universidade do Porto, 2013

 

It’s not just about Rabbits and the Bears.

Exposição de desenho/ilustração/pintura de Maja Babič Košir comissariada por Pedro Maia, Novembro de 2012, Galeria do Leões, Porto

Satanás… o primeiro artista absoluto / o primeiro verdadeiro negro…
A graça da extrema beleza deu-lhe uma posição de exceção na ordem celestial mas ele viu outra… foi o primeiro a ter uma visão da existência para além do que lhe foi imposto. Caiu em desgraça não por ser o mal mas por exibir a ansiosa e apaixonada temeridade do artista. 

(Patti Smith, “Rádio Ethiopia”, 1976)

A realidade não é só quando estamos acordados, também o sonho acontece pela realidade e é nesta livre associação de imagens de um sonho de vigília que encontramos os trabalhos de Maja Babic Kosir (Eslovénia, 1978).
Ainda que não seja apenas e só sobre coelhos e ursos (IT´S NOT JUST ABOUT RABBITS AND THE BEARS) esta mostra que apresenta um pequeno cósmos de narrativas visuais marca¬das seguramente por uma pulsão de imediatez na urgência de agarrar a mensagem do mundo onírico por entre choques de núcleos duros e obsessivos é a condição que a artista determinou, para dar início a este estado de viagem ou de road trip quase semi-lúcido. Nesse sentido, esta viagem é uma entrada sem princípio nem fim, é um diálogo privilegiado de composição e sobreposição, de fragmentação e recomposição que não obedece a qualquer lógica.
Ao nível do núcleo conceptual da obra destacamos uma preocupação omnipresente, num emaranhado de articulações entre a emoção amorosa e a elevação sexual, e seguramente conseguimos vaguear por entre essas linhas figurativas de coelhos e ursos que apresentados em modo de disfarce guiam às cegas e sem regras a nossa contemplação e sensação.
Mais genericamente, este processo de comunicação que privilegia desta feita a pintura; constitui provavel¬mente um dado decisivo no percurso e na obra da artista. Nesse sentido, é absolutamente indispensável fazer notar que este médium serve o pulso que dá forma a todas as imagens que se podem transfigurar em cabeças que ora se apresentam transvestidas ainda que cegas; ou por entre um conjunto de sensações pautadas de cores e formas abstratas que se reconciliam com as linhas sensuais de impressões digitais onde uma vez mais, cada dedo assume uma presença vincada na construção de um diálogo que percorre o seu curso por entre o acrílico.
É neste horizonte de cores segregadas pela energia e pela acumulação de matéria plástica aplicada em materiais reciclados que conseguimos enfim, vislumbrar a mutação luminosa de coreografias silenciosas, apresentadas por entre pequenos corpos em crise que usam a seu belo prazer toda a simbologia sexual e toda ambivalente apresentação que merecem. Não menos importante, são as múltiplas frases, como golpes ou beijos que surgem sem autorização apenas soltos por uma cartografia diária de registos de memória da autora, como se de um modo catártico se tratasse.
O facto destas imagens resultarem de uma relação com o exterior por entre o âmago das vivências mais íntimas e obsessivas denotam ainda, a justa existência criativa entre estes dois mundos, mesmo que seja numa aparente simplicidade desarmante onde podemos enfim, encarar este conjunto de fragmentos de memória e de ambiguidades num jogo sedutor de tendencial inversão de lógica habitual.
Rita Roque

Maja Babič Košir (1978, Ljubljana, Eslovénia) licenciou-se em Artes Plasticas/Escultura na Academia de Belas Artes e Design da Universidade de Ljubljana, em 2005. Em 2007 realizou uma Pós-graduação em ‘Creative Illustration and Visual Communication Techniques’ na Escola Superior de Design e Arte de Barcelona (EINA). Em 2010 obteve o grau de mestre em Artes Plásticas/Escultura, na Academia de Belas Artes e Design da Universidade de Ljubljana. Foi bolseira da Zois Foundation for Talented Students entre 2000 e 2007 (Eslovénia) enquanto aluna de licenciatura e de mestrado. Em 2009 obteve o prémio da Association of Slovene Fine Artists Societies pelo seu trabalho de ilustração. Foi directora artística da Obuvalnica Butanoga (ateliê, loja de design e comercialização de calçado de autor) entre 2000 e 2006. Desde 2000 trabalha como ilustradora profissional para jornais, revistas especializadas, livros infantis, ficção e sites especializados. Actualmente vive e trabalha no Porto e desenvolve trabalho artístico no âmbito da ilustração, desenho, fotografia e instalação, sendo também membro fundador e dinamizador do espaço Lófte.

 

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