Desembaraço

DESEMBARAÇO, Carvão s/estuque e cimento, madeira carbonizada e vedantes industriais, 700x 300 cm, Instalação site-specific na Casa do Artista, Vila Nova de Cerveira para a XIX Bienal Internacional Arte de Cerveira, julho –setembro 2017.

Desembaraço é um projeto de desenho que investiga a experiência do lugar e a expansão da linha para o espaço na construção de hiperdesenhos. E foi desenvolvido em contexto de Residência Artística em Vila Nova de Cerveira – Casa do Artista (24-26 de maio 2017).

No decorrer do trabalho de campo (na vila de Cerveira) o interesse focou-se nas estruturas que se encontram junto ao rio e que têm como finalidade auxiliar na manutenção das redes de pesca. Procurou-se olhar para estas estruturas efémeras de forma flexível, percebendo-as como parte do património experiencial da cidade. Importa lembrar, que estas estruturas têm a capacidade de alterar temporariamente a cartografia da cidade, o seu imaginário e, potencialmente, outros lugares, físicos ou construídos, produzindo espaços outros e experimentando/percecionando diferentemente dos existentes.

Estas estruturas serviram para ensaiar/investigar de que forma o desenho reage aos atributos temporais destes espaços, explorando a sua condição híbrida como projeto e formulação. Em Desembaraço usou-se o desenho como documentação destes espaços pop up numa atitude de artista/etnógrafo onde se explorou uma antropologia do espaço, e através da qual se pretendeu investigar pelo desenho estes lugares radicantes numa relação de teatralidade (hiperdesenho) com o espaço do espectador.

O projeto Desembaraço enquadra-se numa prática investigativa mais ampla sobre a relação entre o desenho e as potencialidades das estruturas arquitetónicas descartáveis da cidade – SEM ESPAÇO: Arquiteturas descartáveis da cidadeUma investigação em desenho.  Nesta investigação deseja-se investigar as relações que no desenho se podem estabelecer com estes espaços, enquanto mediador das suas caraterísticas fenomenológicas, instrumento de pensamento, comunicação e experimentação.

Em SEM ESPAÇO o espaço considerado não é qualquer espaço. É um espaço pop up com duração muito limitada e materializado em estruturas descartáveis que reagem aos acontecimentos. São estruturas que potenciam uma arquitetura e que diferem dos conceitos de não-lugar (Augé, 1992), espaço liminar (Turner, 1977) ou arquitetura temporária por cumprirem funções em ambientes e eventos pontuais. A condição descartável destes espaços advém da relação com o que neles sucede. São os eventos que os definem e condicionam, não apenas como função no tecido social, mas também percetivamente.

Na prática, o corpo de trabalho (desenhos, instalações, trabalhos de site-specific, reflexões teóricas) aqui fabricado/construído vai possibilitar a criação de um discurso sobre a cidade. Um discurso documental e etnográfico que se irá traduzir como um inventário sobre dois pontos de vista: como registo de uma perceção (fenomenologia e háptica) e como forma de invenção ao reencenar os acontecimentos prévios dos espaços. A encenação aqui referida advém da relação entre a mutualidade destes espaços com a expansão do desenho para o espaço, reclamando assim o contexto do hiperdesenho(Sawdon e Marshall, 2012) . Portanto, dentro da prática do hiperdesenho, pretende-se explorar realidades alternativas no sentido de afirmar o desenho por via da materialização do gesto no espaço na sua relação com o movimento e notações corporais. Assim, não só se promove um vínculo da obra com o espaço, como também se possibilita o envolvimento do espectador na obra.

O problema da identidade do lugar é aqui um problema também do desenho. Com base neste pressuposto, o projeto procura inscrever-se no território da prática e da epistemologia da investigação em arte, considerando e produzindo um discurso sobre o fazer e o saber desta prática a partir de uma experiência autoral.

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