Guelra | Arte Total [Laboratório de Transcriação Coreográfica]

Guelra | Arte Total [Laboratório de Transcriação Coreográfica]

Para Falar da Minha Casa | Lindves Homing Museum

João Foldenfjord

Residência Artística de11 a17 Maio 2014

Museu dos Biscainhos

Apresentação 17 Maio | 16h

E havia Helena que sonhava

Fazer um dia tranças às ondas

E um berço muito grande para o mar.

Daniel Faria, em Oxálida

Guelra – Laboratório de Transcriação Coreográfica é um dos programas que a Arte Total está a realizar em 2014. Desenvolvido inicialmente enquanto projecto-piloto em 2012, transformou-se a partir desta experiência num laboratório transdisciplinar de interacção e interligação artísticas que tem como poética de criação, transfiguração e experimentação a multiplicidade e a intangibilidade de vivência e memória da cidade. O projecto conta com o patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura, através do programa de apoio quadrienal da DGArtes.

A Guelra funciona enquanto residência artística durante uma semana que culmina com uma apresentação pública com entrada livre no final. As residências artísticas, realizadas até agora no GNRation, Arte Total e Museu dos Biscainhos, já contaram com a participação dos coreógrafos/performers Valentina Parravicini, Maria Ines Villasmil, Peter Dietz, Romulus Neagu e Paulo Henrique.

A próxima Guelra realiza-se no Museu dos Biscainhos, de11 a16 de Maio, com apresentação final no sábado dia 17 às 16h. O evento tem como convidado João Foldenfjord e está integrado na programação do Dia Internacional dos Museus. João Foldenfjord faz parte da direcção artística da Guelra e já colaborou com a Arte Total em vários projectos. O seu trabalho artístico incorpora uma forte dimensão coreográfica que esta residência pretende desenvolver no âmbito do tema do Dia Internacional dos Museus para 2014, “as colecções criam conexões”.

