Pensamentos Altos (exposição individual) CAE – Sever de Vouga. De 2 a 30 de Novembro

Pensamentos Altos é o título da exposição individual de Rute Rosas na qual se apresenta um conjunto de trabalhos inéditos. A partir de ações do corpo sobre objetos e matérias no espaço, Rute Rosas propõe uma diversidade de abordagens escultóricas que resultam em instalações, objetos e desenhos performativos.

Integram igualmente esta exposição o vídeo C@rtas 2006-2010, a única obra de 2011,  no auditório do CAE .

 

Breve enquadramento

Pensamentos Altos, ou em voz alta, são registos solitários embalados num silêncio provocado ou desejado em situações e estados emocionais diversos.

São recordações trazidas para diversos presentes na tentativa de materializar o imaterial – O Tempo, o Pensamento. São certamente aproximações posteriormente transformadas em realidades – presenças autónomas que derivam da experiência vivida e de uma estrutura não-narrativa e inconclusiva.

Combinações entre o já vivido e o que se está a viver (que nesta altura já se viveu – pertence ao passado pela efemeridade do momento) recorrendo à Memória e Recordação. Materializações de processos contínuos, como uma espécie de marcação num tempo e num espaço real de fruição direta e de partilha com os Outros.

Quando recordamos, modificamo-nos e cada vez que ativamos uma recordação construímos uma reformulação da mesma, pelo que podemos falar de re-recordação, ou recordação da recordação, sucessivamente distintas. Ativar a memória e as recordações parece ser similar ao processo do acordar de um estado de adormecimento.

Pressupondo que o conhecimento disposicional para recordar é imprescindível, começo, em primeiro lugar, por me confrontar comigo própria, num exercício de autoconhecimento que me permitirá entender a relação que estabeleço com a sociedade em que estou inserida, com os Outros.

Paradoxalmente e numa sociedade que se apresenta globalizante e transparente[1], parece ser confortável permanecer num estado de ilusão relativamente ao significado dos valores e dos conceitos numa fuga em direção à estranheza e ao vazio. Uma transparência que não é mais do que uma aparência oferecida pela ausência de si mesma. Uma definição de liberdade que incita ao congelamento das nossas ações primárias, que nos revolta e simultaneamente nos deprime. Contaminados por uma apatia ou congelamento, constrangidos e coagidos à inoperância, sentimo-nos solitariamente acompanhados – seres humanos sem qualidade.

Não devemos passar ao lado da experiência que é viver, nem mesmo nos momentos em que somos embatidos por um estado de cegueira por excesso.

Dependendo da intensidade das vivências de cada um, do olhar, da interpretação, ou das experiências que cada um teve, todos sentimos e emocionamo-nos… mas, uns vivem e outros já morreram mesmo antes do seu último suspiro.

Rute Rosas, 2013


[1] Gianni Vattimo refere que a sociedade pós-moderna, a sociedade da comunicação é uma sociedade transparente. O papel determinante desempenhado pelos media gera uma sociedade, simultaneamente “mais consciente de si” e “mais complexa, até caótica”, pelo que será “neste relativo caos que residem as nossas esperanças de emancipação”, VATTIMO, Gianni, A Sociedade Transparente (tít. orig.: La Societá Transparente, Garzanti Editore, 1989, trad.: Hossein Shooja e Isabel Santos), col. Antropos, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1992, p.10.