Exposição: A apologia da crise (do desconforto e do diálogo como paradoxo)

8 junho a 27 julho 2019

Casa-Museu Abel Salazar, Porto

Exposição dos estudantes do Doutoramento em Artes Plásticas da FBAUP

Inauguração às 17h

 

Aparentemente, o título deste texto é ele próprio um evidente paradoxo: em tempos de crises continuadas a diversos níveis: da vida quotidiana, ao quotidiano das imagens, escrever sobre a apologia da crise é, só por si, uma espécie de provocação. Não se trata, obviamente, disso. Antes, de tentar entender como a crise pode ser potenciadora de desenvolvimentos. Falamos, evidentemente, e de novo, do chamado momento crítico, analisado por Deleuze e amplamente conhecido. Se, na exposição anterior, a principal preocupação estava ligada à ideia de contaminar e contaminar-se, então, agora, trata-se de aprofundar as questões anteriormente analisadas.

O mundo em que vivemos é todo ele um enorme paradoxo: um mundo que pretende ser global e, simultaneamente, vai-se fechando aos poucos e poucos. Cada vez existem mais muros e fronteiras. Cada vez existem menos diálogos…aparentemente, uma das mais interessantes actividades dos humanos: dialogar, está a transformar-se lentamente em desconforto cada vez maior. Por isso, talvez, a nossa contemporaneidade comece a ser conhecida, também, como selfie reality…

A exposição que agora propomos tem uma particularidade que se afirma como um claro desafio: trata-se de uma casa museu de uma personalidade da cidade, com todas as condicionantes que tal situação impõe. A principal das quais é a condição necessária de dialogar: com o espaço, desde logo; com a personalidade em causa; com a história e com a memória…ou não.

O momento crítico, portanto, formaliza-se aqui na condição voluntária do diálogo ou, pelo contrário, na sua recusa. Um desconforto instala-se…a crise que aparece. Uma lógica fronteiriça. Um paradoxo.

Mas as fronteiras são significantes vazios que se encontram em constante evolução. O conceito de fronteira alterou-se em definitivo. A explosão rizomática e global alterou a relação de tangibilidade que fornecia os elementos necessários à sua existência. A fronteira constitui-se na nossa contemporaneidade como ente fantasmagórico. A sua existência é paradoxal. O carácter multinacional e multidisciplinar exigido pelo “capitalismo (ou qualquer outro nome que se queira dar ao processo que domina hoje a história mundial)” (Agamben) determina uma permanência existencial que se processa segundo um nível de mediação mais do que de intransponibilidade. Ao poder multinacional colocam-se duas questões que à primeira vista se confundem com o paradoxo: ao mesmo tempo que anula a distância em favor do desenvolvimento tecnológico, favorece o local como noção necessária à sua existência. A sociedade de homogeneidade absoluta apresenta-se como o paradigma da heterogeneidade e é esta assimilação dos dois conceitos que forma a totalidade do espaço contemporâneo constituído sem exterioridade. Daí o carácter fantasmagórico atribuído à fronteira. E, contudo, elas estão aí, de novo, bem presentes…outra vez o paradoxo.

Existe, no entanto, a necessidade de entendimento do percurso temporal desenvolvido até hoje. Da necessidade absoluta de fronteira —falamos obviamente em âmbito alargado ao artístico— até à sua não-existência corporizada na noção de mediadora. Só assim se poderá, efectivamente, possuir um conjunto de premissas teóricas que permitam o entendimento clarificado no novo mapa espacial. Mais do que implosão da noção de fronteira, colocaremos a questão segundo a noção de uma forte explosão que indetermina a sua existência tornando-a, deste modo, difusa. Mas a totalização global, ela própria, vítima do seu carácter paradoxal torna-se, assim, aos poucos cada vez mais totalitária e menos global.

Ou seja, a fronteira pode apresentar-se como limite, mas, também, como lugar de passagem: como lugar de desconforto ou como lugar de diálogo. Hoje, parece cada vez mais mimetizado o ensimesmamento personalizado pela tecnologia do selfie, no ensimesmamento de um mundo paulatinamente mais fechado ao diálogo e à passagem. Ainda assim, as possibilidades em jogo são imensas e a arte que resgata continuamente a sua própria espacialidade criando e destruindo fronteiras, fomentando e ignorando diálogos mantém a sua força intrínseca através de uma espécie de agonia / crise, paradoxalmente criativa, a que, no nosso presente, designamos como arte contemporânea. Um território eminentemente plástico e líquido, como diria Bauman. Um espaço de produção de pensamento que potencia uma posição de partilha (o diálogo por oposição à fronteira) mas que, paradoxalmente, ou não, se oferece sempre encriptada e singular (a fronteira por oposição ao diálogo). A individualidade inerente ao gesto artístico convoca, também, a perspectiva de uma temporalidade que, todos o sabemos, hoje, impõe outras fronteiras. Daí a necessidade da arte em recorrer à memória e à história como forma de fazer saber. De trabalhar em âmbito alargado, quer dizer, sem a imposição fronteiriça da univocidade temporal do presente. Os diálogos alargam-se, assim, ao tempo. Condição essencial para a sobrevivência da própria arte. Estar na Casa Museu Abel Salazar é trazer à tona todas estas noções e especulações teóricas e transformá-las em forma, essência da arte e do fazer dos artistas. Estar na Casa Museu Abel Salazar é ter presente a crise e a coragem da sua apologia, isto é, convocar a memória histórica do lugar e da personalidade, também estes em permanente crise: por um lado espacial, pelo outro temporal e política.

Estar na Casa Museu Abel Salazar é experimentar o desconforto da ausência essencial do chamado “white cube”, sacro santo espaço da modernidade artística e, assim, ter que encontrar soluções, as mais variadas, onde o diálogo – noção, também ela elástica e nunca rígida – joga um importante papel. Nem que seja pelo grau do oximoro experimentado no desconforto de o ter que realizar. As expectativas serão tanto mais elevadas quanto o embrenhar das obras nesta crise permita o aparecimento de novas possibilidades, de surpresas (o conforto e a estabilidade nunca o permitiriam) que se tornarão, elas próprias, elementos centrais de toda esta discussão e que nos trarão a possibilidade, sempre bem vinda, de uma discussão / diálogo sobre e com as obras expostas.

 

Organização

Doutoramento em Artes Plásticas / FBAUP

i2ADS / FBAUP

Local Casa-Museu Abel Salazar, Porto
Data 8 de Junho a 27 de Julho de 2019
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