Em 2001 voltei a Braga. Para além da minha família não conhecia ninguém na cidade. Fui morar perto da torre da igreja de São Vicente. Fazia na altura um percurso diário entre a minha casa e a casa da minha mãe no Carandá. A torre da igreja de São Vicente era habitada por um casal de pombos. Demoraram a multiplicar-se. Um deles lembrava-me um pombo que tive no Lobito. O pombo-correio que tenho ao ombro numa fotografia tirada pelo meu pai. O casal de pombos adoptou uma espécie de segunda casa não muito longe da igreja de São Vicente. Acompanhei a mudança de casa dos pombos entre a torre da igreja e o prédio onde fica ainda hoje a padaria. E depois mais tarde, no sentido inverso. O processo repetiu-se dois ou três anos seguidos. Como se dividissem o tempo entre uma branda e uma inverneira. Foi também assim que começou este projecto artísticoem Braga. Desloqueia minha casa para o pombal do Museu dos Biscainhos. O pombal do Museu dos Biscainhos parece um pagode oriental. A partir do pombal a casa alargou-se a outros locais da cidade. A minha casa era agora uma constelação. Uma assinatura de revoada. Trouxe-a de volta depois para São Vicente no final do verão. Desde então tenho feito continuamente esse movimento de respiração na cidade. O entrelaçamento da casa é uma espécie de dança. As revoadas dos pombos-correios à volta do pombal desenham montanhas na paisagem. As montanhas que desenham passam a ser a sua casa. Os pombos-correios são especialistas em encontrar o caminho de casa. Os pombos-correios só precisam encontrar o caminho de casa quando são levados para longe de casa. Se as revoadas dos pombos-correios fossem um hexagrama do I Ching seriam o hexagrama número oito. Manter-se unido. Manter-se unido na elasticidade. A elasticidade é a outra face da identidade. Às quatro semanas de gestação o embrião humano tem outra elasticidade. Tem guelras como os peixes e um rasto de estrelas como cauda. A minha casa regressou de muitos lugares. A última vez chegou a Braga de navio. O Elma atracou numa janela da rua de Santo António.Em turco Elmaquer dizer maçã. Há maçãs de ouro no Jardim das Hespérides. São guardadas por um dragão. O cargueiro norueguês Foldenfjord emergiu da ressurgência tipográfica no jardim da livraria Centésima Página. A ressurgência é um fenómeno oceânico. Sedimentos inertes de águas profundas são conduzidos à superfície. Ao entrar em interacção com a cadeia alimentar geram zonas particularmente ricas de vida marinha. A ressurgência é uma metáfora poética. O fascínio pela ressurgência vem da minha adolescência no Brasil. O Foldenfjord nasceu no ano de 1953 em Gutemburgo na Suécia. A Stella Polaris nasceu na mesma cidade em 1917. Os dois navios foram pintados em tela por Lass Andersen. O Foldenfjord foi retratado por Lass Andersen em alto mar. A Stella Polaris foi retratada no Rio de Janeiro. O nome Lindves tem origem em duas pequenas pedras trazidas dos extremos sul e oeste da Noruega para o Rio de Janeiro em 1996. Lindesnes e Vestkap. As duas pedras vieram acompanhadas de estrelas fossilizadas do Jura. As estrelas do Jura são fragmentos de caules de lírios do mar. Apesar do nome são animais. São testemunho de que a terra já foi mar. Lindves é um ciclo de metamorfoses. A penúltima metamorfose de Lindves foi passar a ser também um mar. Quando foi desmantelado o Foldenfjord chamava-se New Ocean. O Foldenfjord tinha uma irmã. Lyngenfjord. Rebaptizada depois como Amronto. Na mitologia grega as ninfas Plêiades foram transformadas em pombas e depois em estrelas por Zeus. São filhas de Atlas. E irmãs das Hespérides. Atlas está a segurar o mundoem São Vicente. Mesmoem frente ao segundo ninho do casal de pombos. Rebaptizei o Elma como Foldenfjord. Foi uma forma de recomeço. Prevista no desenho que fizem criança. O Foldenfjorde a Stella Polaris formam um par solsticial. Como as águias e os leões no jardim dos Biscainhos. Representam uma assinatura particular do movimento aparente do sol. As Ercílias são montanhas imaginárias. São uma espécie de auroras boreais. No Rio de Janeiro as Ercílias são montanhas de verdade. Quem chega do interior em direcção à costa quase não reconhece os picos das Ercílias desenhados pelas revoadas. São no entanto a primeira coisa que avista em terra quem chega a casa por mar. Coloquei uma folha do gingko biloba que plantei no jardim dos Biscainhos no meu caderno. O gingko biloba é um fóssil vivo. Coloquei a folha do gingko no caderno para falar da minha casa. Para falar do modo como se move.

João Foldenfjord | Abril 2014

[João Acciaiuoli Catalão [João Foldenfjord] é artista, curador e programador cultural. Nasceu em Coimbra em 1961 e é licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde frequentou ainda a licenciatura em Biologia e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Viveu no Lobito e trabalhou na área de Estudos de Mercado no Brasil, Londres e Lisboa. Iniciou um projecto artístico pessoal a partir do Museu dos Biscainhos quando regressou a Braga em 2001. Organiza e participa desde então em diversos projectos artísticos e culturais. Colaborou, entre outros, com as Ideias Emergentes no Porto, Universidade do Minho, Galeria Show me, Civitas Braga, Centésima Página, Sindicato de Poesia, Esad, GNRation, Mapa Use It Braga e Escola de Dança Arte Total. Faz parte da direcção artística da Guelra – Laboratório de Transcriação Coreográfica. Foi entre Dezembro de 2009 e Setembro de 2012 programador e designer da Clarabóia – Agenda Cultural da Casa do Professor. O seu percurso e acervo artísticos, com múltiplos conceitos e interligações narrativas e ênfase nas dimensões éticas, poéticas e coreográficas, constitui no presente a base de desenvolvimento do projecto Escola de Navios – Lindves Homing Museum.]