DEA: #2 Encontro Aberto com Jorge Ramos do Ó

#2 _ Encontro Aberto com Jorge Ramos do Ó – nEA
Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Doutoramento em Educação Artística

12 de Outubro (17h às 20h) e 13 de Outubro (09h às 13h) na sala PS12, FBAUP

Escritas do contemporâneo e a pesquisa em educação artística: os desafios de Blanchot, Barthes, Deleuze, Derrida e Foucault
Jorge Ramos do Ó — Universidade de Lisboa
(jorge.o@ie.ul.pt)

OBJECTIVOS

Nestas duas sessões trabalharemos em torno de um conjunto textos de vários autores relativos à emergência e à possibilidade de uma escrita inventiva. Não obstante a sua exuberante variedade disciplinar, teórica e empírica, os trabalhos de Barthes, Blanchot, Deleuze, Derrida ou Foucault foram atravessados, e muitíssimo animados, por uma semelhante intencionalidade: a de problematizar o estatuto e a função do autor, a de estabelecer estratificações discursivas e a de operacionalizar novos desdobramentos no seu interior. Acredita-se que, a partir desse seu labor específico, podem-se estabelecer outros níveis de compreensão e de tessitura do que possa ser uma escrita-crítica, ou seja, que antecipe o que, de todas as outras formas, estaria vedado ao pensamento académico. O seu contributo é outrossim fundamental para, numa lógica de auto-reflexividade, compreender de que modo a cultura escolar tem idealizado e simultaneamente bloqueado a generalização de uma atitude criativa em torno da produção de bens artísticos.

JUSTIFICATIVA

Este conjunto de autores não cessa de colocar à nossa disposição uma multiplicidade de textos em que se assume a premissa de que nada pode existir fora da linguagem. Julgo que a evidência pós-estruturalista deve levar-nos a assumir que a prática da escrita académica não pode, também ela, exercer-se sem a compreensão do sentido estratégico – os infinitos jogos de poder e de verdade – do tecido de significantes que constitui toda a obra textual. Trata-se, assim, de refletir sobre um trabalho de deslocação que se exerce sobre o jogo de palavras. Deslocar-se na linguagem, conduzir-se pelo mesmo eixo do poder, mas para se chegar aonde não se é esperado; como se, em última instância, se admitisse que o texto contém em si também uma força que permite fugir à palavra, que se agrega indefinidamente, e nos impele para uma outra dimensão, para um lugar ainda não classificado, atópico; como se a língua se pudesse apenas combater no interior da própria língua.

Isto supõe não um saber mas, antes, uma dinâmica institucional onde um saber e a criação se possam exercer por meio da livre troca entre os participantes. As aulas terão como princípio e fim os processos construtivos da escritura. Em vez de disciplina, dever-se-ia com mais propriedade falar aqui em seminário, no sentido que lhe dão Barthes e Certeau, isto é, um espaço de circulação e comentário horizontal de textos, de produção da diferença interpretativa, de uma fala exercida a partir de notas individuais tomadas a partir da palavra vizinha e de fragmentos de textos múltiplos. Presume-se, assim, que essa teatralização da escrita, esse estado de enunciação dos alunos, fornece as condições objectivas para a maternagem e a tessitura mesma de uma narrativa pessoal que seja capaz de se referir às regras de construção das formações discursivas que nos habitam e, ao mesmo tempo, possa partir de textualidades várias, absorver, canibalizar e originalizar-se como texto. O papel do professor será pois, apenas, o de orientador da sessão, aquele que fornece a ocasião, aquele que não fala porque sabe, mas que fala tão só porque escreveu e escreve.

CONTEÚDO

Sessão da tarde de 12 de Outubro — 17h00 > 20h00

I. Introdução
A gramática da escola moderna e os bloqueios que enfrenta uma nova sensibilidade textual

II. Discurso
1. A escrita e o poder (Foucault, Barthes e Certeau)
2. Produção do discurso: procedimentos de controlo, selecção, organização e redistribuição
3. Redes e dependências intradiscursivas, interdiscursivas e extradiscursivas
4. A reconstrução de uma formação discursiva (Foucault):
(i) os limites e as formas do dizível;
(ii) os limites e as formas da conservação dos discursos;
(iii) os limites e as formas da memória;
(iv) os limites e as formas da reactivação e apropriação dos discursos
5. A constituição do arquivo como a afirmação de um poder arcôntico (Derrida, Foucault)
6. Disciplina versus ciência: os princípios de rarefacção do discurso e a vontade de verdade na modernidade.
7. O comentário: as narrativas maiores (textos jurídicos, religiosos, literários e científicos)
8. Antinomias do falar e do escrever (Certeau)
9. As antinomias do ler e do escrever (Barthes e Blanchot)

Sessão da manhã de 13 de Outubro — 09h00 > 13h00

III. Autor
1. O autor como princípio de agrupamento/unidade/origem/coerência do discurso (Foucault, Barthes, Derrida):
(i) a individualização do autor, a noção de escrita e a categoria crítica “o homem-e-a-obra”;
(ii) as quatro características da função autor: o livro como objecto de apropriação; o fim do anonimato do autor; a atribuição de um discurso a um autor; o valor, a coerência conceptual e a unidade estilística do autor;
(iii) a posição transdiscursiva do autor
(iv) a morte do autor

IV. Prática Oficinal
1. A compreensão complexa da importância do estilo nas ciências humanas (Barthes)
2. A relação docente numa lógica de encadeamento permanente de textos (Barthes)
3. O método como uma utopia da linguagem e a assunção de uma escrita insistente, elíptica e canibal: notas, citações, colagens e suplementos como o tecido da intertextualidade.
4. O seminário como setting e modelo objectivado da crítica ao modelo centrado na leitura-apropriação-comentário das metanarrativas (Barthes, Certeau):
A reinversão da supremacia civilizacional do ler sobre o escrever (Barthes)
(i) o artesanato do estilo
(ii) a escrita e o silêncio
(iii) a escrita e a revolução
5. A escrita bífida e a inversão da hierarquia fala/escrita (Derrida)
6. A escrita e a exigência da descontinuidade. A lei do crescimento da obra (Blanchot)
7. Questionar é jogar-se na questão (Blanchot)
8. O processo de escrita como entrada no jogo da différance. O incalculável. O imprevisível (Derrida)
7. Composição, encenação e compreensão do que não posso prever: a herança e o porvir como limiares da investigação crítica (Derrida)
8. Uma escrita a duas mãos: o Anti-Édipo de Deleuze-Guattari
9. A escrita como um trabalho do significante, da frase e da palavra e do limite (Certeau)
10. Endereço e destino
11. A vida como obra de arte (Foucault, Deleuze).

BIBLIOGRAFIA

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Blanchot , Maurice(1984). O livro por vir. Lisboa: Relógio d’Água.
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Deleuze, Gilles (2003). Conversações. Lisboa: Fim de Século.
Deleuze, Gilles & Guattari, Félix (1992). O que é filosofia. Lisboa: Editorial Presença
Deleuze, Gilles & Guattari, Félix (2004). O Anti-édipo: Capitalismo e esquizofrenia1. Lisboa: Assírio e Alvim.
Deleuze, Gilles & Parnet (2004). Diálogos. Lisboa: Relógio d’Água.
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Peters, Michael (2000). Pós-estruturalismo e filosofia da diferença: Uma introdução. Belo Horizonte: Autêntica.
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Silva, Tomaz Tadeu da (2000). Teoria educacional e educação: Um vocabulário crítico. Belo Horizontes: Autêntica