A tenda quer-se com quem a entenda

Desde setembro de 2017 que tenho documentado o processo de transformação do “Campo da feira”, na cidade de Barcelos, para hospedar a feira semanal. Da noite para o dia, o amplo parque de estacionamento a céu aberto dá lugar a um conjunto de toldos, bancas e cordas, que se reorganizam-se em entre si e se acomodam no espaço. Num intervalo temporal de vinte e quatro  horas todo o recinto é povoado por uma centena de estruturas dissipativas que reconfiguram o espaço.

Estas estruturas materializam-se em construções que potenciam uma arquitetura e que diferem dos conceitos de não-lugar (Augé, 1992) ou espaço liminar (Turner, 1977) por cumprirem funções em ambientes e eventos pontuais. É enquanto espécie de espaço que se enquadram estas estruturas. Espaços pop-up com duração muito limitada, que reagem aos acontecimentos numa lógica de causalidade e reencenação. Estruturas como as tendas (vedações, barricadas, palcos) surgem na cidade como resposta pontual a acontecimentos quotidianos, sociais ou políticos.

No âmbito desta exposição a minha proposta vai ao encontro das configurações que os toldos adquirem na véspera do dia de feira.  Todos os vestígios – fragmentos, marcas, dobras, vincas – são aqui usados como matéria para a prática artística. A partir deles investiguei a forma como o desenho lida com os atributos temporais destas estruturas e reflete o acontecimento que as origina, explorando a sua condição híbrida como projeto e formulação, como gesto icónico e performativo. Dentro da prática do “hiperdesenho”, procurei explorar realidades alternativas no sentido de afirmar o desenho por via da reencenação destas estruturas e as possibilidades expansivas da linha enquanto elemento transitivo entre dimensões.

A reencenação pelo desenho permite-nos considerar a possibilidade de um processo que simultaneamente representa e atua, faz e age. Reencenar, neste sentido, é assumir performativamente uma reconstituição do evento como ação diferida, e não como mera reimpressão. É numa fantasiosa construção da realidade (cf.Pereira, 2001),  que a obra assume a sua teatralidade, por oposição à experiência de absorção pela qual o espectador toma consciência de si próprio e do lugar que ocupa. Para isso contribui (também) a expansão do suporte do desenho para um espaço de imersão, capaz de geral a experiência de um corpo presente, um “estar aí”, como num diorama (cf. Almeida, 2008).

Enquanto prática, o desenho assume os mesmos atributos da realidade sobre a qual ele se debruça. Mas estas estruturas reforçam também os atributos específicos do desenho: a transitoriedade, a plasticidade, a marginalidade, a reação imediata ao contexto que lhe dá origem. Como qualquer forma de expressão, o desenho empresta as suas próprias categorias – aquelas que em cada momento definem culturalmente o seu valor de uso – para uma representação singular e sensível das arquiteturas pop-up. É também na contínua redefinição das marcas da representação que a construção identitária destes lugares se faz.

 

 

A tenda quer-se com quem a entenda, Cera e pó de carvão s/papel fabriano, vedantes industrias e pigmento s/ cimento; 350 x 290cm, 350 x 290 cm; Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto, 2018

 

 

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